por Daniel Ruy Pereira

Tenham compaixão daqueles que duvidam. (Judas 22)

Caros amigos,

Graça e paz sejam com todos vocês, da parte do Senhor Jesus Cristo e da minha, Daniel, blogueiro chamado… (okay, vou parar com a paródia.)

Antes de tudo, quero agradecer o convite no debate que vocês organizaram. O debate, pra mim, sempre foi uma arte elevada. Porque debater, até onde defendo a prática, é uma tentativa de responder a uma pergunta específica. Eu não gosto quando o debate fica apenas apresentando ideias diferentes ad infinitum. Conheço ideias diferentes e adoro conhecer melhor novas ideias diferentes; mas isso não é um debate. E quando se dá a isso o nome de debate, normalmente perde-se a empolgação.

O debate, ah o debate!
Excita, empolga, enleva e eleva!
Ferve sangue, frita neurônios, cozinha ideias
Esfria a cabeça enquanto aumenta a temperatura
E acaba por aquecer o coração
Deus debate
Por que eu não?

Quando, porém, debatemos essas ideias diferentes estamos fazendo um exercício de eliminação: a fim de responder à pergunta X, ideia tal é boa, ideia tal é ruim. Vamos assim selecionando até chegar àquela ideia que melhor responde a uma determinada pergunta. Perguntas, meus caros, são tudo o que temos. Quando alguém para de perguntar, começa a ser enganado. Ou, para citar um professor que já tive, “um sábio tem muitas dúvidas; um idiota, muitas certezas.”

Assim, li seus comentários no Facebook e selecionei alguns a fim de atingir alguns objetivos. O primeiro é responder à sua pergunta, Ed, com relação ao texto de Mateus 10:28.

Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno. (NVI)

“Texto simples, duro, e ao mesmo tempo difícil de entender… Quem se aventura a comenta-lo? Deve ser lido na forma literal”? (Ed)

No processo de responder à essa pergunta, várias pessoas deram suas opiniões, mas não pude deixar de notar, com destaque, as opiniões da Lili. Primeiro, pela força e determinação. Segundo, por um conjunto de premissas que, embora façam sentido dentro de um certo ambiente teológico, falham tanto em responder à pergunta em questão como em formar uma visão global e coerente a respeito do cristianismo. Porque, para a pergunta em questão, só o cristianismo serve para responder à tal pergunta.

Assim, Lili, mostrar a você um quadro bem pintado do Cristianismo é meu segundo objetivo. Serei franco e direto, como gosto de ser, e espero que você entenda que isso é necessário. O quadro que vou pintar pra você do Cristianismo tem a Bíblia como pincel e regras gramaticais, históricas e críticas como tintas. Não dá pra pintar sem essas ferramentas, claro. Às vezes vou contrariar você em tons mais fortes, outras vezes em tons pastéis, não porque quero “ganhar a discussão” (isso não existe), mas sim porque preciso, pela própria natureza do assunto.

“Parece legítimo”. Um quadro que a maioria dos crentes, e descrentes, pinta de Jesus, quando lê a Bíblia.

Antes de começarmos vou dar algumas direções. Prestem atenção às palavras em negrito. São palavras que, para este post (algumas, para qualquer situação) são palavras técnicas. Ao final do texto, acrescentei um glossário, para onde você pode ficar indo e voltando ao seu bel-prazer. Ele servirá como um conjunto de definições sobre as quais basearei meus argumentos. Por que isso? Bem, em um debate a primeira coisa a ser feita é definir um termo e trabalhar a partir dessa definição. Debater sem definir antes é como ir a uma cafeteria irlandesa e pedir um pão-de-queijo. Vai ficar ali esperando até explicar o que é um pão-de-queijo (e vai dar trabalho, acredite).

Segundo, fiz uma seleção dos comentários mais representativos e os organizei em uma sequência lógica para este artigo. Começarei cada sessão principal (que, aqui, chamarei de capítulo) com uma citação (ou mais) e vou explicar meu ponto-de-vista me baseando nela(s). Ao longo dos capítulos, então, vamos fazendo a exegese do texto acima.

Capítulo 1: Quem tem medo de Deus?

