Artigo traduzido de: Creation 32(4):32-36, julho de 2011. Título original: “Biblical roots of modern science” (pré-publicação. Copyright Creation Ministries International Ltda. Usado com permissão.

por Jonathan Sarfati*

Tradução por Daniel Ruy Pereira
Revisão de Jadson Oliveira

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Sir Isaac Newton (1643–1727). Retrato por Godfrey Kneller, Wikipedia.org

Muitos ateopatas (1) e seus aliados eclesiásticos cheios de concessões afirmam que a fé bíblica e a ciência são inimigas mortais. Porém, historiadores da ciência, inclusive não-cristãos, mostram que a ciência moderna, antes de tudo, floresceu sob uma cosmovisão cristã; enquanto que, em outras culturas como a Grécia antiga, China e Arábia, não havia sequer aparecido. As bases históricas da ciência moderna dependem da premissa de que o universo surgiu de um Criador racional. Um universo ordenado faz total sentido somente se foi feito por um Criador ordenado (conf. 1 Coríntios 14:33). Por exemplo, o antropólogo evolucionista e escritor científico Loren Eiseley disse:

“A filosofia da ciência experimental … deu início a suas descobertas e fez uso de seus métodos baseados na fé, não no conhecimento, a qual lidava com um universo racional controlado por um criador que não agira caprichosamente nem interferira com as forças que pusera em operação… É certamenteum dos curiosos paradoxos da história o fato de que a ciência, a qual profissionalmente tem pouco a ver com fé, deve suas origens a um ato de fé em que o universo pode ser racionalmente interpretado, e que a ciência hoje é sustentada por essa premissa.” (2)

Mas se o ateísmo ou o politeísmo forem verdadeiros, então não há como deduzir, desses sistemas de fé, que o universo é (ou deveria ser) ordenado.

Além disso, Gênesis 1:28 nos dá permissão de investigarmos a criação, diferentemente do animismo ou do panteísmo, que nos ensinam que a própria criação é divina. E, uma vez que Deus é soberano, Ele é livre para criar o que bem entender. Assim, onde a Bíblia silencia, o único meio de descobrir como Sua criação funciona é experimentando, ao invés de confiar em filosofias humanas, como fizeram os antigos gregos. Não é de admirar que o sociólogo Rodney Stark tenha afirmado:

“A ciência não foi o produto de secularistas ocidentais ou mesmo de deístas; foi inteiramente produto de crentes devotos em um deus ativo, consciente, criador.” (3) 

A ciência também exige que pensemos racionalmente e que os resultados devem ser publicados com honestidade – ensinamentos também encontrados na Bíblia, mas que não são necessariamente deduzidos do evolucionismo. (4)

A Ciência na Idade Média

Embora esse período histórico seja comumente chamado de “Idade das Trevas”, historiadores responsáveis reconhecem que ela estava longe das trevas. Ao contrário, foi um período de grandes avanços científicos, oriundos de pensamento lógico dos filósofos escolásticos da Igreja, e a extensiva inventividade e genialidade mecânica desenvolvida nos monastérios. Pequenas maravilhas que esse período viu foram o desenvolvimento da energia hidráulica e eólica, os óculos, a magnífica arquitetura, o alto-forno e os estribos. (5)

“Por mais estranho que possa parecer, a ciência sempre será devedora de literalistas bíblicos e milenaristas” (Stephen Snoblem, Professor assistente de História da Ciência e Tecnologia, Universidade de King’s College, Halifax, Canadá)

Um enorme avanço no entendimento da Física foi o desenvolvimento do conceito de impetus, pelo lógico John Buridan – essencialmente o mesmo conceito moderno de momentum. Antes dele, os discípulos de Aristóteles argumentavam que um objeto em movimento exigia uma força a fim de que continuasse se movendo, mas Buridan propôs o seguinte:

“…após deixar o braço do objeto lançador, o projétil se moverá pelo ímpeto dado a ele pelo lançador e continuará a se mover enquanto o ímpeto se manter mais forte que a resistência, e isso seria de infinita duração se não fosse diminuído e corrompido pela força contrária resistindo-a ou por algo inclinando-a a um movimento contrário.”

Esse é o precursor da Primeira Lei do Movimento de Isaac Newton.

Assim, não é surpresa que James Hannam, recentemente laureado com o doutorado em História da Ciência pela Universidade de Cambridge, Reino Unido, tenha apontado que:

“Durante a Idade Média, a Igreja Católica deu suporte ativo a um grande esforço científico, o que também ajudava a manter o controle quando a especulação colidia com a teologia. Além do mais, e contrariamente às crenças populares, a Igreja nunca defendeu a ideia de que a terra era plana, nunca baniu a dissecção humana, nunca baniu o número zero e certamente nunca queimou na estaca ninguém por suas ideias científicas.”

