por Daniel Ruy Pereira

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O paradoxo de Epicuro. (1)

Passeando pelas andanças da internet encontrei esse meme. Achei fascinante, por vários motivos, mas especialmente pela declaração de que esse poderia ser um dos mais fortes argumentos desenvolvidos pelo ateísmo. Diante disso, eu ri.

Não sei se ri porque o meme basicamente desconsidera 2000 anos de desenvolvimento filosófico que responde ao argumento de inúmeras formas. Mas eu ri.

Minha proposta neste artigo é simplesmente analisar as questões do paradoxo de Epicuro como apresentado no meme e pensar um pouco sobre as implicações, propondo a razão porque considero que o paradoxo não é ameaça nenhuma ao cristianismo.

1. O MAL EXISTE?

Ao problema, no meme, oferece-se uma resposta. Mas vamos com calma. Estamos falando de que tipo de mal? Se falarmos de um individuo assassinando outro porque cometeu adultério, podemos simplesmente pensar em uma consequência darwinista de seleção sexual. O mais apto sobreviveu e ficou com a mulher, a fim de passar seus genes. A mulher, porém, pode matar o primeiro e sair atrás de um terceiro, porque precisa passar seus genes e esta à procura de um melhor doador, a fim de aumentar as chances de sobrevivência de sua prole. Não há mal nenhum aqui, apenas luta pela sobrevivência. Em última análise, tudo isso cooperará juntamente para o bem daqueles que amam a espécie humana, porque o melhor gene vai passar adiante. Alguém pode perguntar, “mas e se o gene assassino não for o melhor e mais apto?” Lembre-se: quem define isso são as condições de sobrevivência em um determinado ambiente.

Ou você pode achar que assassinar o outro é errado. Ora, nesse caso você implica a existência de ética e moralidade, que também poderia ser estratégia darwinista de sobrevivência da espécie humana. Até aqui, não tenho a menor necessidade de usar Deus na argumentação. O problema é que, realisticamente, a explicação não satisfaz, pela simples existência do nosso senso de justiça, que demanda uma base, uma gênese. Por que ficamos profundamente indignados com histórias como as de Adolf Hitler ou Suzane von Richthofen ou o estupro coletivo de uma menina no Rio de Janeiro? Por que, independentemente da sua cultura, estupro é visto com maus olhos pelos que não o praticam? Por que nenhuma cultura louva os mentirosos e traidores? Intrinsecamente pedimos, ou melhor clamamos, por punição para o errado, para o injusto. Darwinisticamente o conceito de justo não faz sentido individualmente, porque eu deveria louvar o errado, por vencer na luta pela vida através do uso de artificios que aumentam sua chance de sobrevivência e, em função do tempo, a chance de sobrevivência da espécie humana, que eu adoro e venero (ou vice-versa, se o errado diminui as chances). Ou vou punir o errado porque diminui (ou aumenta) a chance de sobrevivência e reprodução. Nesse caso implico que moralidade é parte de uma estratégia de sobrevivência contra coisas que eu aglutino e chamo de “mal”, o que contraria minha percepção diária e meu senso comum a respeito da natureza, do ser humano, da realidade e do cara que me tentou estuprar minha amiga. Agora, se o conceito de justo existe supra-culturalmente, e faz sentido individualmente, socialmente e mundialmente, então eu estou categorizando “justo” e “injusto” com base em algo não biológico, não darwinista. Artefatos divinos em minha natureza, talvez?

Eu poderia considerar mais possibilidades aqui, mas não tenho espaço, e o meme, como o paradoxo, a experiência e o senso comum, afirmam a existência de algo chamado “mal”, que seria simplesmente o oposto de bom, e por consequência que causa danos.

2. DEUS SABE QUE O MAL EXISTE?

“Não, então ele não é onisciente.” Concordo.

“Sim, Ele sabe.” Andemos pois.

3. DEUS PODE ACABAR COM O MAL?

“Não, então Ele não é onipotente.” Concordo.

“Sim. Ele pode.” Continuemos andando, pois.

4. DEUS QUER ACABAR COM O MAL?

“Não, então Ele não é bom.”

Opa, opa, calma lá. Porque pular para essa conclusão? Ela não é obrigatória. E se o mal faz parte dos intuitos de Deus para o bem do individuo e da humanidade? Vou usar um exemplo.

