Comecei um novo blog, o “Mister Pereira“, onde vou conversar sobre minha prática como professor de ciências na Inglaterra. O blog será aberto para a conversa e meu público-alvo são professores que querem conversar sobre estratégias para melhorar a vida em sala de aula – não que eu tenha a resposta, mas tenho perguntas, como sempre. Te convido a fazer uma visita! Deixo, abaixo, o primeiro post.

Grande abraço,

Daniel.

Mister Pereira, Teacher of Science: Ano 1

por Daniel Ruy Pereira

“Cuidado” – dizia o Prof. Toshiharu Kondo, numa aula introdutória de Instrumentação para o Ensino de Ciências, na pequena grande Fundação Santo André, no início de 2003 – “quem bebe da água do magistério nunca mais fica sem ela.”

Terminei a faculdade em 2006, mas faltava o estágio supervisionado, com diário e tudo. Eu trabalhava no call-centre de uma seguradora, já há um ano, para poder pagar minha Licenciatura Plena em Ciências Biológicas. Eu até levava jeito explicando paleontologia e citologia aos meus colegas de classe; no último ano, decidi que seria professor.

Em 2008 eu comecei duas coisas. Três na verdade.

  1. Uma família. Casei.
  2. Um blog.
  3. Lecionar.

Na verdade, eu comecei com estágio supervisionado em uma escola pública no centro de São Paulo. Em 2009, comecei efetivamente a lecionar, como professor eventual numa outra escola estadual, em Santo André. E, em paralelo, comecei a dar aulas particulares de ciências e biologia.

Em 2010, a coisa engatou, quando fui contratado pela primeira escola particular para lecionar Biologia para o Ensino Médio. Nunca vou me esquecer (na verdade, vira e mexe ainda me lembro) do diretor, Fábio, me dizendo, por telefone, que haviam entrevistado outros candidatos, melhores que eu, mas que ele apostaria “na minha juventude e vontade de vencer.” Obrigado, Fábio.

No final daquele ano prestei concurso público e fui aprovado. Em 2011, me tornei Professor Efetivo de Ciências, em Santo André. Mas não sai de nenhuma das outras escolas para assumir este cargo. Precisava fazer tudo junto.

Aí, a ficha começou a cair.

Três turnos. Sem tempo de preparação de aula. Salário de R$10,00/hora.  Infraestrutura pra lá de precária. Salas superlotadas, às vezes com mais de 40 alunos. As constantes greves de professores. O pavoroso processo de atribuição de aulas. O descaso do governo e da população com a educação de nossas crianças. Tudo isso somado às minhas próprias dificuldades pessoais e problemas familiares. E tinha meus compromissos semi-profissionais na igreja evangélica que eu frequentava aos fins de semana, mas essa é outra história.

Não aguentei, exonerei meu cargo público 3 meses depois e lutei pra me sustentar com a escola e aulas particulares. É claro que não deu e, em 2012, voltei como professor temporário, da famigerada “categoria O”. Minha esposa ralava como auxiliar de enfermagem.

Também em 2012 veio minha primeira tentativa de começar meu mestrado. Como aluno especial na UFABC, mas não consegui me inscrever. Precisava do dinheiro de aulas do turno da tarde, e meus módulos seriam à tarde. Não deu certo.

Em 2013, tentei de novo. Mesmo problema.

Aí eu cansei de vez.

Em 19 de outubro de 2013, peguei um avião com minha esposa e me mudei para Dublin, Irlanda, para tentar a vida no exterior. A princípio, como estudante de língua inglesa. Mas, como sonhador que sou (e quem não é?), queria ser professor de ciências de um país de língua inglesa. Em 2014 consegui o reconhecimento iure sanguinis de minha cittadinanza italiana. De 2014 a 2015, trabalhei basicamente de barista e faxineiro e estudei inglês e o sistema educacional irlandês e inglês.

Dois anos depois de chegar, em outubro de 2015, por meio de uma agência de recrutamento de professores, assinei meu contrato para cobrir licença maternidade na Inglaterra, com a possibilidade de ser contratado em definitivo pela escola, em Buckingham.

Em 2016 comecei duas coisas.

  1. A lecionar ciências, em inglês, na Inglaterra.
  2. A ser pai.

Com a gravidez difícil, minha esposa teve pré-eclampsia e, por puro terror da iminência da paternidade e maternidade em uma cidade de 10 mil habitantes, sem família por perto, voltamos para o Brasil em agosto de 2016.

Já que estava voltando, em meio à tempestade política e econômica que o Brasil estava enfrentando, pensei que não custava tentar ficar. E comecei dando aulas de inglês em uma pequena escola em São Paulo.

Mas tudo era diferente. Eu era diferente de tudo. Pra começar, não conseguia comprar uma ale, Guinness ou cerveja de trigo por menos de 15 reais. E nenhum lugar de São Paulo servia flat white ou latte. E meus amigos mais queridos não queriam tomar chá com biscoitos de tarde comigo.

Em fevereiro de 2017, voltei à Irlanda, trabalhando de barista e faxineiro. Em 1 mês de trabalho, trouxe minha família (esposa e filha) e tomava ale toda sexta, chá com biscoitos toda toda e café todo dia. Com muffins.

Tentei ficar na Irlanda e me registrar como professor, mas os altos preços de aluguel e custo de vida em Dublin haviam mudado bastante e abri meus olhos para outros lugares, governados por rainhas e berço do Iron Maiden. Qualquer país com essas duas características me serviria.

Em junho, assinei meu segundo contrato, dessa vez mais experiente. E então, tive a ideia de começar este blog com o fim de repartir minhas experiências.

É interessante como a vida dá voltas e mais voltas, e acabamos num lugar parecido. Tudo, às vezes, porque só queremos beber água.

***

Se você leu minha história, ou linha do tempo, melhor dizendo, até agora, talvez se anime em ler um pouco mais. Meu plano é escrever sobre a experiência que vou começar em 04 de setembro de 2017, como professor de ciências em Oldham, Reino Unido.

Há muito o que dizer e perguntar – e planejar – até o início do ano letivo. Se você é professor, como eu; ama educação, como eu; e quer ver o Brasil futuro e os futuros brasileiros com uma educação melhor, talvez queira trocar ideias com este colega aqui. Pretendo usar minha tese de mestrado – ainda a ser realizado, antes de 2050! – para comparar vários aspectos dos dois sistemas educacionais, dividir recursos e ideias, bem como técnicas de gerenciamento de comportamento e sala de aula.

Vou dividir os posts com base nas palavras destacadas deste post. E vamos conversando. Tenho até 04 de setembro para me preparar e este blog será instrumental para isso.

Vou deixar os comentários abertos nesta página inicial, e usar perguntas e sugestões como ideias para novos artigos.

Mr. Daniel Ruy Pereira
Science Teacher

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