por Daniel Ruy Pereira

Quando a mídia anuncia que Hollywood vai lançar um filme bíblico, eu sempre fico dividido. Parte de mim – a parte que ama a arte de contar histórias e cinema – adora a ideia de que uma história, das centenas de histórias tão queridas pra mim, será adaptada para uma telona gigante em HD com som de primeira. A outra parte – a parte que ama a Bíblia e acredita nela como ela está escrita – sabe que não dá pra esperar muita fidelidade teológica de um filme hollywoodiano.

Foi nesse misto de emoções que recebi a notícia de “Noé”, de Darren Aronosfky. Eu fiquei um pouco mais empolgado, porque tinha acabado de assistir “Cisne Negro”, e achei um filmaço. Aronofsky é um ótimo diretor, afinal. O filme foi lançado e fui lá assistir.

E minhas duas partes ficaram felizes e decepcionadas. Porque o filme gira em torno de três visões principais, é preciso analisar essas visões para poder dizer se eu gostei ou não do filme. Caso você queira uma resposta curta, preto no branco, ela não existe. Vai ser em escala de cinza mesmo, e com aguada de nanquim.

Uma visão sobre as Escrituras

O texto do Dilúvio é um texto relativamente curto. São apenas quatro capítulos de Gênesis (1). No entanto, é relativamente longo, porque são quatro capítulos relativamente bem detalhados. Deus manda Noé construir uma Arca, para salvar sua família e muitos animais, porque Ele vai destruir o mundo devido à imensa pecaminosidade desenfreada e generalizada do homem. Deus dá a Noé as medidas exatas da Arca e as instruções sobre quantos animais levar. Os animais veem até Noé. (2) Deus fecha a porta da Arca, com 8 pessoas dentro e começa a chover. O Dilúvio dura um ano, com uma chuva torrencial (janelas do céu) e águas jorrando das “fontes do abismo” (3); quantidade tal de água que todos os grandes montes foram cobertos. O Dilúvio foi global, destrutivo, punitivo e, ao mesmo tempo, misericordioso – porque, como explica Mark Driscoll, Noé era tão pecador como os outros homens, mas encontrou favor aos olhos de Deus. (4) O Dilúvio termina, Deus faz a promessa de que nunca mais destruirá o mundo com um Dilúvio e sela sua promessa a Noé com um arco-íris.

No entanto, o autor não dá muitos detalhes sobre Noé, quem – ou o quê – eram os nephilim, ou “filhos de Deus”, de Gênesis 6:2-4. E isso por um motivo que frequentemente esquecemos: os autores bíblicos escrevem seus textos com um claro objetivo teológico-prático em suas mentes. O autor de Gênesis quer dizer basicamente o seguinte para seus leitores contemporâneos: “A terra, hoje, é bem diferente do que foi antes, e isso porque Deus já a destruiu por causa dos pecados da humanidade. No entanto, Deus não é só Punidor. Também é Salvador, e escolheu um homem como nós, chamado Noé, para salvar e para recomeçar. Resumindo: Deus vê o homem, Deus pune o homem, se este for mal, mas Deus também salva o homem e lhe dá uma nova vida, se este for obediente.” (5)

Assim, o texto é sólido. Tem começo, meio, fim e objetivo. Mas nem todo mundo acha isso, e muita gente começou a querer explicar o que não tinha explicação. (6) Isso porque o texto estaria “incompleto” ou porque a imaginação poderia te ajudar a meditar melhor ou por seja lá o quê. Em suma: “as Escrituras são legais, mas eu acho…”

Isso permite que Aronofsky e Logan (os roteiristas) preencham o texto – ou às vezes o alterem (Tubal-Caim, o que você está fazendo aí?) e contem a história que querem contar. Por outro lado, as cenas que mostram a Pangéia, o planeta envolto por tempestades, as dimensões da Arca e as cenas (terríveis e marcantes) que mostram as pessoas cometendo atrocidades e, como consequência, morrendo no Dilúvio, são fantásticas e bem fiéis às descrições bíblicas. Mas quando, numa maravilhosa sequência em stop-motion, eles tentam alinhar o relato bíblico da Criação com a história darwinista da vida, escorregam tanto no tomate científico quanto no tomate bíblico, porque não é possível conciliar os dois relatos e só pode haver um (só para citar gratuitamente Highlander).

