Artigo traduzido de: Creation 33(3):41-43, julho de 2011. Título original: “Common errors made by deniers of a young Earth”. Copyright Creation Ministries International Ltda. Usado com permissão.

por Andrew Kulikovsky*

Tradução por Nathan Vinícius//Revisão por Daniel Ruy Pereira

Desde a ascensão do uniformitarianismo geológico, no início do século XIX, muitos na igreja têm se rendido a essa nova “ciência”. Consequentemente, têm rejeitado a simples e tradicional interpretação histórico-gramatical dos relatos da criação e do dilúvio. Com frequência recorrem a raciocínios equivocados a fim de dar suporte à sua reinterpretação comprometida. A seguir discutimos os três erros mais comumente cometidos.

Apelando ao “propósito” do texto

Defensores da Terra antiga frequentemente apelam ao “propósito” do relato da criação, em geral reivindicando ser ele primeiramente teológico em vez de histórico. Por exemplo, Bruce Waltke, citando Charles Hummel, argumenta que Gênesis 1-2 não seria um relato puramente descritivo respondendo a perguntas do tipo “o quê?”, “como?” e “o que seria?” (1). Ao contrário, seria prescritivo, uma vez que responde ao “como”, ao “porque” e ao que “deveria ser”. Consequentemente, o relato de Gênesis a respeito da criação e da queda discutiria assuntos teológicos gerais em vez de descrever eventos históricos reais. Similarmente, Bernard Ramm afirma que as Escrituras “nos dizem enfaticamente que Deus criou, mas silenciam sobre como Deus teria criado… Isso nos diz que as estrelas, flores, animais, árvores e o homem são criaturas de Deus, mas como Deus os produziu não é algo afirmado em lugar algum nas Escrituras [ênfase no original].”(2)

Entretanto, tal visão simplesmente não se alinha com o que as Escrituras realmente afirmam. Como Walter Kaiser responde, “[este é] um óbvio desprezo da frase repetida dez vezes, ‘e Deus disse’…”.(3) Certamente, a ação criativa de Deus é descrita com precisão usando os verbos “criou”, “fez”, “disse”, “chamou”, “estabeleceu”, “formou”, “causou”, “tomou”, “plantou” e “abençoou”. Além disso, estas atividades são descritas do início ao fim, e se espalham por um período de seis dias. Em outras palavras, o relato de Gênesis descreve exatamente a forma como Deus criou, a ordem na qual ele criou, e o tempo de Sua ação criativa – e assim entendiam os escritores do Novo Testamento (4). Se, de outra forma, tudo o que o autor pretendia comunicar era que “Deus é o Criador de todas as coisas”, então com certeza o primeiro verso seria suficiente.

Da mesma maneira, Bill Arnold afirma: “A importante lição de Gênesis 1 é que [Deus] de fato criou todas as coisas, e que ele o fez de forma boa e ordenada em todos os aspectos.” Ele adiciona: “Se fosse importante saber quanto tempo levou para Deus criar o mundo, a Bíblia teria deixado isso claro.”(5) Contudo o relato da criação diz explicitamente que Deus criou em seis dias. O Primeiro Dia foi seguido por um segundo, terceiro, quarto, quinto e sexto dia, quando a criação foi finalizada (Gênesis 2:1-2). Êxodo 20:11 confirma que Deus criou “em seis dias”. O que poderia ser mais claro (6)?

Ninguém duvida, é claro, que Gênesis faça uma contribuição teológica fundamental, mas dizer que Gênesis é primariamente teológico em vez de histórico é estabelecer uma falsa dicotomia; história e teologia não são mutuamente exclusivos. “O fato é que toda a Bíblia apresenta sua mensagem como teologia dentro de um quadro histórico.” (7) Por exemplo, a ressurreição de Jesus é uma doutrina teológica fundamental, mas seria inútil a menos que tenha ocorrido historicamente (1 Coríntios 15).