“Apesar da opinião popular, do cliché jornalístico e de historiadores desinformados, pesquisas recentes mostram que a Idade Média foi um período de enormes avanços em ciência, tecnologia e cultura. A bússola, o papel, a imprensa, os estribos e a pólvora apareceram todos na Europa Ocidental entre 500 e 1500 d.C.” (6)

O salto científico pós-Reforma

Embora a Europa da Idade Média tivesse uma cosmovisão judaico-cristã, coube à Reforma resgatar a específica autoridade bíblica. Com isso veio a recuperação de uma interpretação clara, histórico-gramatical, da Bíblia, reestabelecendo a real compreensão dos autores neo-testamentários e a maioria dos primeiros Pais da Igreja. Isso acabou tendo um enorme impacto positivo no desenvolvimento da ciência moderna. O que é um tanto contrário ao (des)entendimento comum, embora seja bem documentado por Peter Harrison, então professor de história e filosofia na Bond University em Queensland, Austrália (e uma vez Professor Andreas Idreos de Ciência e Religião na Universidade de Oxford):

“Normalmente se supõe que, quando no início da época moderna, as pessoas começaram a olhar para o mundo de modo diferente; não poderiam mais acreditar no que elas liam na Bíblia. Na verdade, eu sugiro que neste livro acontece o oposto: que, quando no século dezesseis, as pessoas começaram a ler a Bíblia de um modo diferente, se viram forçadas a rejeitar os conceitos tradicionais de mundo.” (7)

Como explica o Prof. Harrison:

“Por mais estranho que possa parecer, a Bíblia desempenhou um papel positivo no desenvolvimento da ciência…”

Não fosse pela ascensão da interpretação literal da Bíblia e subsequentes apropriações das narrativas bíblicas pelos primeiros cientistas modernos, a ciência moderna sequer teria surgido. Em suma, a Bíblia e sua interpretação literal têm desempenhado um papel vital no desenvolvimento da ciência ocidental.” (8)

Stephen Snobelen, Professor Assistente de História da Ciência e Tecnologia da Universidade de King’s College, Halifax, Canadá, escreve de modo parecido, e também explica o confuso termo “interpretação literal”:

“Há um último paradoxo aqui. Trabalhos recentes sobre o início da ciência moderna demonstram uma relação direta (e positiva) entre o ressurgimento do Hebraico, da exegese literal da Bíblia na reforma Protestante e do surgimento do método empírico na ciência moderna. Não me refiro ao literalismo engessado, mas à sofisticada hermenêutica histórico-literal que Martinho Lutero e outros (incluindo Newton) defendiam.” (9)

O Prof. Snobelen explica a razão do porquê: os cientistas começaram a estudar a natureza da mesma forma que estudavam a Bíblia, isto é, da mesma forma que estudavam o que a Bíblia queria dizer, ao invés de impor filosofias externas e tradições a ela, da mesma forma estudavam como a natureza de fato funcionava, ao invés de aceitar ideias filosóficas sobre como deveria funcionar (estendendo suas leituras alegoristas da Bíblia ao mundo natural). (8)

“Foi, em parte, no momento em que esse método foi transferido para a ciência, quando os estudantes da natureza passaram do estudo da natureza como símbolos, alegorias e metáforas para observar a natureza diretamente, de modo indutivo e empírico, que a ciência moderna nasceu. Também nisso Newton desempenhou um papel fundamental. Por mais estranho que soe, a ciência será sempre devedora dos literalistas bíblicos e milenaristas.” (9)

Como a crença na Queda de Adão inspirou a ciência

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Francis Bacon (1561–1626). Imagem Wikipedia.org

O Prof. Harrison também pesquisou outro fator normalmente ignorado no desenvolvimento da ciência: a crença na Queda literal do primeiro homem, Adão. Aqueles fundadores da ciência moderna, incluindo Francis Bacon, pensavam que a Queda não apenas havia destruído a inocência do homem, como também muito debilitou seu conhecimento. O primeiro problema foi remediado pelo Último Adão inocente, Jesus Cristo – Seu sacrifício permitiu que nosso pecado fosse imputado (creditado) a Ele (Isaías 53:6), e Sua vida perfeita permitiu que Sua justiça fosse imputada aos que cressem nele (2 Coríntios 5:21). Mas para reaver o que eles acreditavam ser um conhecimento enciclopédico de Adão, eles olharam para a Ciência. Harrison explica:

“Novas [sic] leituras literais das narrativas da criação em Gênesis pelos pensadores do século XVII forneceram poderosas imagens, motivadoras da busca das ciências naturais.

“Pensava-se que Adão possuía um conhecimento perfeito de todas as ciências, um conhecimento perdido para a posteridade quando ele caiu da graça e foi expulso do Jardim do Éden. O alvo de cientistas do século XVII, como Francis Bacon e seus sucessores na Sociedade Real de Londres, era de recuperar o conhecimento científico do primeiro homem. De fato, para esses indivíduos, toda a empreitada científica era uma parte integral da empreitada redentora que, juntamente com a religião cristã, iria ajudar a restaurar a espécie original à sua perfeição original. O relato bíblico da criação, portanto, deu a esses cientistas uma importante fonte de motivação, e em uma era ainda totalmente comprometida com o cristianismo tradicional, a nova ciência viria a ganhar legitimidade social em função dessas associações religiosas.” (8)

