por Daniel Ruy Pereira

Um dia desses eu vi um meme que acertou com precisão o sentimento geral com relação a 2016. Imagina que você esteja esperando 2017 e lancem um 2016S, à la iPhones.

Perturbador não?

O ano de 2016 foi um dos anos mais bizarros desde 1985, quando nasci. Política e economicamente o Brasil, ou melhor, o mundo todo assistiu embasbacado a reviravoltas inimagináveis. Individualmente pessoas também experimentaram isso. Como eu.

Comecei 2016 como professor de ciências na Inglaterra; depois soube que minha esposa estava grávida; a gravidez foi difícil e precisamos voltar para o Brasil, deixando a promissora carreira de lado. Também teve o famigerado BREXIT e a insegurança de dois imigrantes brasileiros na Inglaterra. Sophia nasceu ingerindo mecônio (as primeiras fezes do bebê) e ficou na UTI neonatal por três dias. Para me manter no Brasil trabalhei como professor de inglês e termino o ano sem saber que direção tomar para 2017. Ah, e minha bebê caiu de cara no chão com 1 mês de idade, precisando de uma tomografia para verificar se estava tudo bem, o que, graças a Deus, aconteceu. Talvez você se identifique com o meu sentimento de “bizarrice generalizada”.

O que esperar de 2017? Não acredito em astrólogos e superstições de fim de ano, então nada do que disserem se aplicará a mim. No Brasil, os jornais preveem um 2017 economicamente difícil, e um furacão político se avizinha; atentados terroristas certamente serão planejados, mas não sabemos onde, ou se, se concretizarão. Não fiquemos, porém, só no cenário mundial. Cada um de nós não sabe, como Carrie Fisher, a Princesa Léia de Star Wars, se chegará intacto a 01 de janeiro de 2018. Quem de nós desenvolverá câncer? Quem sofrerá um acidente? Estará algum de nós em um avião com pane seca?

No fim das contas, 2017 trás as mesmas dúvidas que aparecem todo santo dia. Ao invés de nos benzermos, confiarmos em práticas e feitiços bobos como pular ondas etc, olhamos para os ensinos de Deus na Bíblia. Diferente das superstições e previsões astrológicas, a Bíblia não nos diz o que queremos ouvir. Pra começar, ela afirma a incerteza, e até dedica um livro inteiro para isso – o livro de Eclesiastes.

Mas é em Jeremias que encontramos nosso texto de hoje, 31 de dezembro. Um texto famoso, mas mal compreendido.

“Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês”, diz o Senhor, “Planos de fazê-los prosperar e não lhes causar dano, planos de dar-lhes uma esperança e um futuro.” (Jeremias 29:11) (1)

Pano de fundo

Antes de passarmos ao versículo 11, contudo, precisamos entender onde esse versículo está inserido. Ele faz parte da conclusão de um carta que Jeremias envia aos exilados israelitas na Babilônia em 587 a.C., mas essa história específica começa no capítulo 28.

O profeta Jeremias está no templo vazio, e possivelmente em ruínas, em Jerusalém, junto com outras pessoas e um outro profeta, Hananias, que lança uma profecia fantástica: Deus iria restaurar tudo em dois anos: tudo o que fora saqueado, todos os 20 mil exilados (2) e toda a destruição seriam completamente restaurados em dois anos.

“Assim diz o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel: ‘Quebrarei o jugo do rei da Babilônia. Em dois anos trarei de volta a este lugar todos os utensílios do templo do Senhor que Nabucodonosor, rei da Babilônia, tirou daqui e levou para a Babilônia. Também trarei de volta para este lugar Joaquim, filho de Jeoaquim, rei de Judá, e todos os exilados de Judá que foram para a Babilônia’, diz o Senhor, ‘pois quebrarei o jugo do rei da Babilônia’ (Jeremias 28:2-4).

Jeremias, reconhecendo o tipo de “profecia” populista que Hananias fez – o mesmo tipo de coisa boa que os astrólogos da TV tendem a dizer, o contraria publicamente depois de alguns dias.

