por Daniel Ruy Pereira

Como é possível que um criacionista assista a Cosmos: Odisséia no Espaço, sem irromper em desespero, perder a fé e evoluir instantaneamente para Richard Dawkins? Bilhões de anos! Afirmação da evolução como FATO! Tardigrados! “O cosmo é tudo que o foi, que é e que sempre será”! Não combina. Simplesmente não combina com criacionista.

Então… É que eu sempre fui o que Sagan (e Cosmos) manda o espectador ser: curioso e questionador. Também, pudera: filho de Sagan com Lutero, tive Darwin e Calvino como padrinhos!

O Cosmos original foi uma série cativante porque era simples, artística e contemplativa. Assistir (e ler) Cosmos de Carl Sagan transcende a experiência de um livro de ciências e invade a filosofia com implicações teológicas tangíveis. Ciência é isso aí: um garoto travesso que se mete onde não é chamado. Essa nova série (2014) tem tudo isso, claro. O apresentador carismático. Os efeitos especiais inacreditáveis. A trilha de Alan Silvestre. A celebração da ciência e do cientista. O espírito quase indomável da ciência. Lembre-se, caro leitor, que somente Aslam era indomável, mas sempre bom. O cientista nem sempre é bom e por isso é domado com triste frequência. E, na série, ele é mostrado com imaginação solta, mas sempre presa por uma ou outra coisa, como nos mostra nossa realidade no Pálido Ponto Azul.

Intercalando documentário de cosmologia apresentado por Neil deGrasse Tyson – como Sagan, astrofísico – com animações que apresentam importantes episódios da história da ciência, o programa tenta mostrar nosso conhecimento atual como produto de suor, lágrimas e paixão – o que é mesmo. Estamos mesmo sobre o ombro de gigantes. Não deixei de me emocionar com Michael Faraday nem me maravilhar com a determinação de Clair Patterson ou me impressionar com as conclusões surpreendentes de Fritz Zwicky. (Embora a tradicional apresentação de Giordano Bruno como herói questionador e a Igreja como vilã silenciadora, assassina de livres-pensadores, me arrancou um sorriso de “não foi bem assim”.) O primeiro episódio, quando Tyson, carinhosamente, fala da importância de Sagan, o professor dedicado, na sua formação como cientista e cidadão, me levou a copiosas lágrimas de gratidão por ser, eu, também um professor de ciências em busca de formar Tysons por aí. Lindo.

E o fato de eu ser um criacionista? Bem. Tenho minhas perguntas claro. Estou para a ciência como estou para a Igreja: frequento e adoro, mas leio minha Bíblia e meço tudo por ela – que cristão reformado seria eu sem isso? A maioria das evidências apresentadas em Cosmos fazem sentido, dentro da chave interpretativa secular usada pela comunidade científica que nega a existência de um molho de chaves. Não me abandonava a ideia que, se eu tivesse muito dinheiro disponível, poderia pegar o mesmo roteiro básico da história do universo, os mesmos fenômenos e evidências, trocar a linha argumentativa por uma linha criacionista e apresentar aquelas mesmas evidências em um outro modelo (e ainda colocaria Vern Poythress como apresentador. Ou Jonathan Sarfati. Hum…).

Afinal, não há real debate em Cosmos. Há apresentação das ideias e teorias aceitas pela comunidade científica atual. Alfinetadas aos criacionistas e intelligent designers também. Cosmos prega a ciência e uma comunidade científica. É a proposta do programa, feito para convencer, com razão, àqueles que, estupidamente, negam o valor da ciência. Coisa que nem criacionista nem intelligent designer, quando cientistas, se atrevem a fazer, justamente porque estão no mesmo barco, olhando para uma galáxia de dados anômalos.

É possível assistir a Cosmos e se regozijar com nossas vitórias, como civilização. Ou como um gigantesco exercício de hermenêutica do Salmo 19:1. No último episódio, Tyson diz: “Tem gente que gosta de um universo pequeno. Não tem problema. Só que eu gosto dele grande.”

Eu também gosto do universo grande, gigantesco. Só não acho que ele é tudo o que foi, que é, e que será. Essa definição cabe a outra Pessoa. Já o universo, a ciência e os cientistas são tudo o que Ele fez, que faz e que ele sempre vai fazer ser.

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