De qualquer modo, a intenção e propósito dos autores da Bíblia são certamente expressos no próprio texto. De que outra forma um leitor pode saber a intenção do autor se não pelo que o autor de fato afirma no texto? Do contrário, o significado do texto teria que ser descoberto primeiro, antes que houvesse qualquer expectativa de se determinar a intenção do autor. Sugestões de intenção e propósito que não sejam derivadas diretamente do próprio texto só podem vir da imaginação de quem interpreta. Portanto, atribuir intenção e propósito não diretamente derivados do texto é subjugar as Escrituras à imaginação do intérprete.

Exigência de conformidade às atuais visões científicas

Os mesmos crentes na Terra antiga exigem que qualquer interpretação seja consistente com as visões “científicas” atualmente aceitas.

Contudo, são por si mesmos seletivos e inconsistentes em sua exigência por conformidade científica. Conquanto rápidos em repreender criacionistas bíblicos (defensores da Terra jovem) por defenderem interpretações dos relatos de Gênesis, no que diz respeito à Criação e ao Dilúvio, que parecem ir contra as visões científicas atuais, muitos não têm problema em aceitar interpretações literais da concepção virginal, dos milagres de Cristo, e da Ressurreição – todos os quais parecem ir contra visões científicas atuais! Veja o milagre de Jesus ao transformar água em vinho (João 2:1-11) como um exemplo dessa inconsistência. Poucos, se algum, defensores da Terra antiga que se declaram evangélicos com uma visão elevada das Escrituras duvidariam que Cristo literalmente e milagrosamente transformou água em vinho. Entretanto, este ato é cientificamente impossível! Água simplesmente não possui os átomos de carbono que o vinho possui. Mesmo que fornecêssemos estes átomos na forma de açúcar e fermento, o processo de fermentação levaria tempo (várias semanas), mas o texto indica que isto tudo ocorreu de forma instantânea. Porque, então, os defensores da Terra antiga não reinterpretam este (e outros) relatos? Porque aceitar alguns atos sobrenaturais de Deus e outros não?

Revisionismo Histórico

É difícil encontrar exemplos piores de reescrita histórica do que aquelas feitas por muitos evangélicos defensores da Terra antiga, com respeito à visão histórica da Igreja sobre o relato da Criação (8). Essas visões históricas equivocadas são refutadas detalhadamente noutro artigo (9). A interpretação objetiva do relato da Criação descrevendo uma Terra jovem tem sido a visão tradicionalmente aceita pela Igreja ao longo de sua história até a ascensão do pensamento iluminista, no Século 18 (10). David Hall lamenta:

“O registro histórico é abundantemente claro neste ponto; entretanto, convencer alguns teólogos a renunciar uma opinião conflitante com a história real é o equivalente à extração do dente-do-ciso. Alguém precisa questionar essa teimosa resistência, especialmente quando confrontada com tanta informação factual. Por que, pergunto, ótimos e piedosos teólogos lutariam contra a história com tanta energia quando os argumentos contra isso são tão claros?” (11)

Outros exemplos de revisionismo histórico realizado por evangélicos que defendem uma Terra antiga incluem o tratamento que a Igreja supostamente deu a Colombo e a Galileu. Segundo esses evangélicos, esses “cientistas” estavam corretos, enquanto que a dogmática Igreja estava errada, e devemos ser cuidadosos para não cometermos os mesmos erros atualmente.

Frederico I, Imperador do Sacro Império Romano como cruzado, segurando uma orb, que representa a Terra, com uma cruz no topo, simbolizando o senhoria de Cristo. Miniatura de um manuscrito de 1188, Biblioteca do Vaticano. Imagem: wikipedia.org.
Frederico I, Imperador do Sacro Império Romano como cruzado, segurando uma orb, que representa a Terra, com uma cruz no topo, simbolizando o senhoria de Cristo. Miniatura de um manuscrito de 1188, Biblioteca do Vaticano. Imagem: wikipedia.org.

