por Daniel Ruy Pereira

Marco Feliciano não cansa de propor coisas. Seria bom se propusesse coisas boas e úteis, o que não é o caso dessa sua proposta de incluir criacionismo da grade curricular das redes de ensino do Brasil (Projeto de lei 8099/2014). Como professor de ciências e biologia e criacionista eu não poderia ser mais… contra essa proposta, por vários motivos.

O projeto é uma aberração. Tanto o texto per se, com todos os seus erros conceituais e gramáticos, como a “justificativa” utilizada. O parágrafo 1, por exemplo, lê assim:

§ 1º – Os conteúdos referidos neste artigo devem incluir noções de que a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo universo e de todas as coisas que o compõe.

Eu, claro, posso começar perguntando se as “noções de que a vida tem sua origem em Deus etc” referem-se ao Deus judaico-cristão ou a qualquer outro dos filosoficamente milhões possíveis? E, sendo o Deus cristão, como se entende pelo resto do texto, deve subscrever ao Credo Niceno, à Confissão de Fé de Westminster ou aos 39 artigos da Comunhão Anglicana? Ou aos 104 da Confissão Irlandesa (embora todos esses documentos sejam semelhantes)? Ou a alguma outra definição das n existentes sobre a natureza e caráter de Deus? Essas definições serão protestantes, católicas, ortodoxas, liberais?

Com base nisso creio que essa proposta jamais entraria em vigor, mas num mundo onde é possível uma “bancada evangélica”, vai saber. A “justificativa” fornecida para o projeto é ainda mais esdrúxula. O segundo parágrafo me deu vontade de chorar.

“os seres vivos provieram da matéria inorgânica, e das plantas se originaram os animais e, por fim, dos animais teria provido [sic] o homem.” (ênfase minha)

Primeiro que é “provindo”, vindo de; “provido” é algo que faltava e não falta mais, foi pro-vi-den-ci-a-do. E nunca na história dessa ciência se disse que plantas originaram animais, nem animais o homem, mas se fala em ancestralidade comum.

Ocorre que por força da fé, dos costumes, das tradições e dos ensinos cristãos, a maioria da população brasileira crê no ensino criacionista, como tendo sua origem em Deus, criador supremo de todo universo e de todas as coisas que o compõe, como animais, plantas, o próprio homem.

Este ensino tem como fundamento o livro de Gênesis contido no livro dos livros, a saber, a Bíblia Sagrada que é a verdadeira constituição da maioria das religiões do nosso país.

Por força de fé, costumes, tradições e ensinos cristãos a maioria da população brasileira não faz a menor ideia do que é criacionismo. Acreditar que Deus existe é uma coisa; que Ele é o Criador é outra; que Ele criou de modo especial outra; que a Bíblia é “o livro dos livros” outra; e que a “Bíblia Sagrada é a verdadeira constituição da maioria das religiões do nosso país” é uma estupidez. (1)

Assim sendo ensinar apenas a teoria do evolucionismo nas escolas, é violar a liberdade de crença, uma vez que a maioria das religiões brasileira [sic] acredita no criacionismo, defendido e ensinado na Igreja Católica, que ainda hoje é maioria no país, pelos evangélicos e demais denominações assemelhadas…

Ensinar apenas evolucionismo nas escolas não viola a liberdade de crença de ninguém porque o ensino de ciências ensina o que crê a comunidade científica a respeito de ciências, independentemente de qualquer quantidade de religiosos em um dado lugar. É uma decisão vertical, da comunidade de cientistas e seus professores/divulgadores para a comunidade em geral, sobre quais tópicos serão úteis para os alunos. A teoria da evolução, um desses tópicos, é a explicação mais aceita pela comunidade portanto nada mais natural. Em segundo lugar, a Igreja Católica, como “demais denominações assemelhadas” de inclinação liberal, há muito tempo, não defende o criacionismo e nem a leitura literal de Gênesis, como recentemente disse o Papa Francisco.

“Quando lemos sobre a Criação no Gênesis, corremos o risco de imaginar Deus como um mágico, com uma varinha capaz de fazer tudo. Mas não é bem assim (…)

“Evolução na natureza não é inconsistente com a ideia de criação, porque a evolução precisa da criação de seres que evoluam.” (2)

Ignorando a desinformação sobre o cenário atual das opiniões científicas da cristandade o texto prossegue:

As crianças que frequentam as escolas pública [sic] tem se mostrado confusas, pois aprendem nas suas respectivas escolas noções básicas de evolucionismo, quando chegam a suas respectivas Igrejas aprendem sobre o criacionismo em rota de colisão com conceitos de formação escolar e acadêmica.

(A confusão mental das crianças parece ser um problema sério aqui. Afinal, não seria horrível se elas lessem na Bíblia Jesus dizendo: “dai a César o que é de César e a Deus o que é Deus” e vissem um deputado chamado Pastor Fulano tentado dar a César o que é de Deus e a Deus o que é de César? Não, espera aí…)

Existem vários problemas com o ensino de criacionismo nas aulas de ciências. O primeiro deles, que o texto de Feliciano ignora, é que dificilmente o professor sabe o que é criacionismo. Pra começar, existem vários. 1. O criacionismo das igrejas, que é a utilização de pouquíssima ciência conveniente e desinformada para tentar provar a Bíblia (o que é ridículo). 2. O criacionismo dos evolucionistas em geral, que permanece o mesmo desde o século XIX e é misturado impropriamente com o design inteligente. 3. O criacionismo dos criacionistas, que é um modelo científico bem coerente, embasando uma vibrante comunidade de cientistas que vão de astronomia a linguística e têm vários periódicos sérios em publicação, como o Journal of Creation, o CRSQ e outros, geralmente desconsiderados pela comunidade científica porque (segundo ela) não obedecem às mesmas regras dessa comunidade, muito embora exista revisão por pares, experimentação passível de repetição, predição de fenômenos e uso dos mesmos métodos e instrumentos científicos de sempre.

