por Daniel Ruy Pereira

Faz tempo que eu não escrevo um texto longo aqui no blog. A vida é assim, cheia de vai-e-vens. Fazer o quê? Mas ultimamente tenho escrito muito, em inglês, pra treinar, sobre vários assuntos diferentes, já que estou morando na Irlanda (o que explica meu desaparecimento nos últimos meses). Esse texto é um desses treinos, mas chega atrasado porque minha professora estava corrigindo. Aliás, palavras dela ó: “This is very deep thinking, Daniel, thank you for that, it’s very interesting to read.” Hehe. (Daniel, orgulho é pecado, okay?) Bem, traduzi e expandi o texto para comentar esse assunto tão importante, que venho relutando há muito tempo e por vários motivos. Vamos lá.

No último dia 31 de janeiro (2014) foi ao ar o último episódio de “Amor à Vida”, novela de Walcyr Carrasco, que apresentou o primeiro beijo gay da Rede Globo de Televisão (*), entre Nicko (Thiago Fragoso) e Félix (Mateus Solano), o que levou a emissora a alcançar 48 pontos de audiência em São Paulo, o que significa que, só em São Paulo, quase 9 milhões de pessoas (1) estavam assistindo ao programa. É gente pra caramba no Brasil todo.

E tem muita coisa interessante nisso..

Primeiro, as reações do público, como essa aqui (2), foram de comemoração (talvez até histeria em alguns casos), o que entendo, por um lado, como natural, já que homossexuais sempre sofreram muito no Brasil e a mídia brasileira de um jeito ou de outro tem dado bastante espaço para eles ultimamente. Basta acompanhar de longe às últimas novelas. De personagens gays caricatos e engraçadinhos, eles foram crescendo até chegarem a protagonista vilão-redimido-pelo-purgatório-e-obras da novela, com direito a beijo no grande amor, inclusive. E, sinceramente, acho tudo meio emocional e clichê demais. Se você assiste a Milk (2008, filmaço com Sean Penn), ou a qualquer outro filme que aborde o tema da homossexualidade, vai ver muito mais que isso. Mangás, desenhos, gibis, tudo isso já mostrou beijo gay e muito mais. Mas nunca a Rede Globo. Por isso tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Alguns espectadores, porém, consideraram o episódio bem ofensivo (“não precisava um beijo gay, bastava que Félix e Nicko fossem felizes”). Outros consideraram o episódio como um bom sinal dos tempos (“as coisas estão mudando e estamos progredindo!”). Enquanto um grupo considera o episódio como um progresso rumo à compreensão da felicidade, outro grupo considera a cena uma provocação contra os valores morais cristãos.

E eu pergunto: qual, dos grupos, acima, é o mais hipócrita?

Pergunta interessante, não? Estou assumindo (e afirmando) que qualquer um no parágrafo acima é um hipócrita. E se você se identificou com um dos grupos e agora ficou ofendido, acertei em cheio. Por que estou fazendo isso? Porque eu tenho uma definição para hipocrisia. Hipocrisia é a soma da questão shakesperiana “ser ou não ser” com “fazer ou não fazer”, multiplicada pela ação de ensinar isso às pessoas, menos o fato de que se faz exatamente o contrário do que se diz. Tudo bem, vou simplificar. Hipócrita é quem diz ser alguém e fazer certas coisas, ensinando as pessoas a fazerem o mesmo, tirando o fato que faz o oposto do que ensina.

Fica ainda melhor (ou pior) quando analisamos às premissas dos quatro grupos.

“Se eu sou um telespectador, estou engajado no programa”

Esses são provavelmente cristãos-moralistas, ou moralistas-e-não-cristãos (porque cristão não é moralista, nunca foi nem será, e moralismo não faz parte do cristianismo também, mas isso é outra história), que eram telespectadores assíduos. Assim, se eu sou um telespectador, estou engajado no programa. Portanto, provavelmente tenho gostado (e muito), do contrário não seria telespectador. Logo, como eu posso me sentir ofendido pela cena? Seria muito mais honesto me sentir ofendido pelo programa como um todo, que desde o início sugeriu este arco dramático e o romance entre os personagens estava evidente desde há muito tempo atrás. E se eu tivesse me ofendido no princípio não seria espectador, mas como sou, não me ofendi! (3) Mas como não me ofendi… er, você entendeu.