O problema para mim está no temor… não tem como eu adorar, venerar, amar algo que eu tema. O temor é um enredo, um laço!!! Medo eu tenho de tudo que for mal ou expressão do mal… Respeito e amor eu tenho pelo que for bom e do bem! OBS: Algumas pessoas vítimas de violência acham que amam quem as violenta e por isso continuam apegadas a isso quando o que as move é uma dependência emocional impregnada de medo. (Lili)

A tradução temor expressa melhor a ideia do que medo. (Eliézer)

Colocando o texto no seu devido lugar

O texto que estamos analisando, Mateus 10:28, é parte de um longo discurso particular de Jesus, que pode ser dividido em cinco blocos. Jesus não disse essas palavras para o povo todo na praia. Ele o fez para seus  doze discípulos (v.5). Em que situação? Quando enviou os doze apóstolos (que ainda eram só discípulos) para várias cidades de Israel a fim de pregar e realizar milagres. Do v.5 ao v.15, diz a eles o que devem fazer; do v. 16-25, que eles irão, certamente, encontrar resistência e perseguição; do v.26-33, como devem enfrentar a perseguição, e do v. 34-39, por quê serão perseguidos; por fim, do v.40-42, que nada será em vão e haverá recompensa inclusive para quem recebe-los (aos apóstolos) de bom grado. Nosso bloco é o terceiro.

Veja que a afirmação do v. 28 não está solta no ar. Sabendo que serão perseguidos, os discípulos não devem temer (v.26), no grego, phobethete, os perseguidores, nem phobethete os que matam o corpo. Devem, porém, phobethete quem pode destruir alma e corpo e lança-los no geenna (inferno). Uma pergunta retórica serve de ilustração: os pardais não são coisas bem baratinhas, meio que “sem valor”? Ora, Deus cuida deles”, v.31: “Portanto, não phobethete, porque vocês valem mais que muitos passarinhos.”

Observem, então, que apenas um verbo é utilizado em grego, que traduzimos como “temer/ter medo”. O que, exatamente, significa phobethete, que vem de phobeo, de onde herdamos “fobia”? James Strong, em sua fantástica Exhaustive Concordance of the Bible, dá os seguintes significados (estou fazendo uma tradução livre do texto em inglês):

  1. Fazer fugir de modo aterrorizado (afugentar)
    1. fazer fugir,
    2. Ter medo,
      1. ficar tomado de medo, alarmado:
        1. daqueles que ficam pasmos ante estranhas visões ou acontecimentos.
        2. daqueles que ficam boquiabertos
      2. temer, ficar com medo de alguém
      3. temer (isto é, hesitar) fazer algo (por medo de danos)
    3. Reverenciar, venerar, tratar com respeito ou obediência reverente”

Já a tradução temer/ter medo trás os mesmos significados. De acordo com o Dicionário online Michaelis, temer é:

  1. Ter temor, medo ou receio de…
  2. Sentir temor, assustar-se
  3. Reverenciar, venerar

Temer ou ter medo?

Depois dessa parte descritiva, precisamos tomar uma importante decisão. O texto quer dizer “ter medo”, “se assustar” ou “reverenciar”, afinal? É bem simples decidir. Olhe para contexto em que o versículo está inserido. Sabendo que, no capítulo todo, a mesma palavra é usada, e que esse bloco continua (“portanto…”) com o fato de que vocês, discípulos, serão perseguidos, o que faz mais sentido dizer?

Opção A – “Portanto, não reverenciem seus perseguidores… Não reverenciem os que matam o corpoAntes, reverenciem aquele que pode destruir… alma… [e] corpo… [Pardais não têm pouco valor e mesmo assim Deus cuida deles?] Portanto, não reverenciem; vocês valem mais do que muitos pardais!”

Opção B – “Portanto, não se assustem com seus perseguidores… Não se assustem com os que matam o corpoAntes, se assutem com aquele que pode destruir… alma… [e] corpo… [Pardais não têm pouco valor e mesmo assim Deus cuida deles?] Portanto, não se assustem; vocês valem mais do que muitos pardais!”?

Opção C – “Portanto, não tenham medo dos seus perseguidores… Não tenham medo dos que matam o corpo… Antes, tenham medo daquele que pode destruir… alma… [e] corpo… [Pardais não têm pouco valor e mesmo assim Deus cuida deles?] Portanto, não tenham medo; vocês valem mais do que muitos pardais!”?

Depois de olhar as três traduções possíveis, é evidente, gritante, que a terceira opção é a única que faz sentido. É com ela que ficamos.

Mas como ter medo de Deus se Deus é bom?

Essa pergunta parece aquela pergunta que vale um milhão, mas ela é não é difícil. Em inúmeros lugares na Bíblia lemos que Deus é bom. Por exemplo, no maravilhoso Salmo 106:1: “Aleluia! Dêem graças ao Senhor porque ele é bom; o seu amor dura para sempre.” No mesmo capítulo, todavia, o salmista diz que o povo “fez o mal e foi rebelde” (v.6), e Deus os julgou com “o que eles pediram”, “mas [também]…uma doença terrível” (v.15).

