por Daniel Ruy Pereira

Você leu o título acima e pensou: “Esse cara fez uma pergunta estúpida. É óbvio que ele vai dizer que sim. Pra que a pergunta?” Se este é o caso, você é como eu e, se não é ainda, pode se tornar um cético. Acredite: quando você duvida das intenções de alguém, tem um belo potencial. Por isso, vou reformular minha pergunta:

Caso você se torne um cético, vai ter lugar pra você na Igreja? Ou então, caso você já seja cético, precisa deixar de ser pra ter um lugar na Igreja? (Caso você se importe com isso, obviamente).

A resposta para essas perguntas é: depende. Primeiro, depende de você não se achar melhor que os outros pobres crentes que estão perdendo tempo lá. Se você for cético quanto a você mesmo e ao seu ceticismo, opa. Puxa a cadeira ou senta no banco aí comigo e vamos cantar um hino.

Segundo, depende da igreja. Note o “i” minúsculo. Não é maiúsculo porque uso uma diferenciação meio esquecida nas nossas conversas. O “i” maiúsculo se refere à Cristandade – pode também se referir a uma denominação, como em “Igreja Católica”, “Igreja Presbiteriana”, e assim por diante; contudo, se a intenção do termo é se referir ao conjunto de crentes em Cristo, então é “Igreja” apenas. O minúsculo refere-se àquele prédio que você passa em frente e que carrega uma placa com “i” maiúsculo anunciando o nome da denominação, uma das inúmeras variações possíveis de igrejas que derivaram, mas não necessariamente evoluíram, de uma denominação-mãe, derivada de uma outra e assim por diante, nos últimos 2000 anos de historia desse mundão de meu Deus. Muitas delas se acham bem melhores que você, pobre cético que está perdendo tempo longe de lá.

Assumo que você seja humano. Como eu. Num silogismo besta, afirmo que eu, um humano (cético), encontrei lugar na Igreja. Você é humano (cético?). Ergo, pode encontrar lugar na Igreja.

Mas estou enrolando aqui (ou não?). Quando uso a palavra cético, o que quero dizer?

Cético não significa ‘aquele que duvida, mas aquele que investiga ou pesquisa, ao contrário daquele que afirma e pensa que encontrou’. (Miguel de Unamuno, Essays and Soliloquies, 1924)

Ou, mais simples que isso, como um professor que tive um dia declamou em sala, “o sábio tem muitas duvidas; o idiota, muitas certezas.”

Me permita voltar um pouco à minha afirmação: eu encontrei lugar na Igreja. Significa que me tornei cristão. E sou cético. Soa estranho? O cristão não é crente, aquele que acredita? O cristão começa com um monte de pressupostos não-científicos, não-testáveis, absolutos. Como pode, então ser cético? Pode um ateu ser crente? Um crente ser ateu? Pode alguém que defende absolutos relativizar? E o relativista, pode crer em absolutos?

Tudo isso pode. Só depende da sua perspectiva. Contudo, preciso te explicar minha perspectiva sobre o ceticismo. Eu gosto da definição de Unamuno, mas acho que falta algo nela. O cético investiga ou pesquisa, não porque duvida de tudo, mas porque acredita positivamente que tudo está aberto à dúvida, menos sua premissa positiva. E precisa disso porque, se deixar tal crença (seu pressuposto) passa a ter uma certeza absoluta, não-testável, não-cientifica, de que algo não esta aberto à dúvida – algo é certeza; sua visão de realidade, então, colapsa.

Como toda cosmovisão, o ceticismo possui algumas certezas absolutas. É bem simples mesmo, como aquele raciocínio circular, famoso: se toda certeza absoluta é relativa e essa afirmação é absoluta, então você já sabe onde chego. Ou, pra dizer de outro modo, todos os humanos estão entre o espectro de 1 a 99% de ceticismo – nunca 0 ou 100. Assim, estabeleço que qualquer cético não é e nem pode ser cético por completo, investigando ou pesquisando tudo o que vê pela frente; pelo fato de a natureza do conhecimento ser como é, infinito até onde podermos ver, e porque precisamos acordar cedo pra trabalhar, cuidar dos filhos e tomar café, ler o que algum pesquisador, de uma área que não dominamos, afirmou na notícia mais recente.

Pra cada físico newtoniano do século XVIII matéria é sólida até que cheguem Einstein, Planck e Schröedinger. Pra cada biólogo o modelo celular atual é incompleto. Ou seja, cada pensador depende de outros e constrói sua cosmovisão baseado em pressupostos que não necessariamente domina, enquanto vai vivendo sua vida e dividindo seu tempo com inúmeras outras formas diferentes de conhecimento. Eu não sou bom em matemática, então, quando tento entender o modelo padrão ou a teoria das supercordas, me ponho das mãos de gente que é. Ou então, você acha que, quando afirmo que uma molécula de DNA possui carbono eu realmente sei o que é um átomo de carbono?

“Ora” – alguém vai dizer – “temos uma ideia bem sólida e confiável do que é um átomo de carbono. O modelo atômico atual funciona com um grau bem razoável de… certeza! E essa certeza não fui eu quem construí, mas muitas outras pessoas, nas quais me apoio para fazer uma afirmação “com certeza”. Quando a pessoa passa a questionar essa afirmação, porém, ela vira um cético. E isso é bom!