“Se considero o episódio um progresso, condeno como conservadores os que pensam de outro modo”

Ah, claro. A visão “democrática” da existência. Se acho que X é um progresso e alguém discorda de mim, obrigatoriamente reconheço o discordante como conservador ou retrógrado, evidentemente piores que eu. Como pode um pensamento desses ser um progresso? Isso é arrogância, não progresso. Tal pessoa consideraria um avanço se um casal protagonista de novela defendesse o conceito de virgindade e castidade também, uma vez o sexo casual pode levar a depressão e pensamentos suicidas (4), fora DSTs, gravidez indesejada etc? Eu acho que a castidade é um progresso. Qual é a diferença lógica entre as ideias?

“Se eles não tivessem beijado um ao outro, não seriam felizes”

E por que o conceito de felicidade deve estar ligado à realização sexual? Pessoas que não podem se abster de sexo não podem ser felizes, então? Felicidade é um conceito bem relativo, por isso não devíamos tentar estabelecer um trilho no qual a felicidade possa se mover. Eu tenho um conceito bem amplo de felicidade: ela só existe na pessoa de Cristo. Em Cristo, todos podem ser felizes na liberdade consciente que têm. Fora de Cristo, todos são infelizes na escravidão do que pensam ser liberdade, mas não é – mas isso já é pano pra outra manga. O ponto é que felicidade é relativa. Eu acho que Félix talvez pudesse ser muito feliz se abandonasse os desejos e impulsos sexuais e tentasse viver uma vida monástica. Estou errado? Por quê?

“Se a cena não tivesse existido, a moral cristã teria sido preservada”

Essa é a pior de todas, porque se esquece que o que ofende a moral cristã não é um beijo gay, mas a rebelião do homem contra a vontade de Deus que, de acordo com Jesus Cristo, é reconhece-lo como Deus e Salvador. Qualquer pessoa que não fizer isso, seja ela heterossexual ou homossexual, capitalista ou socialista, católico ou protestante, ateu ou deísta, ofende a Deus igualmente. Toda a moral cristã deriva da afirmação que “Cristo é Filho do Deus vivo”, e “veio ao mundo para salvar pecadores, dos quais eu sou o pior.” Se sou cristão, vivo de modo que essa afirmação seja vista claramente em mim? Sou evidência do poder transformador do evangelho? Se a resposta é não, por definição não sou cristão e deveria me envergonhar de professar valores pelos quais não vivo.

Ergo…

Um beijo gay não é ofensivo. É apenas o reflexo de certas premissas e expectativas que todo ser humano possui dentro de si. Todos querem ser felizes e satisfeitos. E seja lá o que “felizes e satisfeitos” signifique, esse significado só será obtido quando tivermos uma boa definição de “felicidade e satisfação”. Uma novela jamais definirá isso em uma cena.

Não me entenda mal. Eu defendo o que está escrito na Bíblia, você sabe. Algumas pessoas são muito tapadas quando dizem que a Bíblia condena os homossexuais ao inferno, e concluem sem pensar que a Bíblia é contra a felicidade. Rosaria Champagne Butterfield, que se apresentava como “professora lésbica esquerdista [que] desprezava os cristãos”, concorda comigo. (5)

A Bíblia não condena os homossexuais ao inferno. A Bíblia condena todo mundo ao inferno. A Bíblia não é contra a felicidade. Ela é contra o pecado e a idolatria – que são a mesma coisa. C.S. Lewis dizia que o “orgulho é o pior dos pecados”, porque é a fonte de todos os pecados. (6) E orgulho é a idolatria do ego. Qualquer coisa que ocupe o lugar de Deus é idolatria. Veja só o que Paulo diz em 1 Coríntios 6:9-13, texto escrito para uma igreja que tinha sérios problemas de ordem sexual, do tipo que “não ocorria nem entre os pagãos” (1 Co 5:1) :

Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. Assim foram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus. “Tudo me é permitido”, mas nem tudo convém. “Tudo me é permitido”, mas eu não deixarei que nada domine. “Os alimentos foram feitos para o estômago e o estômago para os alimentos”, mas Deus destruirá ambos. O corpo, porém, não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo. (NVI, ênfase minha (7))

Já vi gente rebater essa citação dizendo: “Você coloca homossexual na mesma categoria de ladrão!” Calma lá. Na mesma categoria coloco homossexuais, adúlteros, gente que toma porre, gente que fala mal dos outros, gente que pega para si o que é dos outros, gente que adora qualquer coisa que não seja a Trindade. Isto é, gente que comete excessos com aquilo que gosta. Gente que come a fruta do conhecimento do bem e do mal. Uma cerveja de trigo é uma delícia. Um porre delas é pecado. Sexo é bom (muitas vezes…), sexo demais, com mulher, homem, ou qualquer outro ser vivo, é pecado. Por quê? Porque “a boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12:34). Se faço muito X, significa que gosto muito de X, e se gosto muito de X, quero satisfazer meu grande desejo de X, porque X é muito importante pra mim e quero muito me satisfazer. Afinal, eu sou deus e só eu importo. Você vê a idolatria? É por isso que todas essas práticas são classificadas com um nome: “perversos”.

Deus ama o ser humano. Morreu por ele. Deus morreu pelos Félixes e pelos Nickos e pelos Milks, a despeito de nós os desprezarmos e o odiarmos. Acredito firmemente que a pessoa homossexual que quer ser cristã e viver para Deus precisa abandonar suas práticas sexuais, abandonar a pessoa que ama sinceramente; precisa deixar tudo, “tomar a sua cruz” e seguir a Cristo. Jesus nunca disse que o caminho era fácil, mas que o caminho é estreito.

Todo cristão larga tudo pra servir a Cristo. Converse com um cristão. Você se surpreenderá com tudo o que ele deixou para trás por causa de Jesus. Vale a pena? Bem, estou aqui escrevendo justamente por causa disso. Um beijo (gay ou não) não é nada comparado ao amor do Criador.

Referências

(*) Quando publiquei o artigo da primeira vez, não me informei direito e pensei que tinha sido o primeiro beijo da TV brasileira. Não foi. O leitor Renato me corrigiu: o primeiro beijo gay da TV brasileira foi na novela “Amor e Revolução”, no SBT, dia 12 de maio de 2011. O link está no comentário dele, abaixo. Corrigi no texto, mas felizmente esse erro não prejudicou em nada minha argumentação!

(1) De acordo com este site do IBOPE, 1 ponto de audiência em São Paulo, em 2011, equivale a 183.520 pessoas. Regrinha de três básica dá um resultado exato de 8.808.960 pessoas – quase 9 milhões!

(2) http://kogut.oglobo.globo.com/noticias-da-tv/audiencia/noticia/2014/02/ultimo-capitulo-de-amor-vida-iguala-recorde-de-audiencia-com-48-pontos.html

(3)  Teria este espectador se sentido ofendido pela visão cartunesca e falsa com a qual os cristãos evangélicos foram apresentados na novela? A novela retratou um segmento neo-pentecostal do protestantismo, justamente o segmento que mais cresce no Brasil, e frequentemente o mais afastado dos ideais, princípios e valores cristãos. Tinha tanta besteira teológica ali que fazia o beijo gay virar carinho na mão.

(4) HODGEKISS, Anna. Casual sex can cause depression and even leads to suicidal thoughts, experts warn.” Daily Mail, 31 novembro 2013. Disponível aqui.

(5) A história dessa mulher é fantástica e merece ser lida. Estou pra ler o livro, mas já é fantástica só nesse excerto do Christianity Today. Vale muito a pena ler.

(6) LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples. Martins Fontes, não lembro a data!

(7) E pasmem: havia pessoas que tinham praticado homossexualismo de todas as formas frequentando a igreja de Corinto. E ainda praticavam, provavelmente, porque Paulo os está repreendendo, amorosamente, justamente por isso entre outras coisas.

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