REMIX é uma 2ed. de textos antigos do blog. A princípio, eu queria deixa-los como estavam, mas eu e meu estilo mudamos tanto desde 2008 que eu realmente precisava fazer isso, ou iria parecer que existem dois escritores neste blog. Não só atualizo o estilo, porém; pode ser que eu mude tudo, menos a ideia inicial – por isso o “remix”.


por Daniel Ruy Pereira

(Publicado originalmente em 7 de abril de 2008)

Eu já vou começar dizendo que eu sou positiva e energicamente contra a pesquisa com células-tronco embrionárias.

(Se você está lendo este segundo parágrafo, parabéns, pode ser que você tenha um cérebro que goste de se engajar em discussões e saber qual é o ponto de vista da outra pessoa. Para isso, continue por favor.)

É impossível fazer a pergunta-título sem esperar uma intrusão ideológica em ambos os lados do debate. Eu mesmo sou contra por causa de minha cosmovisão cristã. Embora eu não pare de me maravilhar com os métodos, benefícios e técnicas que os cientistas usam para investigar a natureza, não endosso que a Ciência seja onipotente. Ela já nos deu avanços médicos e tecnológicos importantíssimos, e eu sou grato por poder viver em uma época tão rica em benefícios científicos. Mas isso não me compra não,  Sra. Ciência. Saiba os seus limites.

Seria até legal seguir com a Ciência toda a vida (humm…). Mas essa estrada cruza a Ética, e é preciso parar no farol e refletir, porque a Ciência não pode tudo e tudo não pode, como concluímos depois de 1945. (1) Após certo ponto, a grande pergunta nunca foi se poderíamos construir uma bomba atômica, mas se deveríamos construi-la. Está fora de questão que temos tecnologia para construir usinas nucleares no Brasil, mas deveríamos? Temos tecnologia para extrair imensas quantidades de combustíveis fósseis nesses tempos de aquecimento global, mas deveríamos?

Quanto chegamos a este assunto, contudo, alguém pergunta: “Isso é muito bonito. Mas deveríamos fazer isso?” E outro alguém responde: “Claro! Veja os benefícios potenciais! Tratamento para X, Y e Z!” Percebe como alguém não responde o que outro alguém pergunta?

Se alguém quiser responder, aí aparece o problema de qual seria a ética na qual devemos basear a resposta à pergunta de outro alguém. Ética judaico-cristã-muçulmana (para essa questão, são parecidas)? Ética budista? Ética hindu? Ética atéia? Ética X? Ora, essa complicação é desnecessária, caro leitor, porque nós temos um texto laico em que nos basear: a Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988 (e semelhante, neste quesito, a tantas outras Constituições). O Artigo 5º da Constituição afirma que:

Art. 5o. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (…). (2, grifo meu)

Para quem se opõe à pesquisa, como eu, a sua permissão legal fere justamente este artigo, porque o embrião humano é humano. Mas alguém vai dizer:

… ter células humanas não é ser pessoa humana. Nós temos células humanas nas nossas unhas, no nosso cabelo, assim como há células humanas no embrião fecundado. (3)

Esse argumento é bem sacana. Ele trata o embrião humano como unha e cabelo, mas se você pensar vai ver que, nas condições ideais, unha e cabelo vão crescer a vida inteira e nunca vão chorar, falar “mamãe” e nem se graduar em Biologia – ao contrário do embrião.

Portanto, seria saudável definir o que é um ser humano – uma tarefa ingrata, eu sei. Se eu fosse usar uma definição inspirada em Phillip K. Dick (“Andróides Sonham Com Ovelhas Eletrônicas?” Só pelo título, o livro merece ser lido), um humano, diferentemente de um andróide, sente empatia, isto é, consegue se imaginar na mesma situação do outro e compreender sua experiência ou sentimentos (aquele maravilhoso capítulo envolvendo uma pequena aranha… Você precisa mesmo ler esse livro, caro leitor…). Mas um embrião não sente nada, porque não tem um sistema nervoso (se bem que amebas sentem presença de perigo e respondem a esse estímulo, então, vai saber…).

Ou, de acordo com o Drácula de “Castlevania: Symphony of the Night”, “O que é o homem? Uma miserável e pequena pilha de segredos!”. Nesse caso, a definição é muito abrangente, porque até o cãozinho da minha mãe é uma pequena pilha de segredos. Mas acho que você entendeu que precisamos definir o que é um ser humano. Esse definição passa obrigatoriamente por uma decisão política. Sua definição será materialista, humanista ou religiosa? Você acha que, qualquer que seja a escolha, essa escolha será baseada na Ciência ou em uma ideologia?

