por Daniel Ruy Pereira

Quais são as três músicas mais importantes da sua vida?

Eu não gosto de perguntas desse tipo porque são horríveis de responder; geralmente ficamos pensando bastante em quais músicas antes de dize-las. O que é bem compreensível, aliás. Afinal, se você disser “É o tchan”, “Bonde do tigrão” e “Gangsta’s Paradise” vai deixar uma impressão bem diferente daquela de “O Messias”, “Lacrimosa” e “The breaking of the Fellowship”.

Por isso, resolvi responder com as três primeiras músicas que aparecessem na minha mente. Desse modo, ao invés de explicar porque gosto delas, talvez elas me expliquem porque eu continuo gostando delas depois de décadas. Assim, tenho a resposta, nessa ordem. 1. “Rose Colored Stained Glass Windows” (Petra), 2. “5:50am” (Resgate), 3. “For Annie” (Petra). E descobri que elas estão misteriosamente relacionadas ao meu modo de pensar. Agora vem: “Por quê?”

“Olhando através de vitrais rosados”

Essa letra (1), de Bob Hartman, é um murro na cara. Difícil achar uma música cristã produzida nos últimos 10 anos que possa ser rotulada assim. Se você não conhece o mercado fonográfico cristão, saiba que a imensa maioria das canções são basicamente canções que servem para te fazer sentir bem. Você ouve músicas sobre o amor de (um) Deus (hippie), o ato de pessoas cantarem juntas na igreja, sobre seus sonhos (e os de Deus, numa antropomorfização bem bobinha) e seu bem-estar, mas é bem raro uma que fala do egoísmo canceroso das igrejas e, como efeito (e causa, num círculo vicioso), da maioria dos seus membros. Uma igreja – ou “a” Igreja (2) não é construída, ou organizada, para ser uma comunidade auto-protetota. Ser e fazer parte da Igreja é uma atividade de risco. Significa que você deve se doar, às vezes visivelmente vulnerável e falível, por completo. Se doar ao diferente, ao perigoso, e até ao inimigo. As igrejas brasileiras, de um modo geral, definitivamente fazem o oposto, se doando por completo ao igual, ao seguro e ao amigo. Elas estão tentando ficar a salvo, seguras, envolvidas em suas deliciosas atividades “espirituais”.

Eu diria até mesmo que a própria atividade evangelística das igrejas tem mais a ver com o sentimento de utilitarismo e bem-estar que a acompanha que com o genuíno amor pelos não-cristãos, porque se os amássemos, não tentaríamos arrasta-los para o ambiente hostil que existe dentro da igreja brasileira – de julgamento, monasticismo e segregação – sem antes consertar esse ambiente interno, ou pelo menos torna-lo o menos hostil possível.

Ora, convenhamos, qual é utilidade prática de ir às ruas com um panfletinho, entrega-lo a um desconhecido e dizer “Jesus te ama”? E daí? Porque eu deveria me importar com Jesus? Se ele me ama, por que minha vida é um inferno? Se ele me ama, por não me mostra o que eu estou fazendo com a minha vida? Por que ele não me faz feliz? Você não responde essas perguntas sem dar tempo; sem, no mínimo, tomar um café ou um sorvete com o desconhecido. O panfleto certamente não faz isso, caso você não tenha notado.

Mas esse comportamento E.T. da cristandade brasileira tem explicação. Tem muito a ver com a minha segunda música predileta.

“Abro os olhos sob o mesmo teto todo dia; tudo outra vez…”

Se você não é cristão, essa canção do Zé Bruno (3) te ajuda a se colocar na nossa pele – a pele de um típico cristão, de qualquer classe social. A gente acorda cedo, todo dia, pra ir trabalhar em empregos que dificilmente são o emprego dos sonhos. O tempo vai passando e continuamos… bem, indo. O que nos sustenta, nos move, nos serve como força motriz é o constante pensamento (e esperança) de que aquilo tem um propósito e que, se é preciso passar por qualquer coisa a fim de conhecer melhor a Deus e melhorar nosso relacionamento com ele, encaramos qualquer coisa. Então que venha qualquer coisa, que eu vou.

Pensamos diariamente em Cristo em termos de sua utilidade para o aparente nihilismo do dia-a-dia. Mais que uma divindade, Cristo se torna, pra nós, um companheiro, um amigo. Daí um dos nomes mais fabulosos de Jesus: Emanuel, o Deus conosco. Quem não quer isso? Pensar que o grito irritado e sem motivo do chefe seria um jeito de Deus mostrar seu amor e disciplina (Deus trabalha por meios misteriosos…)? Que o ônibus lotado vai me ser útil para valorizar um futuro sei-lá-o-quê? Que o fato de muito provavelmente ninguém saber quem eu sou pelos próximos 5 a 250 anos em diante a não ser aqueles que me cercam não importa e que, por isso, meu trabalho aparentemente insignificante é uma forma de agradar e servir a Deus neste Pálido Ponto Azul?