Uma visão sobre Noé

“…Eu acho que Noé poderia ter sofrido de ‘culpa do sobrevivente’. Afinal: por que ele não pode ajudar as pessoas que estão lá fora, gritando?” (7) (Essa cena, aliás, foi uma das melhores partes do filme).

Não duvido nada dessa possibilidade. Noé, como já disse, era uma pessoa comum, como todas as pessoas comuns. E tinha mais sete pessoas comuns ali dentro, todos da mesma família. Deve ter sido torturante pensar em antigos amigos ou pessoas que estavam gritando do lado de fora da Arca, sem poderem entrar, mas tão merecedores de castigo como aqueles oito. E a história que se desenvolve aqui é a de um herói perturbado que anda em cima de um muro que separa o território “fé” do território “fanatismo religioso”. E esse constante dilema leva o Noé de Aronofsky a ter atitudes horríveis aos olhos do espectador.

O tema é maravilhoso, e realmente aborda a realidade de muita gente que começa a frequentar uma igreja ou religião e passa a ignorar o próximo totalmente. Onde essa pessoa está sendo fiel? É maior sinal de fé ir à igreja todos os domingos e dar seus dízimos (para a SUA denominação) ou ajudar pessoas que estão de fato carentes, sem se preocupar com a evangelização imediata delas, mas amando-as e cuidando delas simplesmente pelo fato de serem gente como eu? Onde a obediência a Deus vira arrogância? Devemos julgar as pessoas ou ter misericórdia delas? É muito fácil começar como bom-samaritano e, quando se olha no espelho, de repente se enxergar um fariseu…

É um arco dramático maravilhoso e eu gostei muito disso. Porém… Tudo isso aconteceu com o Noé fictício do Aronofsky porque ele inverteu o protagonista. Como eu disse acima, o protagonista dessa história não é Noé: é Deus.

Uma visão sobre Deus

Eu gostei dos golems (os gigantes de pedra fantasiosos) como criaturas fantásticas (que lembram os ents de Tolkien e Peter Jackson e só por isso merecem ser gostados) e da ambientação meio Final Fantasy VI do filme. Mas não gostei nenhum pouco do “Criador”. Os golems vieram ajudar os seres humanos banidos pelo Criador, por terem errado no Éden. Lameque foi ajudar Ila, que era estéril. Cão foi ajudar uma outra garota, cujo nome esqueci. Noé ajuda os animais. E existem diálogos maravilhosos entre os personagens.

Mas o “Criador” não ajuda ninguém e nem fala com ninguém! Ele até avisa Noé (por meio de sonhos), mas é o pobre Noé que precisa descobrir o que fazer e tem a ideia de uma Arca com três decks. O Criador não fala com Tubal-Caim, quando este exige que Ele apareça, o Criador fica mudo quando Noé é apresentado a um dilema do tipo Abraão-Isaque. O Criador não abençoa os sobreviventes e nem promete nada, só fica jogando estranhos arco-íris no céu.

Que deus cretino é esse?

Pois é. Esse é o principal problema desse filme. O Deus do Noé bíblico não é isso. Deus falou com Noé, dando-lhe instruções, apesar de Noé ser humano e igual aos outros que seriam condenados. Deus está irado com toda a maldade do mundo (que, de novo, ficou muito bem retratada no filme – até a maldade ficou melhor que Deus!) e não vai deixar isso passar batido. No entanto, Ele escolhe Noé, tendo “graça” por ele. (Gênesis 6:8: Noé achou hên aos olhos de Deus. Essa palavra é a equivalente hebraica da palavra grega charis, graça, de Efésios 2:8). Deus “se lembra” (Gênesis 8:1) de Noé e de sua família e dá fim ao Dilúvio. Deus disse para Noé quando ele deveria sair da Arca. E, só porque existe o dilema abraâmico do Noé de Aronofsky, lembro que, no caso de Abraão, Deus (através de um anjo) impediu Abraão de matar seu filho em sacrifício, e não deixou Noé arriscar, decidir se seria misericordioso ou não, se sentir culpado por desobedecer e ficar sozinho e desamparado. Deus teve misericórdia de Abraão e de Isaque, como teve misericórdia de Noé. (8)

O “Criador” do filme do Aronofsky é qualquer coisa menos Deus.

Conclusão

Adorei o filme na mesma medida que não gostei dele – e acho que o Aronofsky ficaria muito feliz com isso. A intenção de um cineasta é fazer um filme – não evangelismo ou pregação (embora o sermãozinho ambientalista esteja ali, sim, que eu vi!). Como obra de arte cinematrográfica que aborda o drama de um homem religioso que busca obedecer seu deus, enfrentando o dilema do fanatismo, o filme é ótimo.

