por Daniel Ruy Pereira

 [SPOILERS: se você não ligar, leia até o final, senão, leia depois de terminar o jogo. Avisei, hein?]

(Esse tema dá uma vontade de chorar…)

Escrevo este artigo várias semanas após ter terminado o jogo EarthBound (1996, 2013), originalmente lançado para Super Nintendo e relançado ano passado para WiiU. Esse jogo é adorado por aqueles que, como eu, amam RPGs e ficção científica. Eu já o tinha jogado antes, há muitos anos atrás, mas quando o peguei para jogar de novo, não me lembrava de mais nada. E o jogo é maravilhoso. “Eu poderia escrever sobre essa experiência”, pensei, mesmo que alguns argumentem (por falta de pensar no assunto, é claro) que “isso é só um jogo”. Então, aqui estou, escrevendo este artigo, mas não por causa do RPG. Aliás, nem por causa da minha paixão por ficção científica. Surpreendentemente, escrevo por causa da minha mãe.

Comecei a jogar EarthBound não muito tempo depois de chegar à Irlanda com minha esposa – para, pela primeira vez em nossas vidas, viver muito longe de nossos pais. Quando nos casamos, em 2008, vivíamos muito perto de nossas famílias, e nos víamos literalmente todos os dias e todas as semanas. É muito comum acontecer isso no Brasil. Acho que acaba sendo uma extrapolação daquele sentimento, ou melhor, uma expressão do desejo de viver com aqueles que amamos para sempre. Assim, a tendência é vivermos perto uns dos outros, para que possamos ir à casa da nossa mãe durante a semana ou fins-de-semana, ver como estão nossos pais, comer um bolo e sentir aquele calor humano de novo – especialmente se enfrentamos problemas e dificuldades.

Mas um dia chega a hora de ir. Viver em outro país, a dez mil km de distância e, pela primeira vez em 5 anos de casamento, totalmente por nossa conta. Adeus, belo apartamento. Adeus carreira e emprego seguros. Olá, solidão, frustração (de novo, mas com uma cara diferente), alegrias e novidades.

É uma aventura – que faz paralelo com aquela que Ness e seus amigos experimentam em Onett e além, para salvar o mundo de Gyggas. Contudo, não temos MP para curar nossos ferimentos e, quer tenhamos sucesso ou não nas batalhas, não podemos salvar nossos pontos de experiência… Os inimigos e dificuldades do jogo poderiam inclusive ser paralelos aos da nossa vida: lutaremos com “coisas” todos os dias, faremos novos amigos e conversaremos com NPCs (Non-playable characters, ou personagens não-jogáveis, se é que você me entende) em nossas jornada; iremos a lojas comprar suprimentos para nossa aventura e conheceremos novos lugares, resolvendo problemas e vencendo inimigos metafóricos.

“Mas não se esqueça da sua mãe, okay?” Aceitamos o aviso do pai de Ness e ligamos frequentemente para a nossa mãe. Nosso pai ouve nossas histórias e guarda um registro delas até aquele ponto. E assim podemos ir em frente, não ligando muito para eles, e mais focados em nossos objetivos e “em não perder nosso senso de humor”, como ensina Mr. Saturn, durante uma xícara de café no Saturn Valley.

Até enfrentarmos nosso grande teste: Gyggas.

Naquele momento, estamos sozinhos. Nossos recursos vão embora e a única coisa que temos a fazer é orar. Encaramos a situação, com bravura. Nossos amigos nos ajudam e oram por nós também. Sabemos que não estamos sozinhos. O inimigo perde a força por causa do amor dos nossos amigos. Mesmo assim, não podemos vencê-lo. E aí pensamos, curiosamente, na nossa mãe – o que ela está fazendo?

Minha mãe e eu, respectivamente, é óbvio.
Minha mãe e eu, respectivamente, é óbvio.

Ela está muito, muito longe, em outro país. Está dando banho no nosso cãozinho e tendo boas noites de sono. Mas, como uma mãe costuma fazer, está sempre acordando de madrugada, olhando pela janela e orando por nós. Mesmo que nosso pai esteja trabalhando duro até tarde, ela está lá, sempre preocupada. Mas o que se pode fazer a respeito? Estamos aqui, jovens, em um lugar frenético com texturas psicodélicas ao redor, enfrentando nossos medos por nossa conta e diante de um poderoso inimigo que simplesmente não podemos vencer. Ela está no mundo dela, mas tomando conta de seus filhos. Não tem muita coisa que ela pode fazer, na verdade, exceto orar por nós.

E é a oração e o amor dela que nos capacitam a derrotar o inimigo. Acreditamos nisso, vamos com tudo e vencemos, finalmente. Podemos ir para casa agora. Obrigado por tudo, mãe. Você foi incrível, de verdade.

(Ah, peraí! Você não vai ficar todo emotivo agora, vai? Aliás, estou só falando de um jogo de videogame. Certo?)

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