Que criacionismo Marcos Feliciano quer ver ensinado nas aulas de ciências? Eu aposto que é o primeiro, fingindo ser o terceiro, mas sendo na verdade uma caricatura do segundo.

Por fim, é importante perguntar, o que é um professor de Ciências?

O professor de ciências é essencialmente um divulgador científico, se levar a coisa a sério, tão importante na esfera escolar como Carl Sagan, Stephen Hawking e David Attenborough na esfera midiática. Isso faz dele um divulgador daquilo que a comunidade aceita como explicação. E a comunidade aceita a evolução como a melhor explicação, como eu já disse. Ergo, o professor de ciências deve ensinar evolução, gostando ou não. É seu dever profissional, cívico e pedagógico. Caso contrário, vai formar alunos que não conhecem o mundo e a cultura em que estão inseridos.

Mas e quanto àqueles alunos, professores e cientistas, que fazem questionamentos legítimos ao pensamento darwinista? Não merecem ter sua voz ouvida? Claro que sim, e considero negligente o professor que não deixa os alunos cientes de que existe muito cientista migrando para design inteligente e criacionismo como explicações válidas para a origem da vida e sua diversidade. Isso simplesmente existe. Qualquer aula de evolução que não mostre que esse movimento ocorre, que não cite a existência de livros como “A caixa preta de Darwin”, o Institute for Creation Research e as ideias de Henry Morris, Jonatahn Sarfati e muitos outros, também aliena o aluno do mundo e cultura em que estão inseridos. Creio, porém, que o caminho do questionamento não deve substituir o currículo formal, justamente por ser um questionamento. Basta que perguntas sejam feitas durante o processo. Eu, por exemplo, costumo dedicar minha primeira aula de ensino de evolução à apresentação de definições de evolucionismo, criacionismo e design inteligente, dando aos alunos informações sobre autores e principais pontos das três. Por que não falo do que os hindus, budistas e tribos africanas ensinam? Simples: porque nenhum desses tem formato científico, com modelos, experimentações e discussão de ideias em forma de comunidade. Mitos são nas aulas de filosofia, literatura e história.

O criacionismo evoluiu (ha!) muito e leituras de livros como “Solid rock answers” (Oard e Reed, 2009), uma interessantíssima coletânea de artigos científicos (peer-reviewed etc) sobre geologia diluviana, ou por exemplo, mostram a validade do modelo como proposta científica viável, com possibilidades de aplicação tecnológica inclusive. Eu, embora criacionista, defendo que, enquanto os professores (além daquele seu ethos de divulgador científico) não souberem o que é criacionismo, este conteúdo não deve ser ensinado nas salas de aula, pois isso prejudicaria tanto o ensino, as ciências e o criacionismo.

O fato de o criacionismo ter implicações teístas – uma crítica frequentemente feita a ele – não o torna inviável, nem de longe. O evolucionismo tem implicações ateístas e isso também não o torna menos viável, porque essas implicações estão fora da esfera científica como o meio externo está fora da membrana plasmática. Ensino de ciências é, sempre foi e sempre será, ensino de fenômeno observado e explicação falseável proposta. A origem última do fenômeno é de aspecto filosófico e deve ser investigada e ensinada como tal – e o professor deveria estar continuamente se preparando para isso.

Cristãos, por outro lado, têm o dever de tentar levar aos não-cristãos o ensino bíblico em sua integralidade, mostrando “a razão de sua fé” (1 Pedro 3:15). Mas devem faze-lo por vida, por obras, por pregação, não por legislação pró-proselitismo travestida de projeto de lei de um estado laico. (3)

Referências e notas

(1) A Bíblia não é uma Constituição. Ela pode até conter uma constituição, no Pentateuco, para ser utilizada pela teocracia israelita no Antigo Testamento (e não Estados modernos). Com relação à Igreja Cristã, a Bíblia ensina o que é uma igreja e como o cristão deve individualmente se portar, mas não existe nada comparável a uma Constituição no Novo Testamento, em lugar nenhum.

(2) Por exemplo, “Pope Francis declares evolution and Big Bang theory are real and God is not ‘a magician with a magic wand’“. The Independent, 14 fevereiro 2015.

Sobre esse comentário do Papa, digo duas coisas. Primeiro, que o texto de Gênesis apresenta Deus fazendo seres vivos surgirem da terra, portanto é natural ver Deus como onipotente – ou mágico, no melhor sentido do termo. Deus quis que o víssemos “bem assim” sim. Ou dá pra explicar um carpinteiro judeu que afirmava ser Deus encarnado transformando, sem dificuldade, água em vinho? O justo vive por fé, afinal, é um texto que todo Papa conhece bem – Romanos 1:17. Segundo, dizer que a evolução precisa de “criação de seres que evoluam” ao invés de “coisas que criem evolução” é trocar seis por meia dúzia e falar nada com coisa nenhuma.

(3) Como sugestão de uma aula sadia abordando os limites de ciência e religião publiquei em 2011, como resultado de uma aula experimental sobre limites de ciência e religião utilizando o filme “Contato”, de Robert Zemeckis um breve artigo aqui no blog.

Para uma outra abordagem sobre o tema, veja o artigo do meu amigo Leonardo Rossato, autor de Além do Laboratório.

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