Deus é bom. E justo. E misericordioso. Por isso devemos ter medo dele. Mas não se enganem, revencia-lo e se assustar com o que Ele faz também têm lugar na vida cristã. O texto de Mateus 10:28, porém, faz uma comparação. Homens podem destruir o corpo do cristão, não a sua alma. Deus pode destruir corpo e alma. Não tenham medo do primeiro, mas tenham do segundo. Se sua alma estiver “de bem” com Deus, você não precisa ter medo Dele. Se, por outro lado, sua alma estiver “de mal” com Deus, meu filho, tenha medo – e tenha muito, porque Ele pode te lançar no geenna, seja lá o que for isso (vamos falar disso ja-já). Ter medo de Deus, eu diria, é uma fase inicial da vida cristã. Quando crianças temos medo do que nossos pais podem fazer; quando crescemos, o medo geralmente passa e fica o respeito e o amor.

Além disso, ter medo nunca foi problema nenhum. Quando eu era criança, meus pais me ensinaram certo e errado. Às vezes, só falar ajudava, mas às vezes, era preciso castigar, punir. Quando no Ensino Médio, tinha medo de não ter sucesso no vestibular e não entrar na faculdade. Na faculdade, tinha medo de não aprender direito e não ser um bom futuro professor. No magistério, medo de danificar o aprendizado dos meus alunos, de incorrer em crime. No meu casamento, medo de desapontar, destratar minha esposa. Veja quantos tipos de medo, aqui. Todos eles são respostas diante do assustador (o castigo, a frustração, o crime, a incompetência, o desapontamento). Não por acaso, todos esses “assustadores” podem ser relacionados a Deus também. Deus pode castigar, como o pai castiga. Pode punir e condenar, como o Estado pune e condena. Deus permite frustrações (e às vezes as causa). Deus nos ensina aos poucos, permitindo nossas incompetências virem à tona. Deus se desaponta conosco e permite nosso desapontamento. Deus é uma Pessoa Perfeita. Totalmente poderosa, com sabedoria infinita, com a capacidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, moralmente irrepreensível, completamente justo. Não ter medo de uma entidade assim é loucura. (1)

Capítulo 2: Quem tem medo do Inferno?

“Não acredito no inferno. Acredito que “sepultura” é a real tradução. (Alan)

“O inferno não existe. Foi criado para pôr medo nas pessoas.” (Celso)

“Imaginar que “Deus” pode destruir a alma e o corpo no inferno é meio complicado. (Ed)

“Inferno não faz sentido para mim.”(Lili)

Então Deus lança alma e corpo no “inferno”… Não seria esse “inferno”, apenas a palavra para “sepultura”? Afinal, Deus bondoso não criaria um lugar chamado “inferno”, de castigo eterno, para onde mandaria pessoas. Certo?

O significado de geenna

O Novo Testamento (NT) usa basicamente duas palavras gregas para o estado pós-morte. A primeira é hades, que é equivalente ao hebraico seol no AT: lugar onde estão os mortos. A segunda é geenna, derivada do hebraico ge’ hinnom, que aparece pela primeira vez em Mateus 5:22: “…qualquer que disser [ao seu irmão]: ‘Louco!’ corre o risco de ir para o fogo do inferno (geenen tu piros).” Estaria Jesus se referindo ao lugar dos mortos ou a um lugar de punição eterna, envolvendo fogo? A nota da Bíblia de Estudo NVI é bem esclarecedora.

A palavra grega é geenna, cujo nome se origina de uma ravina profunda ao sul de Jerusalém: o “vale (dos Filhos) de Hinom (hebr., ge’ hinnom). Durante os reinados dos perversos Acaz e Manassés, sacrifícios humanos ao deus amonita Moloque foram oferecidos ali. Josias profanou o vale por causa da adoração pagã naquele lugar (2Rs 23.10; v. Jr 7.31, 32; 19.6). Veio a ser um depósito de lixo municipal constantemente em chamas e, mais tarde, figura do lugar de castigo inevitável. (p. 1625)

Vale de Hinom, em 2007. Foto de wikipedia.org
Vale de Hinom, em 2007. Foto de wikipedia.org

Fazendo o mesmo exercício anterior, quando Jesus, então, usa o termo, o que queria dizer?

OPÇÃO A – “… tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no lixão municipal.”

OPÇÃO B – “… tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no lugar onde o fogo nunca se apaga.

