por Daniel Ruy Pereira

Depois de pagar a garota e despedi-la para mais algumas horas de trabalho, Jorge abriu a porta da varanda, trazendo o banquinho da cozinha para passear, como sempre. Respirou o vento profundamente, sentindo o cheiro gelado inesquecível da poluição, enquanto seus olhos doíam ao olhar todo o neon dez andares abaixo. Viu a garota entrar em um outro carro, mas não sorriu nem chorou.

Cada prédio visto é um novo programa de TV, e com os olhos roda pelos canais. Mas nenhum deles é interessante. O relógio puxa assunto; os carros abafam. Jorge acende um  cigarro e traga, olhando por 5 segundos para a foto do feto abortado na caixinha. “Preciso parar com essa merda.” E tragou de novo. Parecia faltar alguma coisa.

Tirou a camisa. O vento arrancava-lhe o calor do peito nu, estranhamente vivendo essa perda. Gostava, mas esta ainda incompleto. Voltou para a geladeira, pegou a cerveja belga que o Oswaldo do Empório lhe vendera mês passado. “Nova essa aqui, Jorge. A cervejaria tem uns 300 anos, acho que você vai gostar.” Muito amável o Oswaldo – com quem passava lá todas as quartas e sextas. “Passei lá hoje e ele nem cumprimentou mais.”

De volta à varanda, que era seu observatório para um planeta alienígena, fumou outro cigarro, mas não terminou. Faltava algo ainda. Talvez fosse o cigarro de palha do seo Ernesto, que trabalhava com os cavalos. É… O seo Ernesto era gente boa, e todos os cavalos gostavam dele, pelo que lembrava. “Nomeou à égua ‘Epona’, só porque sabia que eu gostava de Zelda.”

Vendo seo Ernesto ir embora com a fumaça do cigarro, ouve de novo o relógio chamar pra conversa. Precisava passar a camisa e pendurar o terno – “praquela bosta de emprego.” Dava dinheiro, opa. A carreira progredia e era promissora – e pensar que conseguira toda sua experiência na fazenda do pai. Não sentia falta de nada. Afinal, “nada” é o Jorge mais tinha na vida. Dona Rose nunca usou terno; todo dia usava aquele vestido feio, sorrindo pra fazer o café de manhã e o pão-de-queijo. “Hoje tem goiabada junto, fío!”

Não tinha goiabada na geladeira. Não tinha nada fazia dias. “Puta saudade, hein Dona Rose?”

Cada minuto lançava um dos empregados da fazenda. Mas o ataque foi mais forte quando olhou para a foto no aparador. Tinha tirado a foto do antigo celular, de dentro do táxi. Era feia, na verdade, fora de quadro e tudo. Mas tinha o pai acenando e o irmão mais velho olhando pra baixo. O sol se punha. A casa da fazenda estava em terceiro plano.

Desabou no sofá mesmo, ao som de um ônibus que passava na rua, dando-lhe lágrimas e ideias.

No outro dia, na empresa, queriam saber do Jorge, que faltara para a reunião em que seria promovido. E Jorge, no ônibus, queria saber do pai, se o receberia de volta como empregado da fazenda. E o pai de Jorge, na fazenda, só queria saber do filho que tinha ligado dizendo que chegaria à noite.

Mesmo assim, o pai abriu a porteira aberta e trouxe um banquinho, como sempre. Respirou o vento profundamente, sentindo o cheiro adorável da grama. Via garotos saindo de carros, mas nenhum deles nunca era o seu.

Até hoje.