por Daniel Ruy Pereira

Raul Seixas já cantava
Que a Terra um dia parou.
No caso dele foi sonho
Então, não se aperreou;
Agora, comigo, amigo
O negócio apertou

Minha mãe bem que me alertou:
“Ei, não dependa dos outros
Pois podem não estar lá.”
Os mais beatos romeiros
Talvez saibam o que passei
E lhes contarei, meus caros.

Meus momentos não são raros:
Acordar tão cabisbaixo,
Sem imaginar o motivo!
Será que eu saí do eixo?
Será que eu perdi o juízo?
Será imenso o meu desleixo?

Na cama, deito e me mexo
Daqui pra lá, sem dormir,
Com a consciência pesada…
Pra não mais me deprimir
Por fim tomei decisão:
Ver o Padre Vladimir.

Estava a me consumir –
Tinha que me confessar!
“Farei isso de manhã
Assim que a noite passar.”
Foi então que eu cochilei
(Até esqueci de rezar)

Pra não ter que me apressar,
Indisposto a dar bandeira,
Sai cedinho de casa
E aí, rapaz, que doideira!
O padre tinha sumido!
Gripe? Febre? Caganeira?

Já perdia a estribeira
Quando chega a secretária:
“Martinho, por que tão cedo?
Já passou na padaria?”
Respondi ser confissão.
Que hora o padre viria?

Bom, hoje ele não estaria.
Vixe, aí fiquei surtado!
O que eu podia fazer
Pra ter perdoado o pecado
Que azucrina todo dia?
“Não quero ser condenado!”

E chorei desesperado.
A moça então me falou:
“Calma, rapaz, não se avexe.
Se é culpa que te abalou,
Padre Vladimir não serve.”
Meu zoião se arregalou

E a moça me revelou
Que eu devia ler a Bíblia,
Especialmente Mateus,
Cuja leitura valia
Porque contava de Cristo,
De um jeito simples, sem falha.

Ora, eu sei que quem trabalha
Vai colher no tempo certo
Sejam dias ou semanas,
Quando o coração tá aberto,
Não existe cafajeste
A quem Deus não dê conserto.

Nunca me achei muito esperto.
A Bíblia achava difícil
E só o padre era capaz
De fazer um Deus tão hostil
Perdoar minhas transgressões.
Como fui tão infantil?

Quem me vê e quem me viu!
Fui de Deus o Acusador,
Sempre pronto a me punir,
Para Deus, meu Pai de amor,
Que responde a oração
Através de um Mediador.

Quem seria esse Senhor?
Não é padre, bispo ou papa,
Nem sacerdote nem rei,
Nem pai-de-santo, meu chapa.
Nem reverendo ou pastor,
Nem super-homem com capa.

Nenhum ser humano escapa,
Pois todos somos iguais:
Pecadores tais, tão maus,
Que ninguém é bom, jamais.
Meu amigo, não se trata
De ter valores morais

Nem de ter bons ideais.
Que ser humano vasculha
Seu coração todo dia?
Melhor ainda: quem olha
Para o grande amor de Deus
Pra, enfim, jogar a toalha?

Nessa nossa Terra velha
Só Jesus foi obediente.
Foi Mateus que me ensinou
Que Ele aceita o descontente,
Perdoa quem é culpado
E faz isso alegremente

Agora veja o seguinte:
Um mediador não faz média,
Mas fica entre os opostos.
Sem Ele acaba em tragédia
A relação de homem e Deus –
Que começou bem, um dia.

Você vê, hoje, na mídia
Igreja atrás de dinheiro
Pra te levar ao Criador.
Isso me deixa cabreiro!
Bando de mediador falso…
Como Deus vê esse chiqueiro?

O Mediador Verdadeiro
De você não cobra nada.
Jesus deu sua própria vida,
Vencendo a cobra danada:
O satanás mentiroso,
Que só faz armar cilada

Das quais a mais assanhada
É nos deixar orgulhosos
Pra ser deuses de nós mesmos,
E pôr líderes charmosos
Falando o que se quer ouvir.
Dando frutos desastrosos…

Não se renda aos mentirosos
Que não conhecem Jesus.
Nenhum líder nesse mundo
É capaz de fazer jus
Ao seu grande sacrifício:
Ir, voluntário, pra cruz.

Nem tudo que é ouro reluz.
Cristo são outros quinhentos.
Ele nos convida a todos:
Nós, retirantes sedentos,
Cuja alma é mais que seca,
E cujos males são tantos.

Quando eu me cansei dos atos
Maus que vivia fazendo,
Deus fez o padre sumir.
Pois não foi me confessando
Que eu, um dia, tive paz.
Foi me rendendo e orando.

Começou em Mateus, lendo:
“Venha quem está cansado –
Não aos padres, mas a Mim;
Quem está sobrecarregado
Venha! Te darei alívio!
Meu fardo não é pesado.”

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