Artigo traduzido de: Creation 20(4):10, setembro 1998. Título original: “Living for 900 years”.
Copyright Creation Ministries International Ltda. Usado com permissão.

por Carl Wieland*
Tradução Daniel Ruy Pereira
Revisão Jadson Oliveira

As expectativas de vida registradas na Bíblia, começando com os patriarcas pré-diluvianos e terminando com reis britânicos (organizados por data de nascimento). Note a pronunciada queda na expectativa de vida após o Dilúvio. Isso é evidência para algo muito dramático acontecendo na história do mundo.
As expectativas de vida registradas na Bíblia, começando com os patriarcas pré-diluvianos e terminando com reis britânicos (organizados por data de nascimento). Note a pronunciada queda na expectativa de vida após o Dilúvio. Isso é evidência para algo muito dramático acontecendo na história do mundo.

No livro de Gênesis, a Bíblia repetidamente registra expectativas de vida que parecem ser ridiculamente diferentes da nossa experiência atual. Adão viveu 930 anos; Noé viveu ainda mais, até 950 anos (veja o gráfico abaixo). Essas longas expectativas de vida não são aleatoriamente distribuídas; elas são sistematicamente maiores antes do Dilúvio de Noé, e declinam dramaticamente depois dele.

Essas longas idades não são apresentadas na Bíblia como se elas fossem algo extraordinário para seus tempos, muito menos miraculoso.

Muitas pessoas são rápidas em zombar de tais idades, afirmando que elas são “biologicamente impossíveis”. Atualmente, mesmo se evitarmos todas as doenças fatais, humanos geralmente morrerão por causa da idade antes que alcancem muito mais de 100 anos. Até mesmo os casos muito excepcionais não vão muito além dos 120 anos.

Contudo, um olhar nas evidências relacionadas ao envelhecimento sugere que o aparente limite superior na expectativa de vida média de hoje não é algo “biologicamente inevitável” tanto para humanos como para outras criaturas pluricelulares.

Doenças, dieta, “desgaste por uso” e outros fatores ambientais sem dúvida influenciam no quanto vivemos. Porém, parece agora que por baixo de tudo isso estão fatores de alguma forma escritos no nosso código genético que determinam qual é o nosso “limite superior”. Isso não é nada surpreendente; muitos de nós sabemos sobre famílias nas quais quase todo mundo vive até a fase adulta- e o contrário disso, obviamente.

E embora um “limite superior” médio pareça estar “programado” em cada espécie, experimentos de intercruzamento têm mostrado que esse limite pode ser alterado, inclusive dramaticamente. Experimentos com populações de moscas-das-frutas (Drosophila melanogaster) e vermes mostraram que uma maior longevidade pode ser obtida dentro e fora dessas populações. Assim, você pode ter duas populações da mesma mosca, com um grupo vivendo, em média, muito mais tempo que o outro. Inclusive, foi identificado um “interruptor” genético envolvido com a longevidade em uma espécie de minhoca.

Por que nos desgastamos?

Por que todas as criaturas pluricelulares (como os humanos) eventualmente se desgastam e morrem? Não é o bastante simplesmente dizer que há leis físicas que ditam que todas as estruturas físicas eventualmente se desgastarão. Isso é verdade, mas a maquinaria biológica possui uma “inteligência” incorporada (programada no DNA) que lhe fornece a habilidade de autorreparo.

É por isso que criaturas unicelulares como as bactérias não morrem de velhice – elas simplesmente se dividem em duas novas cópias, cada qual se dividindo em mais duas, e assim por diante. (Nota adicionada em Maio de 2009: Na verdade, agora existem abundantes evidências de que células unicelulares podem de fato sofrer de senescência, isto é, envelhecimento e morte, embora o fato de serem capazes de se dividir em “novas cópias” idênticas sugira que não seja algo completamente comparável. Por outro lado, o blog da Royal Society escreveu, em 27 de março de 2014, sobre criaturas pluricelulares conhecidas como Hydra: “Há certas evidências que sugerem que a hydra possui imortalidade biológica – exceto por acidentes ou negligência… eles podem se reproduzir por brotamento e não exibem senescência óbvia (envelhecimento para a morte)”. Seres como nós possuem órgãos (fígado, rins, etc) que são feitos de grandes quantidades de células individuais. Por que essas células não continuam se dividindo, reparando e renovando o órgão para sempre? Se isso fosse acontecer, com células desgastadas sendo substituídas por novas células, então nenhuma de suas “partes” se desgastaria. O que, é claro, significa que você nunca se desgastaria. Você poderia morrer por cair de uma árvore, ou morrer por causa de alguma infecção, mas nunca morreria de velhice.