Os discípulos de Jesus devem ter entendido imediatamente a referência, vivendo lá e conhecendo sua história (os judeus frequentavam escolas rabínicas desde muito cedo, antes dos 10 anos de idade. Aquela conversa de que Jesus tinha discípulos analfabetos é tanto bobagem como ignorância) sabiam que Jesus estava usando aquele local maldito de incessantes fogueiras como figura de um lugar espiritual para onde “corpo e alma” podem ser mandados.

Ou seja, geenna significa “inferno”, um lugar de castigo onde “as chamas nunca se apagam”. Por isso, Celso, quando você diz que o inferno não existe, mas foi criado para pôr medo nas pessoas, está falando que quem criou o conceito de inferno foi Jesus, e ele só fez isso pra assustar, sem que mereça ser encarado com seriedade. Mas não parece ser assim no texto, não?

Quem vai para o Inferno

Ed e Lili, por que seria tão complicado entender ou aceitar o conceito de inferno? O conceito de “cadeia” é fácil de aceitar? E o conceito de castigo? E o conceito de código penal? Cadeia, castigo e código penal são aplicáveis a cidadãos que cumprem a lei ou que descumprem a lei? No caso, bem atual, dos escândalos da Petrobrás e da Operação Lava-Jato, o conceito de “condenação dos corruptos” é fácil de aceitar? Ou a sociedade brasileira deveria amar incondicionalmente os corruptos e “deixar pra lá”?

A ideia é a mesma, em proporção. Para ficar mais fácil de entender por quê Deus criou o inferno para o perverso, que não se arrepende, pensem em termos de escala.

  1. Caso eu cometa um crime contra uma formiga, a pena que eu teria seria X (nenhuma no caso).
  2. Caso eu cometa um crime contra uma criança, a pena será 2X.
  3. Caso eu cometa um crime contra o governador, 4X.
  4. Caso eu cometa um crime contra o presidente, 5X.
  5. Caso eu cometa um crime contra a nação brasileira, 6X.
  6. Caso eu cometa um crime contra a humanidade, 7X.

Se, conforme a escala do crime cresce, a punição cresce, o que acontece quando o afetado está tão em cima, na escala, que é Infinito? A punição justa não seria infinita também? Faz muito sentido. O que não faz sentido é não haver punição.

Na mesma linha, Deus não “manda” ninguém para o inferno. Há um julgamento e para lá vai quem for culpado do crime infinito. E quem comete o crime é o indivíduo. O cara se manda pro inferno. Ou vamos dizer que o Supremo Tribunal Federal “manda” cidadãos de bem para a cadeia? Ele só julga e dá o veredito, e o criminoso vai pra onde merece ir. Deus é exatamente o mesmo, com a diferença que Ele é incorruptível e infinitamente justo.

Capítulo 3: Quem tem medo de crer na Bíblia?

Quem quiser se estrepar leia algo e tome por literal. (Lili)

Tanto foi modificado e acrescentado… muito pouco é original e até mesmo os originais foram feitos por pessoas de carne e osso tal e qual nós. Divina inspiração? Até hoje temos pessoas divinamente inspiradas e toda a gente o é em determinada altura da vida. (Lili)

Não creio nisso, [em o coração humano ser enganoso]… para mim é uma das piores falácias bíblicas entre tantas outras… (Lili)

Assim que entra a Bíblia eu costumo sair [das discussões]! kkkk e eu a conheço tão bem, só que escolhi esquecer e não cedo. (Lili)

Lili, você pode perceber que dominou a discussão agora. Sua cosmovisão sobre o “divino” estar em todo lugar e, por isso, não num livro antigo escrito por homens é compreensível, mas você ainda não parou para avaliar as evidências históricas e textuais, o que fica evidente quando você dizer conhecer a Bíblia, mas achar que o conceito de coração auto-enganoso falacioso e que pouquíssima coisa é original. Quem conhece a Bíblia sabe que esse argumento foi, na verdade, superado há muito anos (pelo menos uns 70, partindo do achado dos manuscritos de Qunram).

O texto bíblico é confiável?

Escrevi já sobre isso, mas há muito material disponível on-line para desfazer esse mito. R.V.G Tasker diz:

Nenhuma obra literária que nos chegou do mundo antigo, teve tantas provas documentais como o Novo Testamento. (…) O pesquisador do texto do Novo Testamento está numa situação muito mais cômoda. É certo que os originais de todos os livros do Novo Testamento desapareceram pouco depois que foram escritos e que numerosas copias foram feitas por escribas poucos instruídos e por outros indivíduos que se preocuparam mais pelo sentido geral dos livros, que eram para eles a mensagem da salvação, que pela precisão e exatidão. (…) Ainda que as variantes que se encontram nestes diversos testemunhos do texto do Novo Testamento sejam numerosas, a maior parte delas são diferenças pequenas, que não afetam em absoluto o sentido geral. As outras são de enorme interesse e de importância considerável, e o desejo de descobrir o original, nestes casos, é o maior estímulo do crítico textual.