O cientista quer acabar com o sofrimento animal em testes de drogas? Não, então ele não é um bom ser humano. Ora, veja! O sofrimento animal nesse caso tem como objetivo o bem de todos os humanos, e está sendo utilizado para aquele resultado e para a extinção de um mal que mata milhões de pessoas anualmente.

Há várias explicações para por quê Deus não acaba com o mal. Vou me concentrar em uma. Em “O problema do sofrimento”, C.S. Lewis argumenta que bem e mal são dois lados de uma mesma moeda que chamamos realidade. A fim de ser compreendido, reconhecido e adorado como “bom”, Deus não só permite, mas conta com a existência do mal e do sofrimento a fim de que tal objetivo máximo seja alcançado pelo ser humano. Mal é o oposto de Deus, e nossa imersão num mundo mal nos leva até Ele, porque procuramos solução. Se Deus existe, e se o relacionamento com Ele é o fim máximo do homem, sua permissão em encontrarmos qualquer outra solução para o mal seria a permissão da idolatria, o que nos levaria para longe de Deus, ocasionando em eterna infelicidade e mal completo e insolúvel. Por isso, C.S. Lewis afirma: “O sofrimento é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo.” Da perspectiva de Deus, a distância Dele provoca sofrimento e mal (Romanos 3:23-24); se, a fim de nos aproximarmos Dele, precisamos do mal e do sofrimento, então Ele o usará para isso, e precisamente por isso Ele se mostra bondoso, porque esta nos trazendo de volta para si, fonte e destino de toda felicidade. E vamos ser gratos, porque, apesar de tudo, somos felizes – e isso não é masoquismo, porque o prazer não está no sofrimento per se, mas no benefício que virá dele.

Isso vem direto da Bíblia:

… agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que creem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus [condição de mal consumado], sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício [Deus aplicou o mal em si mesmo] para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos [o mal de um não é punido diretamente a fim de permitir chance para arrependimento]; mas, no presente, demonstrou a sua justiça [em Cristo], a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. (Romanos 3:21-26, NVI)

Mas esse não é o fim da história.

Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou”. (Apocalipse 21:4)

Então, sim, Deus quer acabar com o mal, mas não antes de usa-lo para o nosso bem.

5. ENTÃO PORQUE O MAL EXISTE?

“Para nos testar, mas se Ele É onisciente já sabe o resultado e não precisa nos testar”.

Mas quem disse que o teste é pra Ele saber?

[Vocês] … mediante a fé, são protegidos pelo poder de Deus até chegar a salvação prestes a ser revelada no último tempo. Nisso vocês exultam, ainda que agora, por um pouco de tempo, devam ser entristecidos por todo tipo de provação. Assim acontece para que fique comprovado que a fé que vocês têm, muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo que refinado pelo fogo, é genuína e resultará em louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado. (1 Pedro 1:6-7)

O objetivo do teste, de acordo com Pedro, no texto acima, é para comprovar a qualidade da fé do indivíduo não para Deus, mas para os outros (resulta em “louvor”) e consequentemente para si mesmo.

5.1 ENTÃO PORQUE O MAL EXISTE?

“Satã, mas se Deus é onipotente e bondoso teria destruído Satã”.

Ora, mas Ele já o fez. (A eternidade acontece fora do tempo e espaço.) O livro de Apocalipse conta essa história repetidas vezes, mas responde porque Deus não destruiu Satã na nossa percepção do tempo.

Quando terminarem os mil anos, Satanás será solto da sua prisão e sairá para enganar as nações que estão nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, a fim de reuni-las para a batalha. Seu número é como a areia do mar. (Apocalipse 20:7-8)

Deus usa Satã. O capeta faz parte dos planos de Deus para nos ajudar a nos aproximarmos dele ou, caso assim prefiramos, nos afastar de vez e colher os frutos das ações que escolhemos. Como qualquer outro mal.

5.2 ENTÃO POR QUE O MAL EXISTE?

“Livre-arbítrio. Mas se Deus poderia ter criado um universo com livre-arbítrio e sem o mal, e não o fez, então ele não e bom.”

Então você acredita que pode haver escolha entre A e A? Interessante… haha. Ora, lembre-se que bem e mal, como já dissemos, são dois lados da moeda realidade. Não há definição de “bom” sem definição de “mal”.