É evidente que este não é o caso. Nossos órgãos individuais se desgastam. As células formadoras se multiplicam por um tempo, mas não para sempre. Após certo número de vezes, elas simplesmente param de se dividir. Sabe-se que as células humanas comuns só se dividem cerca de 80 a 90 vezes, e não mais.

Parece que há, nas extremidades de cada um dos nossos cromossomos, uma estrutura chamada telômero. Pense nele como um dispositivo contador, com um número de contas no final. Cada vez que a célula se divide, é como se uma conta fosse retirada, encurtando o telômero (veja abaixo) (1). Uma vez que todas as contas tenham sido retiradas, a divisão celular não é mais possível. De agora em diante, conforme cada célula “se desgasta”, ela não é reposta por outras mais novas. Portanto, mesmo que você evite qualquer tipo de acidente fatal ou doença, você vai eventualmente sucumbir à falência de um ou mais órgãos.

A maquinaria pela qual as células se dividem é controlada pelas instruções escritas no DNA, o código genético. Então, parece que algum limite genético pré-programado, embora não completamente responsável pelo envelhecimento, poderia muito bem representar grande parte da história. Em suma, não há razão biológica conhecida do porquê expectativas de vida de 900 anos ou mais seriam mais impossíveis se aquele limite genético fosse estabelecido em um ponto diferente.

E há razões para se pensar que poderia haver, de fato, grande variação nesse “limite superior” genético. Já vimos que simplesmente reordenar as frequências genéticas por meio de seleção sexual em moscas-da-fruta pode aumentar drasticamente sua expectativa de vida.

A verdadeira questão que surge não é “Como eles poderiam viver tanto tempo?”, mas “Por que não vivemos mais tanto tempo assim?”

O novo ambiente de Noé

Olhando para a queda nas expectativas de vida pós-diluvianas, é natural pensar que elas devem estar relacionadas às mudanças tão drásticas que o mundo acabara de sofrer. Evidências do registro fóssil sugerem que os níveis de dióxido de carbono (e possivelmente os de oxigênio) eram maiores antes do mundo pré-diluviano. Muitos sugeriram que um dossel de vapor d’água protegia o mundo pré-diluviano da radiação cósmica. Contudo, independentemente da validade dessa sugestão, há poucas evidências de que o envelhecimento seja substancialmente influenciado por quaisquer desses fatores.

A ideia de que o ambiente se tornou muito mais “tóxico” após o Dilúvio a ponto de cortar nossas expectativas de vida de aproximadamente oito séculos para um nono do que eram, tropeça em um ponto muito importante. Noé já tinha 600 anos quando ele saiu da Arca. Mas esse ambiente supostamente muito mais hostil não fez com que ele rapidamente enfraquecesse e morresse em poucas décadas. Ao invés disso, ele viveu por mais 350 anos, ultrapassando inclusive a idade de seu ancestral Adão.

Nós não sabemos se fatores ambientais puderiam, por si só, ter causado problemas na fase de desenvolvimento do ser humano. No entanto, uma explicação simples do porque de Noé ter continuado vivendo por tanto tempo é que a constituição genética de Noé foi o que deu a ele o potencial de viver por um longo tempo. E que talvez a maioria, se não todas, das pessoas antes do Dilúvio fossem programadas para expectativas de vida muito maiores que aquelas para as quais somos programados hoje em dia.

Então o que aconteceu? Lembre-se de que toda a população diminuiu para uma porção de apenas oito. Há mecanismos bem conhecidos nos quais formas de genes (conhecidos como alelos), que poderiam incluir alguma codificação para longas expectativas de vida, podem ser eliminados de uma população que passou por tal “afunilamento” (veja o box).