Tais conclusões são baseadas na crença tradicional de que, antes de fazer sua histórica viagem em 1492, Cristóvão Colombo compareceu diante de uma multidão de teólogos dogmáticos e inquisidores ignorantes, todos crentes que as Escrituras ensinavam que a Terra era plana. Colombo então partiu a fim de provar que todos eles estavam errados, velejando ao redor do Globo. Embora seja verdade a ocorrência de uma reunião em Salamanca, no ano de 1491, essa ideia comumente aceita do que teria ocorrido não possui um pingo de verdade. O historiador Jeffrey Burton Russel identifica Washington Irving (1783-1859), um notável escritor norte-americano de ficção histórica, como uma das primeiras fontes deste “conto popular” (12). Irving criou o relato fictício de um inexistente conselho universitário e deixou sua imaginação correr livremente (13). O relato inteiro é “enganador e perniciosamente sem sentido.”(14) [Incluindo a ideia de que Colombo incidentalmente circo-navegou o Globo – o que não aconteceu, nota do editor.] Russell demonstrou que, com pouquíssimas exceções, do século III a.C. em diante, todo cidadão educado no mundo ocidental acreditava que a Terra era um globo. Não é, portanto, acidental que reis medievais fossem presenteados com uma orb (esfera), representando a Terra como símbolo do seu poder (veja figura, à esquerda).

Da mesma forma, é comum acreditar que as observações e argumentos de Galileu ofereceram apoio esmagador à teoria de Copérnico (de que a Terra orbitava o Sol), mas os teimosos, dogmáticos e ignorantes teólogos da Igreja Católica quiseram silenciar Galileu com medo de que sua tradicional  interpretação das Escrituras fosse exposta como equivocada. Isso por medo de que tal fato invalidasse a reivindicação da Igreja como autoridade da interpretação bíblica. Contudo, como demonstrou Thomas Schirrmarcher: “A apresentação do processo contra Galileu como um heroíco cientista se posicionando contra o dogmatismo de mente limitada da igreja Cristã repousa inteiramente sobre um mito, não sobre uma pesquisa histórica.” (15, 16)

Os desacordos entre cientistas e teólogos da época refletiam não um conflito entre o Cristianismo e a ciência, mas um conflito entre a filosofia Aristotélica e a ciência (17). Galileu era um cientista convencido da verdade e acurácia das Escrituras. Ele era tido em alta estima pela Igreja; sua primeira defesa do sistema copernicano, Letras e Raios de Sol (1613), foi bem recebida, com nenhuma critica levantada. Certamente o Cardinal Barberini, posteriormente Papa Urbano VIII, responsável pela sentença em 1633, esteve entre os que congratularam Galileu por sua publicação (18). Assim, os maiores inimigos de Galileu não estavam na igreja; ao contrário, estavam entre seus colegas e companheiros cientistas, muitos dos quais negavam o sistema copernicano (19) e temiam  perder posição e influência (20). De Santillana escreve: “sabe-se há muito tempo que grande parte dos intelectuais da igreja eram favoráveis a Galileu, enquanto a oposição mais clara vinha das ideias seculares.” (21)

A ironia nisso tudo é que são os que defendem uma Terra antiga que precisam aprender a lição com o que ocorreu à Galileu (22). Galileu chegou à conclusão correta crendo totalmente na acurácia da Bíblia, enquanto que seus colegas cientistas chegaram à conclusão errada por se basearem no consenso científico da época (o aristotelianismo)! A Igreja vem sendo pintada como inimiga da ciência quando, na verdade, os companheiros e colegas cientistas de Galileu é que foram os maiores inimigos da ciência verdadeira.

Conclusão

Não deixe que aqueles que negam uma leitura objetiva do relato da Criação escapem quando trazem esse tipo de argumento falacioso. Se você ouvir pessoas apresentarem tais argumentos, desafie-os a justificar sua posição, e aponte – gentilmente – os erros sobre fatos e de lógica.

Referências e notas

(1) Waltke, B.K., The first seven days, Christianity Today 32:45, 1988.

(2) Ramm, B., The Christian View of Science of Scripture, Paternoster, London, 1955, p. 70.

(3) Kaiser, W.C., Legitimate hermeneutics; in: Geisler, N.L. (ed.), Inerrancy, Zondervan, Grand Rapids, Michigan, 1980, p. 147.

(4) Cosner, L., The use of Genesis in the New Testament, Creation 33(2):16–19, 2011, creation.com/nt; Sarfati, J., Genesis: Bible authors believed it to be history, Creation 28(2):21–23, 2006, creation.com/gen-hist.

(5) Arnold, B.T., Encountering the Book of Genesis, Baker, Grand Rapids, Michigan, 1998, p. 23.