“Para muitos líderes do novo aprendizado no século XVII, o conhecimento enciclopédico de Adão era o modelo contra o qual suas próprias aspirações eram avaliadas…

“A abordagem experimental, devo dizer, é profundamente devedora das visões agostinianas sobre as limitações do conhecimento humano como consequência da Queda, e portanto o método indutivo pode também ser atribuído a uma relação filial com a tradição do agostinianismo.” (10)

Objeção

Alguns ateopatas admitem que a ciência é de fato filha do cristianismo, mas agora afirmam que é hora de a ciência crescer e sair de debaixo da saia da mãe. No entanto, ninguém mais que a ex-primeira ministra do Reino Unido, Margaret Tachter, respondeu a esse tipo de afirmação:

“Lembro de muitas discussões na minha juventude, quando todos concordávamos que, se você quisesse os frutos do cristianismo sem levar junto as raízes, esses frutos iriam murchar. E não aparecerão de novo a menos que você nutra as raízes.

“Mas não devemos professar a fé cristã e ir à Igreja apenas porque queremos reformas sociais e benefícios, ou um padrão melhor de comportamento, e sim porque aceitamos a santidade da vida, a responsabilidade que vem com a liberdade e o supremo sacrifício de Cristo expresso tão bem no hino:

“‘Vejo a maravilhosa cruz,
Ali o Rei da Glória pereceu
O brilho do ouro perdeu a luz
E meu orgulho desapareceu.’” (11)

Resumo

  • Ateopatas frequentemente denigrem a Bíblia, especialmente seu relato da Criação. Porém…
  • A ciência exige certas premissas para que funcione, e todas são encontradas na Bíblia.
  • A Europa, durante a Idade Média, avançou muito em ciência e tecnologia devido à sua cosmovisão cristã geral.
  • A Reforma Protestante, com sua ênfase na autoridade das Escrituras e uma compreensão histórico-gramatical, permitiu um grande avanço na ciência pois os mesmo métodos foram transportados para o estudo da natureza.
  • A crença em um primeiro homem literal, Adão, e sua Queda inspiraram a ciência como sendo um meio de redescobrir o conhecimento que Adão tinha antes da Queda.
  • É inútil esperar frutos contínuos da empreitada científica enquanto se enfraquece suas raízes no cristianismo bíblico.

Referências e notas

  1. O importante misoteísta Richard Dawkins frequentemente chama a religião teísta de “um vírus da mente”, o que faz dela um tipo de doença ou patologia, e os pais que a ensinam para seus filhos estão, de acordo com Dawkins, praticando abuso mental nas crianças. Mas o tipo de critério que ele aplica faz pensar se seu próprio anti-teísmo fanático poderia ser uma patologia mental – daí o termo “ateopatia”.
  2. Eiseley, L., Darwin’s Century: Evolution and the Men who Discovered It, Doubleday, Anchor, New York, 1961.
  3. Stark, R., For the Glory of God: How monotheism led to reformations, science, witch-hunts and the end of slavery, Princeton University Press, 2003; veja também a resenha de Williams A., The biblical origins of science, Journal of Creation 18(2):49–52, 2004; creation.com/stark.
  4. Sarfati, J., Why does science work at all? Creation 31(3):12–14, 2009; creation.com/whyscience.
  5. Carroll, V., and Shiflett, D., Christianity on Trial: Arguments Against Anti-Religious Bigotry, ch. 3, Encounter Books, 2001; veja a resenha de Hardaway, B. and Sarfati, J., Countering Christophobia, Journal of Creation 18(3):28–30, 2004; creation.com/trial.
  6. Veja Hannam, J., God’s Philosophers: How the Medieval World Laid the Foundations of Modern Science, 2007; jameshannam.com/Godsphilosophers.pdf.
  7. Harrison, P., The Bible, Protestantism and the rise of natural science, Cambridge University Press, 2001; veja a resenha de Weinberger, L., Reading the Bible and understanding nature, J. Creation 23(3):21–24, 2009.
  8. Harrison, P., The Bible and the rise of science, Australasian Science 23(3):14–15, 2002.
  9. Snobelen, S., Isaac Newton and Apocalypse Now: a response to Tom Harpur’s “Newton’s strange bedfellows”; Uma versão longa da carta publicada no Toronto Star, 26 fevereiro 2004; isaacnewton.ca/media/Reply_to_Tom_Harpur-Feb_26.pdf.
  10. Harrison, P., The Fall of Man and the Foundations of Science, Cambridge University Press, 2007, introdução.
  11. Thatcher, M., Christianity and Wealth, Discurso à Assembleia Geral da Igreja da Escócia, 21 maio 1988.

*Jonathan Sarfati possui, pela Victoria University of Wellington, um bacharelado em química (B.Sc. (Hons.)), e um doutorado (Ph.D.) em Físico-química, além de ter diversos artigos como autor e co-autor, e vários livros publicados; também já foi campeão de xadrez na Nova Zelândia. Atualmente, é co-editor da revista Creation e escreve artigos técnicos para o periódico criacionista Journal of Creation.