Outros fatores

Se tal perda genética fosse a razão para o declínio das expectativas de vida, poderia não ser a única. Mutações danosas se acumulando em altas taxas poderiam ter feito parte desse processo também. Algumas dessas mutações podem ter causado uma perda no comprimento do telômero, por exemplo. Depois do Dilúvio, a variedade de plantas disponíveis para alimentação ficou drasticamente reduzida, talvez uma razão porque Deus teria permitido ao homem comer carne a partir daquele ponto. Contudo, nem mesmo o mais ávido entusiasta por alimentação saudável poderia sugerir que, pela simples modificação da dieta, poderíamos voltar a viver 950 anos hoje. Talvez algum desses fatores seja a razão para o contínuo declínio, que dura há séculos. Isaque viveu 180 anos, Moisés 120, o rei Davi apenas 71 anos. É interessante que estejamos vendo um aumento nas expectativas de vida hoje devido a fatores ambientais. Porém, penso que é provável que para viver em qualquer lugar próximo da longevidade de nosso ancestral Noé, teríamos que possuir algum de seus fatores genéticos.

Mas é claro que a razão definitiva pelo envelhecimento e a morte é a Maldição de toda a criação registrada em Gênesis 3. Adão foi informado de que se ele desobedecesse a Deus, “morrendo, morrerás” (tradução literal do hebraico). Naquela hora, Adão morreu espiritualmente, e começou a morrer fisicamente naquele mesmo dia, assim como todos morremos hoje.

A moderna pesquisa genética mostra que todos nós herdamos a inevitabilidade do envelhecimento e da morte. Quando olhamos para a multiplicação das nossas rugas no espelho, isso deveria nos lembrar da maldade do pecado aos olhos de um Deus santo. E deveria nos causar imensa gratidão que Deus tenha fornecido uma forma de escape de Seu justo julgamento sobre o pecado, através de Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo.

Vivendo além do que podemos

Há cerca de 30 anos atrás, um advogado de meia-idade na França firmou um acordo com uma senhora, sua cliente, nos seus 90 anos, como se segue. Ele recebeu a posse do apartamento dela, em troca de uma bela pensão mensal. E ela poderia continuar vivendo de graça lá por toda a vida. Parecia um caso óbvio de ganho para ambos os lados; por causa de sua idade avançada, ele certamente acabaria com uma compra muito barata, e ela deixaria seu magro loteamento pelos anos restantes com um alto rendimento.

Para o imenso infortúnio do advogado, sua cliente, Jeanne Calment, estava destinada a se tornar a pessoa que mais viveu na história moderna. Ela morreu em 1997 (em pleno controle de todas as suas faculdades), na idade de 122 anos e 164 dias. Seu advogado morreu de velhice muito antes dela. Ele (e seu agente) acabou pagando a ela muitas vezes o preço do apartamento.

Dois pesquisadores franceses recentemente traçaram a genealogia de Calment por cinco gerações em ambos os lados. Cada um de seus ancestrais viveu notáveis 10,5 anos a mais, em média, que a idade média de morte das pessoas da mesma região. Eles concluíram que a forma em que ela viveu ou com que ela se alimentava não era o fator principal de sua idade avançada, mas que um raro conjunto de genes de longevidade deveria ter acabado junto no mesmo indivíduo. Obviamente, ela também conseguiu evitar qualquer infortúnio que pudesse ter causado uma morte prematura.

Isso é consistente com nossa tese de que há fatores genéticos associados à longevidade. A disponibilidade de um grande volume deles em nossos ancestrais pré-diluvianos pode ter explicado suas longas expectativas de vida, enquanto que a perda de alguns pudesse explicar sua subsequente queda.

Perda genética após o Dilúvio – uma causa para a queda das expectativas de vida?

Possível combinação genética herdada pelos descendentes
Possível combinação genética herdada pelos descendentes

Há um conhecido e simples fenômeno chamado “deriva genética”, por meio do qual formas variantes (alelos) de genes (cadeias de DNA que codificam para várias características) podem se perder em pequenas populações.

Genes vêm em pares; você herda um de sua mãe e outro do seu pai. No exemplo acima, o diagrama mostra que a forma “G” do gene está presente no pai, mas não na mãe. Cada um de seus filhos tem 50% de chances de herdar a versão “G” daquele gene, em particular, como mostrado. Portanto a possibilidade de nenhum dos descendentes herdar esse gene não é nem um pouco remota (se eles tiverem três filhos, a chance é de 1 em 8). Em uma situação na qual toda a raça humana foi reduzida a Noé, seus três filhos e suas esposas, é totalmente plausível que algumas formas de genes presentes em Noé não tenham passado. Uma vez que parece, agora, que grande parte do envelhecimento ocorre sob controle genético, a perda de alguns dos genes para a longevidade podem ser a razão para a sua queda pós-diluviana. Talvez o posterior afunilamento populacional (em Babel) tenha contribuindo ainda mais para essa eliminação genética (2).