“Deus não poderia ter criado um universo com livre-arbítrio e sem o mal, portanto ele não é onipotente”.

Seu problema aqui é a definição de “onipotente”. Onipotente não significa que Deus pode absolutamente tudo. Deus não pode fazer algo contrário à sua natureza. Por exemplo, Deus não pode deixar de amar (o que implica em um outro, daí a Trindade); Deus não pode ser injusto (daí a necessidade de justiça, e portanto da existência da possibilidade de escolha, que você chama de livre-arbítrio e eu de livre-agência (2)); Deus não pode deixar de ser misericordioso (o que implica na criação de objetos menores e indignos, merecedores de justiça, mas alvos de amor e misericórdia mesmo assim).

Segundo esse raciocínio, Deus não pode criar uma realidade com seres livres sem a liberdade de escolha entre bem e mal, justamente por causa da natureza dos indivíduos que ele quer criar na dita realidade: indivíduos a serem amados, apesar de suas escolhas, alvos de justiça e também de misericórdia. Mas Ele pode criar um universo onde tudo isso exista, o que é exatamente o que vemos nos telejornais e nos bancos das igrejas. (3)

CONCLUSÃO ÉPICA, ORA (Ha! I dit it!)

Deus pode criar o universo (ou universos) como Ele quiser, mas este, no qual vivemos, contém seres capazes de escolher entre bem e mal. Essa escolha esta imbuída no tecido da realidade, de modo que é impossível ter realidade sem bem e mal. A implicação direta é que mal existe e não é processo darwinista, mas possibilidade ética bem real, cuja identificação é oriunda de um senso mais profundo que a experiência e que demanda solução, se Deus quiser ser glorificado e adorado como tal. A solução de Deus é: 1. Usar o mal para o bem de suas criaturas. 2. Permitir a atual existência do mal como ferramenta para a constatação de que eu sou mal porque pratico o mal e assim possa ser alvo de misericórdia, antes de justiça – que virá, no futuro último da humanidade, e que já veio, no sacrifício de Jesus, punido em nosso lugar. 3. Destruir o mal no espaço-tempo, num futuro não muito distante, se Deus quiser.

O paradoxo de Epicuro, assim, não é nem de longe uma ameaça ao cristianismo. A certo tipos de teísmo, pode até ser. Mas lembre-se que Epicuro não teve o luxo de um ente unificador para sua cosmovisão, e o conceito de Deus que ele usa não era de um Deus que se sacrifica, usando o mal para resolver o mal. A inserção de Jesus na equação desfaz o paradoxo e resolve todos os problemas – inclusive fora do paradoxo, caso seja do seu interesse.

REFERÊNCIA E NOTAS

(1) Disponível em: https://plus.google.com/105003349977642103014/posts/XjCUE6Kx8YB. Acesso em 5 julho 2016.

(2) A diferenciação entre livre-arbítrio e livre-agência está no coração do debate entre calvinistas e arminianos, que ainda insistem em achar que estão certos. ;) Livre-arbítrio significa que você tem controle total sobre as decisões e Deus basicamente se adapta a elas (você é árbitro). Livre-agência, que você tem certa liberdade de escolha dentro de uma certa gama de ações já conhecidas por Deus desde a eternidade, cujas consequências Deus já conhece, permite e não precisa se adaptar (Deus é árbitro, você é agente). Predestinação e liberdade de escolha são, curiosamente, conceitos implícitos na realidade física, conforme esse simpático vídeo de Michio Kaku.

(3) Meu amigo seminarista Samuel Jônatas de Araújo me avisa, aqui, que “a ideia de que Deus não poderia fazer um mundo sem mal com um homem com livre-arbítrio, me parece um tanto falaciosa ou molinista de mais.” O que quer que molinista signifique, posso dizer o seguinte: Deus pode criar o universo (ou universos) que quiser, como quiser, mas tanto a experiência como o senso comum me dizem que, neste universo em que vivo, a possibilidade de escolha entre bem e mal me parece costurada com o tecido da realidade. Existe claro porque escuro, matéria porque anti-matéria, vivo porque morto, bem porque mal etc.


Agradeço imensamente ao Samuel Jônatas de Araújo pela revisão e opinião.