por Daniel Ruy Pereira

O ano letivo começa. Estudantes no auge dos seus 14 anos chegam à sala de aula ultra-animados como sempre, mas algo é diferente. Eles estão agora no Ensino Médio. Aqui não é lugar de criança – o que evidentemente ninguém nessa sala é mais. Aquela criança do ano passado cresceu, opa. Agora a escola é coisa séria.

(Um estojo preto descreve uma parábola em direção paralela à lousa, seguido de um tênis.)

Entra o professor de Biologia. Veja bem, não é o professor de “ciências” – que é coisa de criança. No Ensino Médio, a disciplina cresceu e se transformou em Biologia, Física e Química. Coisa de gente grande é óbvio, como cada um dos presentes.

E, assim que começam a ouvir exemplos do que vão estudar (se o professor, no mínimo, gostar do que faz), outro estojo voa pela sala e os alunos retomam o pandemônio. Contudo, o professor herculeamente fala mais alto. E então vem aquela fatídica pergunta:

“Ah, Professor, pra que eu vou usar isso?”

O professor suspira. De fato, mais um ano começou.

O que é Biologia

O ser humano, ou melhor, a espécie humana, adora fazer coisas. Como essa espécie é representada por vários tipos diferentes de indivíduos, é interessante notar que a espécie faz várias coisas diferentes. Alguns dos seus representantes adoram conversar, por exemplo; outros gostam de praticar esporte (uma atividade que também é composta de várias outras coisas, e há indivíduos interessados em cada uma delas); outros preferem (com muito mais razão que os outros) jogar videogame. E por aí vai.

As coisas pelas quais a espécie humana se interessa foram mudando com a história (ainda que nem sempre com melhoria, devemos dizer), mas algo sempre permaneceu igual: um conceito místico cada vez mais carente nos nossos dias, chamado “curiosidade”. Podemos definir curiosidade como o maravilhamento humano diante de algo que lhe faz divagar rumo ao esotérico. Em outras palavras, é a vontade de saber por que tal coisa acontece ou é do jeito que é.

Evidentemente, uma macieira. Imagem de Feikje Meeuwsen (freeimages.com).
Evidentemente, uma macieira. Imagem de Feikje Meeuwsen (freeimages.com).

O que é essa coisa marrom com pequenas partes verdes que se estende do chão e chamamos “árvore”? Como ela chegou aqui sem andar? Por que ela produz coisas vermelhas e deliciosas que chamamos “maçãs”? E por que antes das maçãs havia flores que sumiram? Por que as maçãs caem (pergunta que os físicos particularmente adoram)? O que são essas coisas pretinhas, que chamamos “sementes”, dentro da maçã? Será que elas tem algo a ver com o aparecimento da árvore, uma vez que ela cai no chão, de onde a árvore surge? Hummm…

Essas perguntas, perceba, são relativamente fáceis de serem respondidas, desde que façamos certos testes, como plantar as sementes no chão e ver o que acontece daí. O fato de obervarmos, perguntarmos e testarmos a fim de concluirmos algo caracteriza essa forma de curiosidade como “Ciência”. Mas existem outras formas de curiosidade tão boas e válidas quanto essa, okay sabichão?

Ora, existem vários tipos de Ciência. Porém, cada uma delas se aproxima do mesmo fenômeno (a “árvore”, no caso) fazendo perguntas diferentes. Leia a tabela abaixo:

  BIOLOGIA FÍSICA QUÍMICA HISTÓRIA SOCIOLOGIA FILOSOFIA
PERGUNTA 1 O que é essa coisa marrom com pequenas partes verdes que se estende do chão e chamamos “árvore”? Por que eu enxergo essa coisa marrom e verde, e não amarela e laranja? Do que são feitas as partes marrons e as partes verdes dessa coisa? Quando colocaram essa árvore aqui? Por que colocaram essa árvore aqui se não há ninguém para colher? Hummm…
PERGUNTA 2 Como ela chegou aqui sem andar? Por que ela não sai voando? Do que é feita a água que ela absorve? O que significa essa marca “A+E sempre” no tronco? A+E têm recebido atenção governamental? Hummmmmm…
PERGUNTA 3 Por que ela produz coisas vermelhas e deliciosas que chamamos “maçãs”? Qual é a velocidade do crescimento da maçã? O que faz a maçã ser deliciosa? Quem comeu a maçã primeiro? A ou E? “E” teria comido por estar sendo oprimida ou abandonada por “A”? Não, peraí…
PERGUNTA 4 Por que as maçãs caem? Por que as maçãs caem? Por que as maçãs caem? Por que a maçã caiu? A queda no preço da maçã provoca mudanças sociais? Humm…
PERGUNTA 5 As sementes tem algo a ver com o aparecimento das árvores? Por que as maçãs caem? Do que é feita a a semente, a árvore e o solo? Afinal quem fez a árvore? Assim, a macieira seria um símbolo de liberdade ou escravidão? Hummmmmm…
 PERGUNTA 6 Estaria a árvore viva? Ei, isso é mesmo grave… Ei… A vida também seria feita de coisas menores? Hummm… Hummm… O que é uma árvore?

