por Daniel Ruy Pereira

Naquele momento, a coisa começou a ficar complicada, porque já estava bem lotado ali. Imagine você andando na 23 de março no dia 24 de dezembro pra fazer compra de natal. Pois é. Era pior. Todas as Iguais e Diferentes estavam sempre se movendo em todas direções e ela, claro, estava lá, apertada, se movendo com as outras – sendo na verdade levada pela multidão para tudo quanto é lugar.

Os Portais estavam abertos, como sempre, mas não todos. E, de onde ela estava, se podia ver o centro esférico da Esfera (se houvesse luz e existissem olhos desse tamanho, o que é impossível, claro). Ele também tinha seus pequenos portais, de onde saiam cabelos de vários tamanhos, fazendo com que a coisa se parecesse com um sol cabeludo em todas as direções, com cabeça de um senhor que está ficando calvo, mas não completamente, e seus cabelos ficam arrepiando pra cima. Depois de um tempo, os cabelos se soltam da cabeça e começam a flutuar em volta, sendo grampeadas por duas peças globulares que passam a se comportar como zíperes automáticos e produzir bolinhas, ovinhos, globinhos, bastõezinhos e outras forminhas, para repetir tudo com novos cabelos depois.

Abaixo do centro esférico havia uma série de bolhas indo e vindo. Uma delas acabara de chegar, vindo da Superfície de Bolinhas de Gude. Podia-se ver (se houvesse luz e olhos, é claro), dentro dela, por transparência, um conjunto de cinco grandes bastões, ou melhor, pães franceses cabeludos. Se moviam em todas as direções, mas desesperadamente, tentando fugir de alguma coisa que os ameaçava lá dentro, ao que parece.

Foi quando chegou a outra bolha. Aproximando-se com leve aceleração crescente, colidiu com certa força contra a bolha dos pãezinhos, de tal forma que ambas se espremeram e se espremeram até virarem uma só. E então, os pãezinhos começaram a tremer, e girar, e ir pra frente, e pra trás, ainda mais rápido. Misteriosamente, pedaços de seus cabelos passaram a se soltar, primeiro aos poucos, e depois cada vez mais, por ação de um cabelereiro invisível sofrendo de surto psicótico. Um dos pães parou de se mover. Os outros se chocavam contra ele, contra as paredes da bolha. Outro fica quieto. Mais um. E outro.

Bravamente, o último pãozinho se mexe como maluco, mas sem seus cabelos, seu movimento é um tanto browniano, errático. Não há esperança pra ele, e ninguém lhe pode ajudar. Finalmente, fica quieto. Partes suas e dos outros pãezinhos passam a se soltar, cortados por peixeiras invisíveis. Depois de um tempo, o que há no lugar daquela antiga bolha-rave, é uma quieta bolha cheia de migalhas flutuantes.

Partindo de sua superfície, pequenas outras bolhas passaram a se formar e se ligar ao sistema de trilhos do interior da Esfera, de onde eram transportadas para várias outras estações, por assim dizer.

A bolha foi ficando, por isso mesmo, menor – bem menor, e opaca, pois as migalhas iam ficando mais perto umas das outras, mais concentradas. Do trilho que estava perto dela, chegou um veículo para leva-la dali. Ele anda rápido e tem uma aparência curiosa: duas pernas sem corpo. Preso à bolha, porém, parece uma figura humanóide sem braços com pernas. Andando, um passinho atrás do outro, à moda de office boy da Avenida Paulista, fica sempre em cima do trilho levando a Bolha em direção à superfície.

Chegando lá, fundem-se às bolinhas de gude (pois todas as bolhas são também feitas de bolinhas de gude) lentamente, murchando, murchando, abrindo um buraco por onde os diabólicos pontinhos luminosos entram e as migalhas saem. Sem aviso, o buraco fecha e a superfície volta a ser de bolinhas de gude, Portais e ocasionais pontinhos luminosos.

Seria intrigante se houvesse um sistema nervoso para ficar intrigado, mas tudo ficou ainda mais apertado por um tempo, para depois ficar bem menos apertado. E aparentemente, um pouco maior.

Anúncios