por Daniel Ruy Pereira

Na rua cinza o poema braquelo
Corria descalço, jogava bola;
Às margens da avenida Anhaia Melo
Enchia a cabeça de caraminhola

De manhã fazendo arte, de tarde o poema
Falaria de videogame e desenharia
Refletiria sobre o que via no cinema
Temeria o pai que o fustigaria

O poema crescia e o poema sorria
Chorava, beijava, conjugava verbos
Ora com forma untada, ora com rebeldia fria
Tinha momentos humildes e soberbos

Aquele poema, ai aquele poema…
Danado! Queria mais que ir à igreja
E cantar hino. Queria ter uma garota de Ipanema
Queria ler a Carta, queria criticar a Veja

Em suas andanças, acabou pegando o navio
De Chesterton rumo ao País da Heresia
Mas veio a tempestade e o mar bravio
E voltou pra praia de Ortodoxia

Beijou o chão e usou metáfora
Entendeu o valor das legiões urbanas
E dos poetas de mundo afora
Quis falar de ideias agostinianas

Não se entende épico, não é balada
Tal poema se sente sonso soneto,
Feito um feto, de doce filosofia refinada
Por Cristo, pedreiro da poesia reformada