Exercício de escrita criativa. Tinha que escrever alguma coisa sem pensar por 20 minutos. Deixar fluir. Deixei e saiu esse texto, que eu revisei brevemente, mas até gostei.


por Daniel Ruy Pereira

Naquele dia ele acordou, como sempre acordara, pronto para ir para a escola. Ele era professor, logicamente. Pensava que tudo o que deveria fazer era ensinar. Biologia era sua praia, seu negócio, sua paixão. Ele era o tipo de professor que gostava de ensinar porque gostava de aprender, e gostava de aprender porque gostava de ensinar.

A aula era aquela fatídica. Evolução. E ele estaria lá. Quem? Aquele aluno. Aquele lá. O garoto cristão. Não que ele não fosse cristão também. Ele era. Mas o garoto era cristão daqueles exagerados, fanáticos. A pronúncia do nome “Darwin” era devolvida com “discordo”. A menção do termo “evolução” derivava uma série de outras tristes convoluções como aquelas do intestino delgado. Era triste o fato de que o garoto nem sequer sabia quem ou porque Darwin fizera o que fez e o que fariam com quem o desfizesse se isso chegasse a ser feito.

A coisa era bem complicada.

Estaciona o carro. Desce. Sobe a escada. Volta pelo corredor. Armário. Avental, giz, apagador. Livros. Tudo pronto? Vamos. Opa! A lista de presença. Ele sempre fazia isso. Essa história de burocracia sempre o cansava um pouco. Mas precisava, fazer o que?

E lá vai ele. Bravo. Forte. Como precisava ser numa hora dessas. Anos de leitura, estudo, reflexão, eram desprezados por 30 alunos que conversavam sobre o futebol do domingo, ou sobre problemas nas redes sociais, ou sobre problemas nas redes sociais que envolviam o futebol de domingo. Mas era assim. Outro dia indecente na vida de um docente decente. Entra na sala. E o pandemônio está instalado. Chegasse um pouco mais tarde, poderia encontrar o próprio Satanás sendo ameaçado pelos alunos e pedindo um professor substituto.

Livros na mesa. “Ô pessoal”. Foi bem. A resposta foi positiva. Positivamente desconcertante. “Ôôô, pessoal. Olha pra mim aqui.” Nada. Pedagogia do amor uma pinóia. Paulo Freire que se dane. “Ô PESSOAL. CHEGUEI Ó. VAMOS ABRIR O LIVRO NA PÁGINA 334. E CADA UM NO SEU LUGAR. Ô você… garota… Julia, isso. Senta aí, por favor?”

No canto esquerdo da lousa, escreve o título. “Teoria da evolução”. Faz o sketch do rosto do grande Darwin com o giz. É claro, a barba. (Pena que ele não tinha uma daquele tamanho. Aliás, de nenhum tamanho. Genética estúpida, hein, mãe?)

E a explicação começa.

“Professor.”

Mas já?

“Professor. Eu não concordo com essa aula aí não.”

Ai, ai… Por quê, José Paulo?

“A gente devia ter aula de criacionismo aqui, porque evolução é mentira das bravas.”

Quem te isso isso, rapaz?

“O pastor da igreja. Falou que a gente não pode deixar isso entrar na cabeça professor. Isso é ruim.”

Só podia ser coisa do demônio mesmo. O pastor queria ditar o que ele – o professor de Biologia, 4 anos de faculdade, 4 anos de experiência, trocentos livros lidos – deveria lecionar.

Bem, José Paulo, você querendo ou não, eu vou te ensinar isso. Porque você precisa aprender. Faz parte do mundo. Olhe para  o mundo em que você vive. Olhe para o jogos de video game, para os filmes, para os seriados de TV, para a sala de aula. A teoria da evolução, acredite você nela ou não, é vital para o conhecimento do mundo moderno. É herança cultural da humanidade. Daqui há 200 anos, mesmo que a teoria da evolução seja desacreditada e provada errado (o que acontece com frequência na comunidade científica), ela ainda será não apenas mencionada, mas discutida e respeitada como algo que fez com que a humanidade saísse de uma fase intelectual e chegasse em outra – foi ela, inclusive, que permitiu o surgimento do criacionismo. Poderia até dizer que ela é o Doutor Frankenstein que criou seu Monstro.

“Professor: o Monstro não mata o Doutor Frankenstein?”

Não, José. Não mata. Mas o Monstro faz pensar em quem é Frankenstein, o Doutor. O Monstro cresce. O Monstro se desenvolve e, ele próprio, evolui como pessoa. De monstro a pessoa. Daqui há 200 anos poderemos, como humanidade, falar desse processo também. Mas duvido que vamos estar falando do seu pastor, José Paulo.

“Eu também, professor. Concordo. Mas eu tenho minha crença e você a sua, Professor. Eu não quero aprender algo contrário à minha crença.”

José Paulo, você não faz ideia do que está falando. É isso o que faz a gente ser a gente. Aprender com o outro. Ser distinto ouvindo o diferente. Nisso eu consigo mesmo acreditar.

Diferentemente do assunto que leciono hoje.

Eu entendo muito bem. Acreditar é diferente.

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