por Daniel Ruy Pereira

[Atenção: esse artigo contém spoilers sobre o filme. Recomendo assisti-lo antes, mas a escolha, obviamente, é sua.]

Antes de eu escrever qualquer coisa sobre essa maravilhosa distopia “Brazil” (1985), de Terry Gilliam, tenha em mente que a trilha sonora desse filme é levada por “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso – mas não a brasileira. Todos os envolvidos com o filme conheciam a versão de S.K. “Bob” Russell, que é a seguinte (muito bonita a letra; eu gostei), cantada pelo Frank Sinatra.

Brasil…
O Brasil que eu conheci,
Onde passeei com você,
Vive em minha imaginação

Onde as canções são apaixonadas,
E o sorriso até brilha,
E um beijo é cheio de arte,
Porque você coloca seu coração naquilo;

Assim eu sonho com o velho Brasil
Onde os corações eram um junho divertido;
Ficamos sob um luar âmbar
E murmuramos baixinho: “algum dia, em breve”,
Nos beijamos e abraçamos.
E amanhã era um outro dia…
A manhã me encontrou há milhares de quilômetros dali
Com milhões de coisas ainda por serem ditas…

Agora, quando a luz do crepúsculo se vê no céu,
Lembrando dos nossos arrepios de amor,
De uma coisa eu tenho certeza:
Eu vou voltar
Ao velho Brasil.

Assim fica mais fácil de falar do filme sem ficar se perguntando: “O que o filme tem a ver com o Brasil? Não é porque 1985 foi o fim da ditadura militar? Não é o ano em que nasceu o autor deste blog? Que título estúpido!” Calma lá, o título não é estúpido – ao contrário. E vou explicar por quê.

Pôster de Brazil, 1985, de Terry Gilliam. Imagem wikipedia.org

Em primeiro lugar, embora a ditadura militar e seus horrores tenham terminado em 15 de março de 1985 (ano em que eu e “Super Mario Bros.” nascemos), o filme (britânico) foi produzido antes disso e lançado em 20 de fevereiro de 1985, na França. Ou seja: mesmo que possível, eu duvido muito que o filme seja uma crítica ferrenha ou sutil à ditadura militar no Brasil. Até porque os temas que o filme adota são universais e o filme fala de um futuro “em algum lugar do século XX”. Por exemplo, o uso universal dos computadores e a lentidão da burocracia, que dificulta a vida dos cidadãos, aumenta o poder dos poderosos, põe inocentes em perigo e acaba protegendo o próprio sistema (bem, isso tem tudo a ver com o meu Brasil…)

No entanto, o filme é a história de Sam Lowry, um funcionário público que trabalha “alegremente” em uma repartição pública, com ene tipos de formulários, inclusive ajudando a aliviar o trabalho “pesado” do seu chefe, e sonha repetidamente com a mulher perfeita e ideais heroicos, até que um erro de digitação completamente fortuito, em outro departamento, desencadeia uma série de eventos cuja culminação é o encontro de Sam com a tão sonhada mulher, Jill – considerada uma ameaça terrorista, um dos maiores temores daquela sociedade (como a de hoje, aliás).

Ao longo do primeiro e segundo atos, Sam vive sonhando com sua musa e cantarolando “Brazil”, o que parece alimentar e reforçar seus sonhos. Conquanto em seu sonho ele seja um super-herói com asas, armadura e espada, sempre há um obstáculo entre ele e sua musa, exatamente como na “jornada do herói” mítico (1). Eventualmente, porém, ele consegue resgata-la e ter sua tão sonhada noite de amor.

Então, a partir do terceiro ato, o filme fica fantástico e esse artigo cheio de spoilers.