Disse, pois, o profeta Jeremias ao profeta Hananias: “Escute, Hananias! O Senhor não o enviou, mas assim mesmo você persuadiu esta nação a confiar em mentiras. Por isso, assim diz Senhor: ‘Vou tirá-lo da face da terra. Este ano você morrerá, porque pregou rebelião contra o Senhor’ “. E o profeta Hananias morreu no sétimo mês daquele mesmo ano. (Jeremias 28:15-17)

Mas não foi suficiente. A fim de assegurar que a mensagem mentirosa de Hananias não fosse tomada por verdade, Jeremias escreveu uma carta cujo resumo é mais ou menos esse:

“Todos vocês vão ficar no exílio por 70 anos. Vão morrer na Babilônia. Seus filhos morrerão na Babilônia. Então façam sua vida por aí.” (3)

Nas próprias palavras de Jeremias:

“Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os exilados, que deportei de Jerusalém para a Babilônia: “Construam casas e habitem nelas; plantem jardins e comam de seus frutos. Casem-se e tenham filhos e filhas; escolham mulheres para casar-se com seus filhos e dêem as suas filhas em casamento, para que também tenham filhos e filhas. Multipliquem-se e não diminuam. Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela”. Porque assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: “Não deixem que os profetas e adivinhos que há no meio de vocês os enganem. Não dêem atenção aos sonhos que vocês os encorajam a terem. Eles estão profetizando mentiras em meu nome. Eu não os enviei”, declara o Senhor. (Jeremias 29:4-9)

E então, Deus passa a fazer uma promessa escatológica: No futuro Ele traria o povo de sua aliança de volta. O povo de Israel não será destruído, mas regressará. Porque Ele, o Senhor Deus, sabe o que faz.

Você consegue imaginar como isso teria soado aos ouvidos dos que acreditavam em Jeremias? Teria soado mais ou menos como: “Esqueçam as falsas esperanças, sua situação não vai mudar, mas confiem em mim porque eu sei o que estou fazendo. Essa é a realidade que eu dei para vocês; vivam-na, não reclamem e tenham os olhos na eternidade.”

Não soa muito diferente do conselho aos hebreus:

…corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus. (Hebreus 12:1,2)

Ou seja: como Jesus, carregue sua cruz, corra sua corrida e confie nos planos de Deus. Assim, Jeremias fornece, de acordo com Warren Wiersbe (4), uma mensagem aos que não têm esperança, uma mensagem aos que têm falsa esperança uma mensagem aos que têm verdadeira esperança.

Isso ficará mais claro quando quebrarmos o texto em partes menores.

Deus sabe os planos que tem para nós

Acho que nunca vi ninguém explicar isso melhor que Charles Spurgeon:

Veja que as Escrituras não dizem “eu sei os planos que tenho pensado para vocês”. Seremos felizes em lembrarmos disso, porque os planos de Deus para o Seu povo são mais antigos que as montanhas. Nunca houve um tempo em que Deus não pensasse no Seu povo para bem. Ele diz: “Te amei com amor eterno e com bondade te atrai”. Mas o ponto aqui é que Ele ainda pensa no Seu povo. (5)

Deus fala sempre no presente. Nós podemos não saber o que Deus quer para nós, quando recebemos uma notícia do tipo, “resolvemos não te dar o emprego que tínhamos prometido”, “você está com uma doença rara”, “você será demitido”. Ficamos indignados e gritamos para o céu: “Deus meu, por que me abandonaste?” Nessa hora devemos nos lembrar que não sabemos qual é o plano de Deus, mas Ele sabe.

Spurgeon ainda nos lembra que Deus é um escultor. Você é o mármore. Você sente o martelo e o cinzel de Deus lascando cada parte de você, em diferentes intensidades, mas não entende por quê. No entanto Deus já sabe onde quer chegar – tem a imagem pronta na cabeça, o que te levará a agradecer pelas marteladas e lascadas. Os planos de Deus já estão revelados a nós:

Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: que fôssemos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu. Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é. Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro. (1 João 3:1-3)

Deus te esculpe diariamente a fim de te fazer, filho de Deus, semelhante a Jesus, o Filho Únigênito. Ora, Jesus se esculpiu para ser como você e se fez pecador no seu lugar. Que cruz é mais pesada que a dele? Que escultura é mais excêntrica que Deus se fazendo de pecador a fim de que você fosse uma obra de arte parecida com ele. Cada dificuldade da sua vida é uma martelada a mais rumo a este objetivo. O plano de Deus para você é uma promessa escatológica, como os israelitas teriam entendido: “Você é povo de Deus. Um dia, Deus tornará seu povo 100% perfeito. Até lá, viva cada dia deixando Deus te esculpir um pouco mais.”