Bem-vindo ao modo de pensar de um cristão. Eu penso nisso todo santo dia e a realidade de Cristo de fato de impulsiona pra mais uma rotação planetária. Nele, minhas ambições, sonhos, fracassos e buscas encontram propósito simples e claro. Por isso, ir à igreja no domingo é um ato que se veste de importância. É meu ponto de contato com meu futuro, com minha antecipação pelo porvir, onde todas as perguntas encontrarão suas respostas, como se fossem amigos que não se veem há anos. Mas também é minha forma de resignificar o presente. A música que vai me acalmar e me elevar; a oração que diferencia e une meu pensamento da e com a conversa com Deus; a oferta em dinheiro que vai ajudar alguém em necessidade; o sermão que vai me ajudar a viver um novo princípio da vida cristã pelos próximos seis dias, e a de ter novas hipóteses para novas perguntas tentativamente nihilistas. O culto é um momento completo, que fecha uma semana e abre uma nova. Por isso faz falta quando o cristão não vai à igreja.

E então ele corre o risco de ficar trancado numa armadilha, que o levará a ser o personagem odioso da primeira canção do Petra que citei acima. E que pode levar a cenários infernais para ele, seus amigos, familiares e outras pessoas.

“Não é tarde demais para Annie; ela pode estar perto de você

“Ninguém percebeu que Annie chorava”. (4) E ninguém percebeu porque ninguém lhe estava prestando atenção. Sua mãe tinha suas reuniões (possivelmente do grupo de senhoras, grupo de jovens, grupo de louvor, evangelismo e escola dominical), seu pai tinha sua carreira, e Annie estava só. Ela e o frasco de pílulas. “O remédio que cura vira o veneno que mata” – um dos versos mais geniais que Bob Hartman já escreveu.

Quando se está só um grito é desespero
Sussurro é loucura, o estalo mete medo
E a mão forte aparece e está sempre nos sonhos –
Eternos pesadelos quando se está só (5)

Se a Igreja saísse, de verdade, se doando, sendo o que Cristo quer que sua Noiva seja, pessoas não se sentiriam sozinhas. E não buscariam a companhia de frascos de pílulas.

John Piper (6) diz que quem se suicida o faz porque quer ser feliz e evitar dor. Na lógica trágica do suicida, seu sofrimento é tamanho que seu final literal só pode ser feliz. Pode ser uma conclusão lógica coerente, mas é fechada feito casa sem janela. Porque pode, sim, existir propósito e conforto para o sofrimento, um fim definitivo, e um futuro onde ele é memória do passado. Tem um jeito de se sentir não só percebido, mas amado por alguém que não trai e não falha, não nos usa nem se livra de nós e que, de quebra, abre janelas na nossa casa. Estar nele (como um artigo valioso dentro de um baú) e com ele é felicidade e sua alegria nos fortalece.

O nome disso é cristianismo.

Mas por que esse tal cristianismo não está lá fora, conversando com Annies ao invés de estar olhando pro lado de fora dos vitrais rosados?

Porque os cristãos que abrem os olhos sob o mesmo teto todo dia só querem estar do lado de dentro dos vitrais ao invés de conversar com as Annies. Se esqueceram que, como dizia meu querido pastor Adalto Beltrão, “o culto não acaba aqui.”

A vida cristã é uma vida humilde. Um modo de viver simples e arriscado. Compartilhar a mensagem cristã é algo muito maior que jargões, panfletos e músicas. Enquanto as igrejas se preocuparem com regulações, com não ouvirem “música do mundo”, com votarem em “políticos evangélicos” e com “filmes cristãos” invariavelmente vão criar monges, quando o planeta precisa mesmo é de bons cristãos que escrevam melhores músicas, como essas nesse texto, que melhorarão e potencialmente farão mais cristãos, que escreverão melhores músicas e assim por diante.

Existe algo lindo e denso:
o poder de um milhão de almas humanas
Se juntando como uma coisa só
E cada um, por sua vez, guiando
Outros por meio de suas palavras, seu amor, suas obras

Agora o círculo se completa:
Ele volta para o Único
Pois foi Ele, e só Ele,
Quem viveu a única vida perfeita que conhecemos

Para que o mundo saiba a verdade
Não pode haver prova maior
Que vivermos a vida,
Que vivermos a vida. (7)

Referências e notas

(1) Bob Hartman, Rose Colored Stain Glass Windows. In: More Power to Ya, 1982. Este álbum inteiro, aliás, é assombrosamente e escandalosamente bom.

(2) Faço uma diferença entre Igreja com “i” maiúsculo e igreja com “i” minúsculo. Igreja com i maiúsculo é muito maior que igreja, porque igreja é um lugar pequeno ou grande, mas ainda pequeno, conhecido por um nome de denominação religiosa, enquanto que Igreja é o Corpo Místico de Cristo, a união de todos os cristãos, que não recebe o nome de uma denominação religiosa. Ambos tem espaço no cristianismo, mas eu não me importaria tanto com as igrejas, como eu me importo com a Igreja.

(3) Zé Bruno, 5:50am. In: On the Rock, 1995. Aqui também tem “Doutores da Lei”, “Palavras” e “Tempo”, o que torna este álbum obrigatório.

(4) Bob Hartman, For Annie. In: Never Say Die, 1981.

(5) Sérgio Pimenta, Quando se Está Só. In: Som do Céu e MPC, Pimenta do Reino, 2005. Sérgio Pimenta é, facilmente, um dos maiores compositores brasileiros, cristãos ou não, da segunda metade do século XX, e esse álbum tributo a ele é uma preciosidade.

(6) John Piper, The Joyful Purpose of God. Sermão em http://www.desiringgod.org/sermons/the-joyful-purpose-of-god, 1989.

(7) Brent Bourgeois e Kathy Troccoli, Live the Life. In: Michael W. Smith, Live the Life, 1998. Outro álbum sensacional esse.

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