(6) Gênesis é escrito como história, não poesia. Veja as entrevistas com o especialista nos escritos do Antigo Testamento Dr Robert McCabe, Creation 32(3):16–19, 2010; e o especialista em Hebraico Dr Ting Wang, Creation 27(4):48–51, 2005, creation.com/wang.

(7) Goldsworthy, G., Preaching the Whole Bible as Christian Scripture, IVP, Leicester, 2000, p. 24.

(8) Veja particularmente Hugh Ross (Creation and Time, NavPress, Colorado Springs, 1994, pp. 16–24; (com Gleason Archer) The Day-Age Response; em: D. G. Hagopian, D.G., (editor), The Genesis Debate, Crux Press, Mission Viejo, California, 2001, pp. 68–70), Don Stoner (A New Look at an Old Earth, Harvest House, Eugene, Oregon, 1997, pp. 117–119), e Roger Forster e Paul Marston (Reason, Science and Faith, Monarch, Crowborough, East Sussex, 1999, pp. 188–240).

(9) Kulikovsky, A.S., Creation and Genesis: a historical survey, Creation Research Society Quarterly 43(4):206–219, 2007.

(10) Veja a lista de idades já calculadas para a Criação, por Batten, D., Old-earth or young-earth belief; which belief is the recent aberration? Creation 24(1):24–27, 2001, creation.com/old-young.

(11) Hall, D.W., The evolution of mythology: classic creation survives as the fittest among its critics and revisers; em: Pipa, J.A. e Hall, D.W. (eds.), Did God Create in Six Days? Southern Presbyterian Press, Taylors, SC, 1999, p. 276.

(12) A outra pessoa que deu origem a este conto popular foi Antoine-Jean Letronne (1787–1848), um acadêmico anti-religião que publicou On the Cosmological Ideas of the Church Fathers (1834). Veja Jeffrey Burton Russell, Inventing the Flat Earth, Praeger, London, 1997, pp. 49–51, 58–59.

(13) Russell, ref. 12, pp. 40–41, 52–54.

(14) Russell, J.B., The Myth of the Flat Earth, Texto não publicado, apresentado na American Scientific Affiliation Conference, Westmont College, 4 de Agosto, 1997; http://www.veritas-ucsb.org. Alguns anos antes, ele ressaltou que esse relato foi listado entre os cinco maiores mitos históricos, por meio da Historical Society of Britain.

(15) Schirrmacher, T., The Galileo Affair: History or Heroic Hagiography? Journal of Creation 14(1):91–100, 2000.

(16) Sarfati, J., Galileo Quadricentennial; myth vs fact, Creation 31(3):49–51, 2009, creation.com/gal-400.

(17) Ramm, ref. 2, p. 36. Forster e Marston, (Reason and Faith, 293) concordam que é impreciso usar o caso de Galileu como um exemplo de ciência vs religião.

(18) Schirrmacher, ref. 12, p. 92.

(19) Certamente, a grande maioria de cientistas naquele tempo rejeitavam o sistema copernicano. Veja Barber, B., Resistance of scientists to scientific discovery, Science 134:596–602, 1961; Custance, A.C., Science and Faith: The Doorway Papers VIII, Grand Rapids, Michigan, 1984, p. 157.

(20) Schirrmacher, ref. 15; Drake, S. (editor e tradutor), Discoveries and Opinions of Galileo, Doubleday, New York, 1957.

(21) de Santillana, G., The Crime of Galileo, University of Chicago Press, Chicago, 1955, p. xii.

(22) Grigg, R., The Galileo ‘twist’, Creation 19(4):30–32, 1997, creation.com/gal-twist.

*Andrew S. Kulikovsky é Bacharel em Ciências da Computação e Informação pela Universidade de South Australia e Mestre em Estudos Bíblicos e Teologia pela Lousiana Baptist University. É autor do livro “Creation, Fall, Restoration: A Biblical Theology of Creation (Mentor Press), apoia ativamente o Creation Ministries International e é membro do grupo voluntário Amigos do CMI, em Adelaine, Austrália. Também é coordenador sul-australiano do Centre for Worldview Studies; dirige o site Biblical Hermeneutics.