Quando se tem vários manuscritos, é possível, por meio do método crítico, decidir qual é a mensagem do original. Um artigo (em inglês) muito simpático de Ron Rhodes explica como. Digamos que sejam encontrados cinco manuscritos, com variações (as variações encontradas são geralmente nessa escala).

Manuscrito 1: …tenha medo quele que destrui tanto a alma como o corpo no forno.

Manuscrito 2: …tenham medo aquele que pode destruir alma e o corpo no inferno.

Manuscrito 3: …tenham medo daquele pod destuir tanto a alma como o corpo no inferno.

Manuscrito 4: …team medo daquele q pode destrui tanto a alma como o corpo no inferno.

Manuscrito 5: …tenham medoaquele ue pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.

Todos têm alterações, mas a análise da estrutura permite chegar a uma conclusão bem satisfatória a respeito de qual é a mensagem do original, uma vez que todos são cópias. “Tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.”

Ademais, em todas as cópias de manuscritos, e por toda a estrutura da Bíblia, existe coerência. A teologia presente em Mateus é encontrada no Pentateuco, tanto que Mateus cita Moisés (contextualizado) o tempo todo. Paulo extrai sua teologia do Velho Testamento inteiro, pedaços aqui e pedaços ali. O Velho Testamento, em si, permite a montagem sistemática dos atributos de Deus, em pleno acordo com o mesmo exercício feito no NT. Não existe essa incoerência que você diz haver. Pode conferir à vontade. A isso chamamos divina inspiração.

A leitura literal é prejudicial?

Dependendo do texto que você lê, vai querer que ele seja literal. Ou você gostaria de ler a bula de um remédio assim:

“Oh, dulçor do mel! Eis a Dipirona! Vem bloquear esses vis neurotransmissores, Amor! Faz morrer a dor! Ah O sinal! Ah A química!”

Ou uma receita de bolo assim:

“Disse o ovo à farinha: ‘Vem, pois; juntemo-nos e mergulhemos no leite e dancemos juntos ao som do bater. E que sairá de nós então?”

Diferentes textos, de diferentes gêneros, exigem diferentes leituras. Apocalipse é apocalíptico; Jeremias, profético; Jó, poético. Mas e quanto a esse Mateus 10:28? Seria literal?

Pense nisso, comparando com Atos dos Apóstolos. Jesus vem dizendo aos apóstolos que eles devem sair daquela cidade e ir para as próximas pregarem (o que eles fizeram); que eles serão perseguidos por pregarem a mesma mensagem que Jesus (o que eles sofreram); que eles deverão resistir e confiar em Deus (o que eles também fizeram). Ora, tudo isso tem sido literal, por que então, do nada e sem motivo, Jesus vai jogar uma metáfora sobre ficar morto? Seria como se Ele dissesse: “Não tenham medo daqueles que podem te jogar no túmulo. Tenham medo daquele que pode jogar corpo e alma no túmulo.” Hein?

Quando Jesus usava ilustrações, ele as usava de forma ordenada, inteligente. A ilustração aqui é a do preço dos pardais. Antes disso, Jesus disse: “Se eu, que sou o Mestre, fui chamado de Belzebu, quanto mais vocês que são alunos!” Os discípulos deveriam estar com medo do que aconteceria.  A fim de acalma-los, Jesus continua: “Mas calma. Não precisam ter medo deles. Deus deve ser temido. Eles destroem seu corpo. Não sua alma. Deus destrói, no inferno, a alma e o corpo de quem ele quiser. Mas vejam: se até pardais, que as pessoas consideram sem valor, recebem cuidado de Deus, quanto mais vocês, que são extremamente valiosos?”

Opa se esse texto é literal! Foi ouvido, pensado, comunicado e escrito assim. Literalidade para esse texto é o que os discípulos – e nós – precisavam. (2)

Capítulo 4: Quem tem medo de uma decisão?