Os planos de Deus são de bem e não de mal

Quando algo péssimo acontece, nossa primeira reação é: “como pode isso ser algo bom?” Como Deus permite coisas ruins acontecerem conosco? A resposta é simples: porque faz parte do seu plano para nosso bem definitivo. Simples, só difícil de engolir.

Fica mais fácil de engolir quando você pensa em Deus como o programador de um videogame. O videogame é um mundo à parte, para onde você, o jogador, é absorvido e lá vive. Por exemplo, ultimamente tenho jogado Pokémon Moon. Começa com um menino que vai viajar, conhecer pessoas e tentar se tornar o treinador mais forte da região. Você encontra pokémons, aprende sobre eles, suas forças e fraquezas. Meu Maguila é um Pokémon de dois tipos: gelo e lutador, então o coloco para lutar contra dragões e normais, mas ele é horrível contra pokémons de fogo e psíquicos, isso sem considerar o treinamento de Effort Points e os Individual Values; ou os outros pokémons necessários para balancear meu time… E assim vai.

Tudo é fantasia. É um programa em um videogame, e nada daquilo é real. Minha afeição pelos meus bixinhos, porém, existe e não quero trocar um que gosto tanto por outro mais forte. E tudo, pasme, é produto da mente de programadores. Eles antecipam como eu, o jogador, penso; colocam os desafios em crescente dificuldade para que eu me torne um jogador melhor; guiam-me pelo mundo que criaram, cujo fim só eles conhecem, e sobre o qual têm controle total.

Seja Pokémon, Super Mario, Zelda, Batman; seja para salvar a princesa, salvar o planeta ou vencer o crime. O plano do programador é um plano de bem, e não de mal, para me dar um fim que eu espero, ou um futuro e uma esperança. Cada variável, cada comando do controle, foi tudo cuidadosamente programado. Porém, sua mente e inteligência são limitadas e ele só está no controle do que programou. Mas e se a inteligência, poder e habilidade do programador fossem infinitos?

Eu chamaria esse programador de Deus.

Minha esposa é maluca por Tetris. A ideia de Deus como programador veio dela, aliás. No jogo, peças caem do céu, de forma imprevisível e em velocidade cada vez maior; você precisa dar o seu melhor para organizar as peças rapidamente a fim de conseguir seu objetivo: fazer linhas completas sem deixar as peças se acumularem até o topo.

Deus manda peças do céu também. Para você elas parecem aleatórias, mas não são, não. Deus está no controle, e seu plano é de paz, não de mal, para lhe dar um futuro e uma esperança, ou o fim que você deseja – o que nos leva ao último ponto dessa nossa análise.

O fim que esperamos ou um futuro e esperança

Aparentemente, as traduções baseadas no manuscrito da Idade Média, o Textus Receptus, trazem o final do verso como “para vos dar o fim que desejais”, enquanto que outras baseadas em outros manuscritos preferem “para vos dar um futuro e uma esperança”. A diferença é importante.

Muita gente lê o versículo como quer. Se Deus quer me dar o fim que eu desejo, e o fim que eu desejo é de ter coisas e bens, então gostei da história, mesmo que o texto não diga isso. Mas lembre-se: a mensagem é escatológica. Aqueles exilados israelitas desejavam voltar para Israel. Deus está, explicitamente, afirmando que eles não iriam voltar, mas que seus descendentes, um dia, voltariam, após 70 anos. Claramente, não é o fim que um exilado desejaria ouvir.

A menos que esse exilado pensasse escatologicamente. Estou usando essa palavra técnica o tempo todo, então vou explica-la brevemente. “Escatologia” fala da doutrina acerca das últimas coisas da história. Fala da consumação do plano de Deus ou do final daquela escultura que o Criador está fazendo em nós. Se pensarmos nesses termos, “um futuro e uma esperança” ou “o fim que desejais” não apresentam muita diferença entre si, na prática.