Vou manter a coisa o mais simples que eu puder, como se eu estivesse numa aula de Genética com os meus alunos. Um ser humano é um organismo eucarionte (com células compartimentadas) que possui 46 cromossomos específicos (uma vez que existem outros organismos com 46 cromossomos), dois pares sendo aqueles que definem o sexo do organismo (não misturar com orientação sexual, porque certamente considero homossexuais como humanos e eles cabem nessa definição que estou formulando). Claro que essa definição excluiria pessoas com mais (trissomias) ou menos (monossomias) cromossomos, de modo que podemos ampliar um pouco a definição.

Ser humano é um organismo eucarionte que possui de 45 a 47 cromossomos, contendo genes específicos, organizados em pares, dois dos quais definem o sexo do organismo. (4)

Acho que é uma boa definição. Poderíamos, em caso de novas descobertas, mudar o número de cromossomos para mais ou menos, mas não mudaríamos muito mais que isso. Um embrião humano evidentemente se encaixa nessa definição. Logo, o embrião humano é um humano. A pesquisa de célula-tronco embrionária precisa matar o embrião a fim de conseguir as células pluripotentes (5), portanto precisa matar um ser humano. Se o embrião jovem é funcional ou não, viável ou não, seria o mesmo que perguntar se um humano X com característica Y é viável ou funcional – coisa que a política nazista fez em teoria e prática, você sabe.

Poder pesquisar pode, mas deve?

Existem cristãos que apoiam a pesquisa com células-tronco embrionárias, é claro. Eles o fazem porque estão seduzidos por algo contrário ao que a Bíblia (e sua cosmovisão) ensina.

“Senhor, tu me sondas e me conheces. (…) Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são admiráveis! Digo isso com convicção. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.” (6, grifo meu)

E Jeremias ouviu o seguinte de Deus:

“A palavra do SENHOR veio a mim, dizendo: “Antes de formá-lo no ventre eu o escolhi; antes de você nascer, eu o separei e o designei profeta às nações”. (7) 

Os dois textos, em conjunto, ensinam que Deus idealiza, “tece” (um processo criativo e artístico) cada ser humano, individualmente (45 a 47 cromossomos etc – e inclusive saindo da minha definição por razões teológicas, aqueles com menos ou mais que isso e que morrem no útero). A pesquisa com célula-tronco embrionária mata esse ser humano que Deus teceu e idealizou, e que tem o direito constitucional e inviolável à vida. É simples e cruel.

Todo homícidio começa com cobiça. E é interessante pensar que o mandamento “Não matarás” aqui está sendo infringido por causa da infração de outro mandamento: “Não cobiçaras a casa do teu próximo (…) nem coisa alguma que lhe pertença.” (8). Cobiçar as células pluripotentes do teu próximo também é pecado, caro leitor.

Referências

(1) “A Ciência não nos dá informação ética.” WEINBERGER, Lael. Answering the ‘new atheists’. Creation, 30 (2), mar-mai 2008, p. 18-20.

(2) CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraDownload.do?select_action=&co_obra=18441&co_midia=2>. Acesso em 31 mar 2008.

(3) MELLO, Daniel. Especialistas em bioética defendem uso de células-tronco embrionárias. Agência Brasil, 5 mar. 2008, 6h41. Disponível em: <http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/03/04/materia.2008-03-04.0475006532/view>. Acesso em: 30 mar 2008.

(4) Se a definição, porém, for em outras esferas, tudo isso muda: o organismo é humano se não socializar? E se não pensar? E se não tiver acesso a recursos básicos? E se não conseguir emitir linguagem? E assim vai. Por isso, penso que, no debate sobre células-tronco embrionárias, se o problema é definir algo para que a Ciência (natural) possa trabalhar com ela, é bom que se escolha um definição oriunda da própria Ciência (natural)!

(5) HOLLOWEL, Kelly. Ten problems with embryonic stem cells research. Impact, 344, El Cajon: Institute for Creation Research, fev. 2002.

(7) Salmo 139:1;13-16, NVI.

(8) Jeremias 1:4-5, NVI.

(9) Êxodo 20:17, NVI.