Mas o filme tira o Deus Soberano da Bíblia e o substitui por uma entidade etérea, sem voz ou personalidade, que se propõe a “guiar” um homem com tendências fanáticas. Como consequência, isso desmantelou a narrativa de Aronofsky e Logan, gerando um herói estranho com motivações estranhas unicamente porque seu deus é bizarramente esquisito. Boa coisa não ia dar e sou grato a Deus que Ele não seja como o deus da mente do Aronofsky.

A mensagem do Dilúvio é fundamental à fé cristã. Jesus a usa como exemplo histórico para falar do fim dos tempos e Pedro também, repreendendo os que zombam de sua existência (2 Pedro 3:1-9). E, se tem algo no filme do Aronofsky que foi acerto na mosca foi isso: a cena em que a Arca flutua em background e pessoas se desesperam para tentar se salvar num pequeno pico de rocha é terrível, e nos lembra que

“como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem.” (Mateus 24:37-39, ACF)

Aliás… O céu anda bastante nublado ultimamente, não?

Referências e notas

(1) Eu não vou abordar, nesse review, aquele velho argumento de que o texto de Gênesis deriva do texto babilônico sobre Utnapishtim, na Epopéia de Gilgamesh, porque acredito que Jonathan Sarfati expôs muito bem as semelhanças e diferenças, concluindo com muita propriedade que, se existe derivação, é o contrário: Utnapishtim e o seu Dilúvio são uma versão alterada do relato bíblico. Você pode ler mais sobre isso aqui.

(2) Antes que você pergunte como Noé foi buscar os animais em 5 continentes diferentes, lembre-se que, em Gênesis 1:9, Deus cria “a porção seca”. Um único continente, que foi partido no Dilúvio. Além disso, os animais possuem a capacidade de migrar e, ao que parece, parecem detectar a vinda de catástrofes, embora ainda não saibamos como. E seria incoerente analisar um texto que fala de um evento DIVINO, portanto sobrenatural, sem considerar a intervenção divina em vários aspectos da história, inclusive esse.

(3) Veja, WILLIAMS, Alexander. Oceanos lá embaixo? Creation 22(3):52-53, junho de 2000

(4) DRISCOLL, Mark. Noah was NOT a righteous man. Disponível no site da Mars Hill Church.

(5) Isso faz todo o sentido se quem escreve é Moisés para o povo de Israel, que já vinha reclamando muito e desobedecendo à Lei de Deus, novinha em folha, em peregrinação nos desertos do Oriente Médio. O Julgamento Final dos dias de Noé se repetiu no Egito e poderia se repetir sempre que Deus achasse necessário. Mas Deus sempre salvaria seu povo escolhido.

Há outras teorias que dizem que o Gênesis de Moisés seria um mosaico (ha!) de autores que foi organizado em um texto tradicional, mas essas teorias têm sido refutadas à muito tempo. Veja, por exemplo, MEISTER, Mauro. A questão dos pressupostos na interpretação de Gênesis 1.1 e 2. Fides Reformada 5/2 (2000). p.5.

(6) Veja, por exemplo, um apanhado de tradições judaicas sobre o Dilúvio aqui: http://www.jewishencyclopedia.com/articles/6658-giants. É interessante notar como, com os acréscimos dos gigantes (no filme, “Watchers”) da tradição rabínica, o texto fica muito mais parecido com um texto mitológico daqueles que se lê nos livros de Joseph Campbell, e bem menos crível.

(7) A culpa do sobrevivente é uma situação psicológica na qual a pessoa que sobrevive a uma tragédia pergunta: “por que não eu?”. Isso pode levar a várias complicações existenciais, inclusive o suicídio. Muitos psicólogos trataram pessoas assim em acidentes modernos, como na recente tragédia de Santa Rita, no Rio Grande do Sul. Veja aqui, por exemplo, http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2013/01/30/a-culpa-dos-que-ficaram.htm.

(8) Preciso esclarecer uma coisa: misericórdia não é direito de ninguém. Noé nunca teve o direito de ser salvo, nem sua família. Uma vez que o Criador moral julga a criatura moral, ele pode punir suas criaturas morais, culpadas de ofendê-lo até dizer chega, sem problema ético ou jurídico algum. Mas Ele escolher salvar alguns, indignos, do mesmo tipo que os anteriores, é algo notável – e digno de louvor.

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