A ciência precisa do ceticismo pra avançar, é claro, mas não um ceticismo completo (que não existe). Senão, tudo fica etéreo e, ademais, ninguém paga bolsa de pesquisa pra quem não quer dar uma resposta concreta a uma pergunta. Algumas afirmações, porém, são intocáveis para a comunidade científica que faz a ciência que você lê no jornal ou experimenta no antibiótico. Veja que isso não é garantia de que todo produto científico não seja construído sobre areia. O sujeito que acende uma lâmpada porque usa o fluido eletricidade faz a lâmpada funcionar, mas está errado. Eletricidade pode ser um monte de coisa, mas fluido é que não é, porque observações mostram que não e são corroboradas por inúmeros experimentos. Disso, ninguém abre mão. É sim, a despeito de quem diga o contrário, absoluto como a afirmação de que a física newtoniana não explica toda a realidade ou de que o átomo de carbono é suficientemente bem conhecido ao ponto de ser definido. Ou que a Terra não seja plana. Ou que as espécies não evoluam (o que quer que isso signifique além de “mudança funcional com o tempo”). Vai dizer o contrário, pra você ver.

Resumindo, na aventura da vida, certas premissas ou pressupostos são absolutos. À guisa de argumento, não importa quais ou como; quando você precisa de um pressuposto para construir uma cosmovisão, ele será, para todos os efeitos práticos, absoluto. E alguns são tão absolutamente absolutos que você não mexe neles. O ateísmo depende da ideia de ausência de Deus como a religião depende da ideia da existência Dele (ou dele, ou disso, ou de algo que ocupe o Seu lugar). Daqui por diante, vou chamar essa “ideia ou pressuposto totalmente absoluto” de “super-premissa”, porque acho que o nome soa bem pra caramba.

A fim de estabelecer super-premissas, o pensador se baseia em algo sobre o qual dificilmente tem controle. Pode ser observação (coisas caem no chão), indução (coisas com massa caem no chão porque suas massas, coisa-chão, se atraem), construção comunitária (coisas caem no chão porque, ao invés de serem atraídas, como Newton dizia, promovem curvaturas no espaço-tempo, de acordo com Einstein), tradição (a relatividade geral tem funcionado muito bem nos últimos cem anos). Em ciência, tradição é tão importante quanto revolução.

Isso é tranquilamente aceitável dentro da comunidade científica – diz outro cara – mas certamente não é o caso do Cristianismo. Afinal, cristianismo é tradição derivada de um livro antigo, uma coleção de dogmas. Lembre-se porém, que o cristianismo, como qualquer escola filosófica, foi construído. Cristo nasceu, pregou, morreu, ressuscitou. Os apóstolos construíram seus ensinos sobre os Dele, que construiu sobre o Velho Testamento. No final do século I o Novo Testamento estava escrito, mas não consolidado, pela velocidade de comunicação e pelo fato de que os cristãos geralmente não conseguiam se reunir numa grande convenção ou concílio pra discutir suas opiniões sem serem mortos por isso. Muitos outros livros foram produzidos no processo, lidos e rejeitados, de modo que a base oficial do cristianismo, a Bíblia, passou a ser institucionalmente aceita a partir do século IV d.C. Mas os céticos (ou que duvidam e pesquisam) sempre existiram dentro da Igreja. Jesus tem uma ou duas naturezas? Ele é diferente do Pai? E quanto ao Espírito Santo? Quem duvida da Trindade é cristão? Para onde a alma vai quando morre? Como as pessoas são salvas? Deus que me escolhe ou eu que o escolho? Existe idioma santo no cristianismo ou isso não importa? Devo me isolar da sociedade ou viver no meio dela? Posso ser santo no meio do mundo? A Igreja deve ter um líder máximo? Pode haver mais de uma igreja? O que é batismo? Crianças devem ser batizadas? E por ai vai.

Essas perguntas exigiram debate, reflexão divulgação persuasiva (pregação) revista pelos pares e até resistência e revolução. Algumas perguntas levaram pelo menos 300 anos para serem respondidas; outras, ainda não foram completamente. E desafios modernos propõem novas questões, algumas das quais funcionam como navalhas dividindo a Igreja outra vez.

Estou ciente de duas coisas aqui: 1. As igrejas são instituições e atividades humanas. 2. A Igreja não. Cada denominação cristã foi criada por um homem ou vários de mesma opinião. O grau de ceticismo desses fundadores varia, mas estava lá. E a resposta proposta à pergunta é tão importante que serve inclusive de classe taxonômica – evangélica, ortodoxa, liberal, reformada, católica etc.

Eu sou cético a contragosto. Cresci em denominações cristãs pentecostais, mas tive tantos problemas nelas e sofri tanto preconceito e segregação que um dia precisei sair de lá. Pra cada evento em minha atividade cristã originava-se uma pergunta, que não encontrava resposta na igreja. Conheci outros cristãos, de outras épocas e de outras denominações, que ora respondiam frações de perguntas, ora aumentavam certas perguntas ou davam a elas novo prisma, ou as respondiam completamente. Bem mais tarde, encontrei meu lugar nas igrejas históricas, com suas tradições e liturgias, e espaço suficiente para minhas perguntas correrem pela igreja durante o culto.

O cristão aprende a ser cético. As perguntas são seu café-da-manhã. Como em “Matrix”, onde Neo vive procurando responder à pergunta: “O que é a Matrix?” Confrontado por Trinity ouve as sábias palavras: “é a pergunta que nos dirige”. Seria a cena preferida de Tomás de Aquino, que afirmou: “Deus não é a resposta. Deus é a pergunta.”