Aí vamos entrar em questões teológicas… rs (Ed)

Todos… [Cristo, Budá, Alá etc] são representações sociais, culturais e históricas de mitologias ancestrais e qualquer pessoa que vá estudar o começo de tudo o que houve antes da Bíblia, Jesus, etc vai saber isso. (Lili)

A nossa interação com o divino é a nossa interação uns com os outros, com os animais, planeta etc. Todo o resto são mitos (…) Quem enxergar a divindade ao seu redor, no quotidiano, [não precisa mais] temer a Deus (…) Se o divino for mesmo incondicional, não faz exigências. (Lili)

Caro Ed, todas as questões podem ser ultimamente teológicas. É o que, de fato, importa. Porque, se Deus existe, e Ele é uma Pessoa que ama, faz exigências morais (sim), perguntas teológicas são as únicas que precisaremos fazer. Por isso a Bíblia não é um livro de ciências, nem de filosofia. (3) É um livro organizado teologicamente. Por isso a cronologia fica fora de ordem cronológica; por isso Deus é o personagem principal em várias histórias; por isso tantas mitologias se parecem com ela.

Joseph Campbell, no seu livro “O Herói de Mil Faces”, aborda esse tema. Veja, ele utiliza métodos psico-analíticos para chegar à conclusão de que todos os heróis se encaixam na “Jornada do Herói” e seriam todos, essencialmente, a mesma história recontada de modo diferente por todas as grandes histórias e relatos religiosos. Já estudei isso Lili. Faz até certo sentido.

Exceto quando você pergunta: “E se todas as divindades e heróis se encaixarem na ‘jornada do herói’ por serem de fato a expressão da mesma história (Mito)? Profecias, dicas, pistas, do Herói Definitivo real que haveria de aparecer ou que já havia aparecido?”

Bruce Olson relata um caso intrigante no seu livro “Por esta cruz te matarei“. Como missionário cristão do século XX, foi pregar o cristianismo na tribo colombiana dos motilones, que não tinha tido contado com a civilização moderna. Lá, em suas aventuras, ouviu a história de porque os motilones não tinham religião, embora a quisessem.

— Quanto tempo faz que você está aqui? — perguntei tranqüilamente.
— Desde que o sol nasceu hoje de manhã.
— E por que você diz que foi enganado?

Ele me contou novamente a história do falso profeta que os motilones haviam seguido, cujas promessas falsas os afastaram de Deus. — Nós não conhecemos mais a Deus — ele disse com calma.

(…)

Iniciamos, então, um debate animado. O homem que estivera no alto da árvore descera e se juntara a nós. Ele nos fez recordar aquela lenda de que um profeta viria, trazendo talos de bananeira e que Deus sairia daqueles talos.

Eu não podia compreender muito bem a idéia ligada àquela lenda.

— Por que esperar que Deus venha de um talo de bananeira? — perguntei.

Houve um silêncio um tanto constrangedor. Aquilo tinha sentido para eles, porém não sabiam explicá-lo. Bobby se dirigiu a uma bananeira, que crescia ali por perto. Ele cortou uma parte dela e atirou-a em nossa direção.

— Esse é o tipo de talo de bananeira da qual Deus poderá vir — ele disse. Era uma secção transversal. Ela rolou aos nossos pés.

Um dos motilones abaixou-se e atingiu-a com a sua machadinha, partindo-a ao meio, acidentalmente. Uma parte ficou de pé, enquanto a outra se dividiu. As folhas que ainda estavam dentro do talo, à espera de se desenvolver e sair, começaram a se desfolhar, de maneira que presas àquele talo, se assemelhavam às paginas de um livro.

De repente, uma palavra surgiu em minha mente. “Livro! Livro!” Apanhei minha sacola e peguei a Bíblia. Eu a abri. Folheando suas páginas, apresentei-a aos homens. Apontei para as folhas do talo da bananeira, e depois para a Bíblia.

— Aqui está ele — eu disse. — Eu o tenho aqui. Este é o Deus do talo da bananeira.

Um dos motilones, aquele que subira à árvore, arrancou a Bíblia de minhas mãos. Começou a rasgar-lhe as páginas e enfiá-las na boca. Ele julgava que comendo as páginas, teria Deus dentro de si.

Visto que nada aconteceu, eles começaram a fazer perguntas. Como poderia eu explicar-lhes o Evangelho? Como poderia eu explicar que Deus, em Jesus, seria semelhante a eles? (p.44)

E então ele continua de forma surpreendente:

De repente, lembrei-me de uma de suas lendas, a respeito de um homem que se transformara numa formiga. Ele estivera sentado num trilho, atrás de uma caça, e notara algumas formigas construindo a casa. Ele queria ajudá-las a construir uma boa casa, igual à dos motilones, por isso começou a cavar o solo. Mas, porque ele era tão grande e desconhecido, as formigas se amedrontaram e fugiram.

