por Daniel Ruy Pereira

Estava escuro no lugar de sempre. Havia um tempo que ela já estava ali, mas também havia um quê de mistério que ela não podia identificar. A esmo, mesmo entre milhares, estava individualmente sozinha. Seus dois membros não podiam se mexer, porém. Estavam atracados a ela, como gemas se atracam à rocha; a tentativa de extração provocaria sua aniquilação completa. Ali, porém, estava a salvo disso.

Estava perene quando a estranha Força começou. Quase doentia, porque inescapável. Ela não podia lutar contra aquilo. Iria junto. Também, pudera! Tudo começou com o aparecimento (não dava pra saber de onde) daqueles indivíduos diferentes. Eles chegaram, aos montes mas nem tanto, de uma vez. Vindos de cima, ou do lado, ou de baixo. Não dava pra saber. Eram alienígenas ali. Completamente… Diferentes. Múltiplos membros atracados, muita tentativa de interação com aquelas iguais a ela. Ela, contudo, estava bem, obrigado. Não carecia interagir, não.

E com isso, trouxeram mais iguais a ela. Vieram dos Portais. (Porque havia múltiplos portais. Eles abriam periodicamente, e fechavam também. Por eles, passavam muitos Outros. As Iguais – grupo ao qual ela pertencia, óbvio – iam e vinham sempre. Em números sempre constantes. Era muito raro que as Iguais saíssem aos bocados, ou entrassem, aliás. Era um trânsito frequente em velocidade de cansaço.

Não hoje, porém. Quando os Diferentes chegaram (provavelmente de outros Portais já fechados) tudo mudou. As Iguais eram impiedosamente atraídas por eles. E iam; e, como formigas em torno de sua rainha, desesperadamente se atracavam a eles, trocando… coisas.

Pervertidas.

(Verdade seja dita, ela também estava atraída ao ponto do desespero, mas tantas outras estavam no caminho que ela não conseguia chegar lá.)

E, como sempre, boiava. Individualmente sozinha.

Foi quando começou. A Força! Como era intensa! era impossível saber por quê ou o quê a puxava. E os Portais? Todos se abriram. Não. Se escancararam em todo o seu diâmetro. E as Iguais saíam por eles como estouro de boiada. Os Portais ficavam cada vez maiores, e cada vez mais próximos. Os Diferentes se amontoavam uns sobre os outros, horrivelmente. Pateticamente. Sem nenhuma esperança, a Força a puxou, ou melhor, a arrancou de seu posto e a arrastava para o Portal. Não adiantava lutar. Ela nem podia. Foi indo.

Ao se aproximar de lá, podia vê-los, ou melhor, percebê-los, porque aqueles minúsculos pontinhos brilhantes, que vez por outra apareciam durante a abertura de um Portal,  eram rápidos como o diabo fugindo da cruz. Dessa vez, porém, cada vez mais deles chegavam sem parar, enquanto ela chegava ao Portal. Ou o Portal chegava até ela?

Os pontinhos, agora, cachoeiravam pelos Portais, formando, à distância, feixes como de trigo, mas luminosos. Uns vermelhos, outros azuis, verdes, de outras cores. Lindos, mas ela era incapaz de prestar atenção a isso. O Portal escancarado quase implorando para abrir além de sua capacidade, chegava. Enquanto ela apanhava de pontinhos luminosos rápidos como o diabo que foge da cruz, rodopiava em torno de si mesma, enquanto a Força a puxava.

E então, abruptamente, ela parou, junto com outras Iguais. Era bem mais espaçoso agora. A Força cessara. E ela não fazia ideia de qual distância percorrera; não tinha como saber se era grande ou não. Mas era. E, enquanto ela voltava a ser o que sempre foi e fazer o que sempre fez, nessa nova calmaria, se alguém pudesse ver o que acontecia veria, entre as Iguais, Diferentes, em quantidades vertiginosamente maiores que aquelas outrora existentes dentro da Esfera.

Esfera essa, aliás, que jazia amorfa, como balão murcho, próximo a um Imenso Monte de Diferentes onde não havia Iguais.

Anúncios