Sam é capturado pelos agentes federais, Jill morre resistindo à prisão, e ele acaba preso e levado à tortura por ser considerado terrorista, numa cena fantástica com Sam preso à uma cadeira de tortura dentro de uma chaminé de resfriamento de uma usina de força. Tudo se transforma em um imenso pesadelo, que escala cruelmente até não sabermos mais o que está acontecendo, mas termina com Jill resgatando Sam e os dois vivendo felizes para sempre num cenário feliz e bucólico. Como o espectador fica feliz com esse final! Mas aí voltamos para aquela mesma cena (agora misteriosamente tocante) da cadeira de (pós) tortura, com um Sam visivelmente louco e sem esperança, cantarolando o “Brazil” de Russell. E como o espectador fica triste com o verdadeiro final do filme!

Isso sim, tem tudo a ver com o Brazil do título e de Russell, canção gravada pela primeira vez por Jimmy Dorsey em 1942 (2). Lembre-se que o mundo estava em guerra – a Segunda Mundial – e aquele ideal de um lugar pacífico, romântico e em paz, o lugar dos sonhos, a Pasárgada de Manuel Bandeira (3), o lugar onde tudo é do jeito que a gente quer, mas é platônico (só existe nos nossos sonhos) era um tema muito querido dos artistas. Pena que o sonho acaba, a realidade vem nos buscar e nos jogar nos escritórios e trabalhos onde se vão seis, oito, doze horas do dia por causa de dinheiro, guerras, hospitais, clínicas de reabilitação e outros infernos.

O Brazil do título é o sonho de Sam Lowry, a Nárnia de Lewis, o Oeste de Tolkien, o Paraíso do cristão etc. É a promessa de Jesus com a qual o cristão acorda todo santo dia:

Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver. (João 14:1-3, NVI)

O “Brazil” de Sam era, porém, inatingível. Uma hora alguém ia morrer na história, mesmo que o final da loucura de Sam (o final feliz) se concretizasse. Câncer, traficantes, corrupção, acidentes, salários baixos, falta de serviços básicos e de boas opções para a eleição, uma compulsão doentia por cirurgias plásticas e padrões de beleza… Esse é o meu Brasil, minha Irlanda, minha Itália, meu mundo.

O que garante, porém, que o Paraíso cristão seja real?

Francamente? Nada. Mas ele é o sonho que motiva a fé e a ação. E fé é algo cuja existência não carece de prova. Sam Lowry só fez de tudo para resgatar Jill porque acreditava, ou melhor, sabia que ela era a mulher do seu sonho. C. S. Lewis disse uma vez que “aqueles que mais fizeram por esse mundo foram aqueles que mais pensaram no mundo do por vir.” (5)

Meu Brazil nunca foi nem será o Brasil de hoje ou de amanhã. Meu “Brazil” é ideal; lá sou amigo do Presidente que não é corrupto e

… as canções são apaixonadas,
E o sorriso até brilha,
E um beijo é cheio de arte,
Porque você coloca seu coração naquilo

Pra lá eu quero me mudar. E vou um dia, nem que seja arrastado por Alguém.

Referências

(1) CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. 1949. Veja o conceito aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Monomito

(2) AQUARELA DO BRASIL. In: http://en.wikipedia.org/wiki/Aquarela_do_Brasil

(3) BANDEIRA, Manuel. Vou-me embora pra Pasárgada. In: http://www.releituras.com/mbandeira_pasargada.asp

(4) STEYNE, Russell. O dilema de Pascal. In: https://considereapossibilidade.wordpress.com/2009/08/28/a-aposta-de-pascal/

(5) Eu não consigo deixar de pensar que, se a intenção dos roteiristas (Terry Gilliam, Tom Stoppard e Charles McKeown) e diretor era mostrar que esse mundo ideal é impossível, existe uma falha no roteiro: Sam sonha com uma mulher que, de fato, existe e, providencialmente (uma vez que coincidência nesse caso seria um conceito simplório, de tão improvável), a encontra e sua vida passa a fazer sentido. Nesse caso, teria Deus permitido a loucura de Sam no final? Por quê? Sim (Ele já fez isso com Nabucodonosor, em Daniel 4) e não sei, mas lembremo-nos que é impossível para quem não é louco compreender ou imaginar a forma com que Deus se relaciona com quem é louco. E isso mostra simplesmente isso; nada mais.

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