Qual é o fim escatológico que você deseja?

Só existem dois possíveis. O primeiro é a vida eterna por meio de Cristo Jesus; o segundo é a morte eterna sem Cristo Jesus. Esta escolha você faz hoje, e começa a viver suas consequências ainda hoje. Tal é o clímax do plano de Deus para cada um de nós. No versículo 10, Deus diz aos exilados:

Assim diz o Senhor: “Quando se completarem os setenta anos da Babilônia, eu cumprirei a minha promessa em favor de vocês, de trazê-los de volta para este lugar. (Jeremias 29:10)

Perceba que a promessa que Deus faz é depois dos setenta anos. Não antes. Vai vivendo sua vida na realidade na qual Deus te colocou, trabalhndo e construindo sua vida com os olhos no futuro. Então, v.11: Deus sabe o que está fazendo e está no controle de tudo. Inclusive revelando o que acontecerá depois dos setenta anos.

Então vocês clamarão a mim, virão orar a mim, e eu os ouvirei. Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração. Eu me deixarei ser encontrado por vocês”, declara o Senhor, “e os trarei de volta do cativeiro. Eu os reunirei de todas as nações e de todos os lugares para onde eu os dispersei, e os trarei de volta para o lugar de onde os deportei”, diz o Senhor. (Jeremias 29:12-14)

O fim desejado deve ser este: buscar o Senhor de todo o coração. É também a conclusão de Eclesiastes: tudo é sem sentido, exceto se Deus for o centro de sua vida, se Deus for o astro em torna do qual sua vida e sistema orbitam.

“Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé? Portanto, não se preocupem, dizendo: ‘Que vamos comer? ’ ou ‘que vamos beber? ’ ou ‘que vamos vestir?’ Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas. Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal”. (Mateus 6:28-34)

Misterioso é o agir de Deus

William Cowper foi um dos maiores poetas da língua inglesa que viveu no século 18. Entre seus lindos hinos, um deles se destaca e vem me seguindo há certo tempo. Tendo sofrido com depressão severa por toda a sua vida, Cowper tentou se suicidar várias vezes. Dizem que uma dessas vezes planejava se jogar de uma ponte; pagou um homem para leva-lo, mas a carroça não conseguiu chegar à tal ponte; foram obrigados a voltar para casa. O homem não quis nem receber o dinheiro de Cowper, que fez questão de lhe pagar dizendo: “Você acabou de salvar minha vida, sem saber de nada.” Então, entrou em casa e escreveu o hino, o qual será minha conclusão. Pense nisso no ano que se inicia.

Deus se move de um modo misterioso
A fim de executar Suas maravilhas;
Coloca Seus pés sobre o mar
E anda sobre a tempestade.

Profundo em obras incompreensíveis,
De habilidade infalível,
Ele protege Seus brilhantes desígnios
E opera Sua vontade soberana.

Vós, amedrontados santos, tenham renovada coragem!
As nuvens que tanto temeis
São grandes em misericórdia, e romperão
Em bênçãos sobre vossas cabeças.

Não julgue o Senhor com sentidos tão débeis,
Mas confie Nele por Sua graça;
Por trás de uma apavorante situação
Ele esconde um rosto sorridente.

Seus propósitos rápido hão de amadurecer,
Desdobrando-se hora a hora;
O sabor do broto pode ser um tanto amargo,
Mas a flor mui doce será!

A incredulidade cega certamente se equivocará
E, em vão, tentará entender Suas obras;
Somente Deus é intérprete de Si
E tudo deixará claro.

Notas

(1) Todos os textos bíblicos são da NVI (Nova Versão Internacional), salvo se o contrário for indicado.

(2) https://en.wikipedia.org/wiki/Babylonian_captivity

(3) Chris Blumhofer, The most misused verse in the Bible

(4) Warren Wiersbe, Comentário Bíblico Expositivo: Proféticos, v.4. Geográfica: São Paulo.

(5) Charles Spurgeon, God’s thoughts of peace, and our expected end. 29 maio 1887.

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