Então, milagrosamente, ele se transformou numa formiga. Pensava como formiga, assemelhava-se a uma formiga e falava a linguagem de uma formiga. Viveu com as formigas e elas chegaram a confiar nele. E, um dia, ele contou a elas que realmente ele não era formiga, mas, sim, um motilone, e que tentara, certa vez, ajudá-las a construir a sua casa, porém as assustara.

As formigas disseram algo parecido como: “Você está brincando? Então era você?” E elas riram, porque ele não se parecia nada com aquele ser tão grande e amedrontador que estivera removendo a terra. Então, naquele momento, ele voltou a ser motilone, e começou a trabalhar a terra no formato de uma casa igual à dele. Desta vez as formigas o reconheceram e deixaram que ele fizesse o seu trabalho, porque sabiam que ele não lhes faria mal algum. Essa é a razão por que, segundo a lenda, as formigas têm formigueiros semelhantes às casas dos motilones.

À medida que a história ia passando pela minha mente, pela primeira vez, vi e compreendi a lição: se alguém for grande e poderoso, precisa tornar-se pequeno e fraco, a fim de trabalhar com os outros seres que são mais fracos. Era um paralelo perfeito para aquilo que Deus fizera em Jesus. (p.55)

Até a Jornada do Herói fica bem quando põe a roupa de ir pra Igreja.

As exigências do Divino

Você diz que o divino, se for incondicional, não faz exigências, mas a ideia de “incondicional” é inerentemente um problema. Se algo é incondicional, sua exigência é não haver condições, e se há condições então não existe incondicional. Se eu, que creio possuir o divino, possuo esse divino incondicionalmente, então o outro também o possui. Mas e se o outro é Jack, o Estripador? O que teria acontecido com o divino nele? Teria sido suprimido? Então, o que fazer para não suprimir o divino? Qual condição permite que o divino se expresse?

Não existe incondicional, porque tudo exige uma condição. O próprio amor de Deus, incondicional quando pensamos que não perguntou se queríamos ser amados, que “prova seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:20), impõe uma condição: a de ser reconhecido e recebido em seu Filho amado, Jesus Cristo. “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito…” (João 3:16, veja minhas ênfases). Deus personificou seu amor incompreensível em Cristo, como quem coloca uma pérola numa caixa de presente e entrega a caixa, e tudo o que está contido nela. Sem caixa, sem pérola. Sem Jesus, sem amor.

Conclusão

Dependendo da perspectiva, o cristianismo deixa de ser mais uma opção e se torna a única opção para nos relacionarmos com “o divino” – a partir de agora, o Divino, Deus Pai. Aliás, o que você chama de “divino”, Lili, também está incluso no cristianismo e é chamado de “Imago Dei“, ou a imagem de Deus, que todos possuímos porque fomos todos criados por Ele. Mas isso não é o suficiente para nos fazer melhores humanos – vide o caos da sociedade moderna, a despeito do melhor conjunto de legislações que já apareceu na história (por influência direta da cultura judaico-cristã), como a Constituição norte-americana, a Declaração dos direitos humanos, a nossa Constituição Brasileira de 1988 etc. Não temos, em nós, o poder de nos elevarmos, de nos salvarmos.

Sem Cristo, caros amigos, sem Deus, sem Divino.

Com Cristo vem Deus e eu vou para o meu próximo, necessitado de mim e de Cristo.

Como chego a Cristo? Através da Bíblia, deixando que o Espírito Santo me ajude a entende-la, apenas lendo com humildade. Se eu tentar, porém dizer o que a Bíblia deve dizer, não deixarei que ela fale, porque fico interrompendo toda hora pra dizer o que eu penso, e o que ela deveria dizer.

“Mas o Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra.” (Habacuque 2:20)

E passe a ouvir.

Abraços fortes desse amigo e irmão em Cristo Jesus.


Glossário

Ambiente teológico – Me refiro a um conjunto de pessoas que frequentam um mesmo lugar (igreja, grupo de discussão, comunidades online, etc) e partilham do mesmo sistema básico de fé, que acaba sendo visível em suas discussões mundo afora.

Amor – Decisão política refletida num sentimento agradável que é constantemente atacado por todo tipo de intempérie. O amor é uma doação, um verbo. 1 Coríntios 13, ao contrário do que muitos pensam, não diz que o amor é incondicional. Diz que o amor é sofredor, benigno, desinteressado, infalível, verdadeiro; que o amor não é invejoso, leviano, soberbo, indecente, interesseiro, irritadiço, preconceituoso, nem injusto. “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (1 Co 13:2-8) Nunca diz incondicional, até porque uma das condições do amor é tomar uma decisão por aquele que não merece ser amado. Nesse caso, a condição do amor é o desinteresse.