As três primeiras ciências, Biologia, Física e Química, têm algo em comum que as outras não têm: a possibilidade de teste prático. Elas usam um método para tentar explicar fenômenos naturais, não sociológicos nem psicológicos ou históricos (que são fenômenos essencialmente humanos). Não por acaso, essas ciências são chamadas de “Ciências Naturais”. As outras também são ciências, mas diferentes. Entendeu? Iguais, mais diferentes. Ha!

Mas perceba que as perguntas que a Biologia faz têm mais a ver com as coisas vivas. Foi isso o que levou um dos biólogos mais importantes do século XX, chamado Ernst Mayr, a chamar a Biologia de a “Ciência do Mundo Vivo”. Ou seja, se algo for vivo é a Biologia que vai estudar. Se algo não for vivo, mas se relacionar de modo importante com algum ser vivo, a Biologia também vai estudar, porque está interessada em saber porque aquele ser vivo se relaciona com isso. Se não for vivo nem se relacionar com nada vivo, não é problema meu e quero que se exploda. (É claro que exagerei de propósito, caso você não tenha entendido.)

E agora aquela parte que você já sabe. Biologia é uma palavra inventada a partir de outras duas palavras gregas: “bios”, que traduzimos como “vida” e “logos”, que aportuguesamos para “logia” e traduzimos como “estudo”. Um mais um é igual a…? Isso mesmo: “estudo da vida”.

Pra que serve a Biologia?

A Biologia serve para muito mais que te livrar de recuperação ou repetência no fim do ano. (Na verdade, pra isso ela não serve.) Além de mostrar como os seres vivos se relacionam, pode explicar por que o desmatamento da Amazônia provoca uma seca em São Paulo. Também serve para mostrar que o ser humano, embora goste de pensar que vive sozinho no planeta Terra, divide o espaço e se relaciona, para bem ou para mal, com inúmeros outros organismos, que dependem dele e dos quais ele depende, direta e indiretamente.

A Biologia serve pra te explicar porque sua mãe manda você tomar Yakut e que raios são os tais “lactobacilos vivos” – sem os quais, aliás, nós não vivemos. Mas vou ser mais objetivo agora.

A Biologia pode salvar tua vida. Se você souber o que é e o que faz um cisticerco, vai lembrar de cozinhar bem a carne de porco. Sempre. Também não vai andar descalço em rio, porque vai saber que pode pegar esquistossomose e nem deixar acumular água parada, porque pode pegar dengue. Isso sem falar nas doenças sexualmente transmissíveis…

A Biologia pode melhorar tua vida. Aprendendo o que existe nas coisas que você come, a Biologia (junto com a Química) pode te ensinar como se alimentar direito e não sofrer de hemorróidas. Acredite, você quer se livrar disso.

A Biologia pode melhorar e salvar a vida do teu cãozinho ou gatinho ou periquitinho ou peixinho ou florzinha. Se você entender porque esses organismos se comportam do jeito que se comportam e como funcionam, vai cuidar bem melhor deles e não matar seu peixinho tentando ensina-lo a respirar fora da água.

Pra que você vai usar a Biologia então, estudante?

A Biologia, como você pode ver, é uma das coisas mais úteis pelas quais o ser humano já se interessou. Como resultado, produzimos muitas coisas boas através delas: sacolas biodegradáveis, insulina artificial, melhores medicamentos (okay, Química, você vem primeiro nessa), o tratamento para diversas parasitoses como malária, leishmaniose e doença de Chagas; melhorou as chances de sobrevivência de astronautas no espaço, ajudou a produzir o biocombustível dos carros que você vai dirigir um dia (possivelmente); ajudou no desenvolvimento das mais de 200 raças de cães hoje existentes; produziu uma das teorias mais polêmicas e discutidas da história (a teoria da evolução), que influenciou inúmeras outras pesquisas relevantes para o dia-a-dia, como a produção daqueles suplementos de proteínas que as pessoas tomam nas academias. Aliás, esse é um dos pontos mais fortes de se aprender Biologia: saber o que se está fazendo na academia e não tomar coisas estúpidas que vão engrossar músculos, possivelmente prejudicar o pênis e prejudicar a saúde (além de possivelmente prejudicar o pênis). Quando se sabe o que é um sarcômero todo exercício de musculação faz mais sentido (e isso possivelmente não prejudica o pênis).

Resumindo: você vai usar a Biologia pra ter uma um corpo e uma mente melhores. É burrice grande ter a chance de aprender Biologia e não o fazer. Se o problema são os nomes difíceis, pense em quanto nos esforçamos para entender os termos: “multiplayer“, “camper“, “HD de 500 giga” e “anticoncepcional”. Quando a coisa é boa, os nomes difíceis não importam.

A única coisa para a qual a Biologia não serve é pra passar no vestibular que, aliás, é algo pelo qual seres humanos geralmente não precisam ter muita curiosidade.

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