Cromossomo

Cromossomos humanos (em cinza) encapados com telômeros (em branco). Imagem wikipedia.org
Cromossomos humanos (em cinza) encapados com telômeros (em branco). Imagem wikipedia.org

O final “encapado” de cada cromossomo (chamado telômero, do grego τέλος (telos) = “final” e μέρος (merοs) “parte” é, como as pontas encapadas de cadarços, necessária para prevenir que as pontas esfiapem. O telômero encurta a cada divisão celular – quando o limite é atingido, as células não podem mais se dividir. Este é, provavelmente, uma das formas pelas quais nossas expectativas de vida limitadas estão “programadas” em nós. Se tivéssemos a constituição genética apropriada, não haveria absolutamente nenhuma razão biológica que impedisse as pessoas de viverem muito mais do que vivem no presente.

Sabe-se há muito tempo que existem células humanas que podem continuar se dividindo pra sempre – células cancerosas. Elas parecem não ter o “interruptor” interno que manda às células pararem a divisão, porque continuam fazendo cópias de si mesmas. É por esse motivo que os laboratórios médicos, que precisam utilizar linhagens de células humanas em seu trabalho, podem ser continuamente supridos de células que são todas “descendência” de uma única desafortunada pessoa com câncer. (Chamadas de células HeLa, em homenagem a Henrietta Lacks, a portadora desse câncer.) A linhagem celular HeLa é efetivamente “imortal” (a menos que células HeLa existentes fossem todas fisicamente destruídas).

Recentemente, resultados laboratoriais baseados em uma enzima (3) envolvida na replicação do telômero causaram muita excitação. Linhagens modificadas de células humanas dividiram muitas vezes além do seu limite. Alguns especulam que tais manipulações poderiam permitir que as pessoas vivessem por muito mais tempo, assegurando-se que elas não sucumbissem a doenças ou acidentes no meio-tempo. O envelhecimento certamente parece ser muito mais complexo que essas discussões simplificadas, baseadas em achados preliminares, podem nos induzir a pensar. Contudo, as evidências, até agora, sugerem que a genética é a protagonista nesse drama.

Bibliografia e leituras adicionais

  • New Scientist: November 22, 1997, p. 7; 3 janeiro 1998, p. 6; 7 fevereiro 1998, p. 14; 28 fevereiro 1998, p. 23.
  • ‘Can science beat the body clock?’ Sunday Times (Londres) 18 janeiro 1998, p. 15.
  • ‘Extraordinary lifespans in ants: a test of evolutionary theories of aging’, Nature 389:958–960, 1997.
  • ‘Why do we age?’ U.S. News & World Report, 18–25 Agosto, 1997, p. 55–57.
  • ‘Genetics of Aging’ Science 278(5337):407–411, 1997.

Referências e notas

(1) Simplificado à guisa da brevidade – há flutuação no tamanho, com um encurtamento em rede. Em nossas células cerebrais, o telômero não encurta.

(2) Isso assume que, provavelmente, havia considerável variação nas expectativas de vida do mundo pré-diluviano, com algumas pessoas programadas para viver até um máximo de, digamos, 400 a 500 anos. Pode ser por isso que os filhos de Noé não atingiram longas idades.

(3) Essa enzima, chamada telomerase, foi descoberta em 1980 pela ganhadora do “Australia Prize” de 1998, Profª. Elizabeth Blackburn. Sem a telomerase, as células não podem copiar suas “partes encapadas”. A Profª. Blackburn, juntamente com Carol Greider e Jack Szostak, foram laureados, em 2009, com o Prêmio Nobel em Fisiologia e Medicina “pela descoberta de ‘como os cromossomos são protegidos por telômeros e a enzima telomerase’.”

* Dr. Carl Wieland, médico e cirurgião (M.B. e B.S.) pela Adelaide University in South Australia, é Diretor do Creation Ministries International (Brisbane, Austrália), um ministério evangélico não-denominacional e sem fins lucrativos. Ele tem palestrado e escrito amplamente sobre evidências para o relato bíblico da criação; em 1978 fundou o periódico internacional Creation (que fornece a maioria dos textos deste blog), anteriormente Ex Nihilo, que conta com assinantes em mais de 100 países.