por Daniel Ruy Pereira

Imagine-se nadando no oceano, bem lá nas profundezas. A luz não chega. É frio. É esmagador. Agora, pense que você consegue suprimir todas as sensações. Se a luz chega ou não, não faz mais diferença; “frio”, agora, é um conceito que você nunca aprendeu nem vai aprender, a não ser para se movimentar: quanto mais frio, menos você se mexe (okay, já é assim normalmente, pelo menos comigo). Pressão você experimenta (não “sente”). Pense ser algo único, pense ser amoral, afônico, apático, a-tudo.

Agora sim você entende ela. Porque é assim que ela está no mundo. Pra você pode ser deprimente, mas se for, é porque você ainda não entendeu. Ela gosta disso? Não. E nem desgosta. Ela apenas vai com quem for. Se for. Senão, só fica indo e voltando. Sempre puxada. Sempre puxando. Geralmente com Iguais. Frequentemente com os atrativos Diferentes. Seja como for, é um mundo bem movimentado aqui. E, aqui, pelo menos chega luz. Não que se possa “ver”, veja bem. Mas se se pudesse, o que se veria?

A imensa, titânica, Esfera.

A essa distância, a Esfera é um planeta. Quer dizer, em comparação, sabe? Grande pra caramba. E a superfície é móvel, feito as tempestades de Júpter, indo em diversas direções diferentes e sempre móvel. Seria também como o sonho de um garoto: uma superfície planetária feita inteirinha de bolinhas de gude. Elas estão o tempo todo juntas, se batendo, se chocando, trocando de lugar, mas sempre na superfície. (Pense que você está no teto do metrô de São Paulo olhando pra baixo, pras cabeças dos passageiros. Pronto.) De muitas das bolinhas, saem árvores retorcidas, formas gigantescas que se avolumam sobre a superfície como um jardim de raios durante uma tempestade, sempre se movendo, sempre trocando de lugar. Num estado perpétuo de fluência – o estado preferido dos patinhos de borracha.

E os Portais, claro. Estão lá. Abrindo, fechando, indo de um lugar para outro. Tudo se mexendo, tudo indo daqui pra lá, voltando, indo pra cima, pra baixo, mas nunca, nem eles, nem nada, indo pra dentro nem pra fora. Na Esfera era proibido entrar ou sair da superfície do planeta a não ser pelos Portais. (Geralmente os passageiros no metrô nunca vão pular e tentar sair pelo teto ou pelo chão, só pelas portas… se bem que a hora do rush é um tipo de pandemônio que sempre pode evoluir, então vai saber o que o futuro reserva pros pobres passageiros.)

Ela, por exemplo. Toda vez que chegava a encostar na superfície, era repelida. Ela encostava nas bolinhas de gude (que, a essa distância, tinham o tamanho de balões atmosféricos) só para se afastar. Se não fosse a Força somada ao hábito das Iguais de puxar umas às outras, ela ficaria se batendo na “parede” pra sempre. Mas sempre, de um jeito ou de outro, ela se afastava dali ao ponto de poder ficar à distante sombra da Esfera em toda a sua magnitude.

A Esfera, então, se move, devagar, mas se move. Imperceptível. E já não é uma Esfera. Mudou de forma. Agora é sem forma. Não é mais uma esfera, mas ainda é toda-móvel. Toda fluida. Como um imenso planeta feito de um mosaico florestal denso. E fluido.

E as Iguais todas se movem. Como sempre.

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