Condenação – Culminação máxima negativa do relacionamento (ou falta dele) com Deus. A pena é máxima porque o crime é máximo: na teologia cristã, rejeitar Cristo como Salvador, que morreu voluntariamente no lugar do acusado a fim de pagar sua dívida moral com Deus é passível de pena máxima, ou “segunda morte”, de acordo com Apocalipse.

Crime infinito – a rejeição voluntária de Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador vicário. Alguém já disse algo mais ou menos assim: “Deus manda as estrelas terem determinado tamanho e elas obedecem; manda o sol consumir tanto de hidrogênio, e ele obedece; manda o universo se comportar da forma como se comporta, e tudo obedece; manda você reconhecer que Cristo morreu definitivamente por você e você diz não.”

Depravação Total – Estado infeliz do homem desde que nasce, evidenciado pelo fato de que ele sempre procura aquilo que é escuso e mau. Mesmo que passe algum tempo sem pratica-lo, acaba voltando a ele.

Divina inspiração – Doutrina que ensina que a Bíblia foi inspirada pelo próprio Deus, isto é, Deus estava no controle do que estava sendo escrito, inspirando verdade na intenção e estilo do humano falível que a escreveu. Por isso, Davi como poeta, Paulo como filósofo, João como apocalíptico, Lucas como historiador têm estilos bem distintos, mas uma mesma teologia. Além disso, o fato de a Bíblia ser conservada do jeito que é, mesmo tendo sido alvo de perseguições, destruição, ódio e desprezo, aponta para o cuidado de Deus em preservar sua mensagem.

Exegese – Interpretação do texto bíblico. Interpretar um texto não é simples, mas não é impossível. Como qualquer texto bíblico, o significado de um texto é dado pelo conjunto de fatores sociais, gramaticais, estilísticos, históricos e teológicos que o texto carrega. Se eu disser “All you need is love”, você tira um significado daqui (passada a barreira do idioma). Mas isso é insuficiente para interpretar o texto completo. Saber que John Lennon e Paul McCartney são os autores, que ela é de 1967, que é um poema, que é composta dentro de uma determinada ideologia etc dá o real significado da música.

Pão-de-queijo – Iguaria brasileira cuja receita deve ter surgido por revelação divina, infelizmente ausente na República da Irlanda, a não ser por meio de lágrimas, sofrimentos e contrabando.


Notas

(1) Lili também comentou que “algumas pessoas vítimas de violência acham que amam quem as violenta e por isso continuam apegados a isso quando o que as move é uma dependência emocional impregnada de medo”. O cristão, assim, seria um sofredor da síndrome de estocolmo, onde o sequestrado se apaixonada pelo sequestrador e passa a depender emocionalmente dele. Mas isso falha em ver que a relação do cristão com Deus é a de filho para Pai. Quando um bom pai castiga, não comete violência (use um tapa, um castigo ou uma bronca), mas educa.

(2) O coração humano para você, Lili, não é enganoso. Mas o que esse texto, de Jeremias 17:9, diz? Que só Deus conhece, de fato, o coração. Mesmo que você acredite que temos “o divino” em nós, isso não explica várias coisas. Se temos o “divino” dentro de nós, por que insistimos em mentir, mesmo em pequenas coisas? Por que insistimos em ter pensamentos maus sobre pessoas? Por que continuamos julgando pessoas pelas aparências? Por que crianças “inocentes” têm prazer precoce no bullying, que nada mais é que o prazer em humilhar alguém a fim de obter diversão? Por que somos egoístas? Por que adulteramos? Por que insistimos em coisas erradas? Por que o avanço da tecnologia promove o crescimento das guerras, cultura bélica, doenças e mortes? Por que, tão evoluídos que somos, somos o século mais sangrento da história? Sinceramente, o coração do homem ser “enganoso, mais do que todas as coisas, e perverso” – ou que o ser humano é completamente depravado, é a melhor explicação para nós, como espécie e indivíduo. Não parece, nem de longe, que exista algo de divino dentro de nós.

(3) Embora todas as declarações bíblicas que toquem filosofia ou ciência sejam precisas. Falhamos em entender um ou outro conceito porque elevamos Ciência e Filosofia, segmentos do conhecimento natural, a um patamar maior que o da própria Bíblia, fonte do conhecimento sobrenatural. Me parece quase como se um professor pegasse os trabalhos dos alunos do último ano do Ensino Fundamental, do ano anterior, e os utilizasse como livros didáticos para a próxima turma de Ensino Médio.