por Daniel Ruy Pereira

Para Bruna, aluna querida,
que descobriu que escrever vicia
(e está fazendo isso melhor do que eu).

Como escrever minha ofegância?
Pobres onomatopéias infelizes, incapazes!

Sinto algo.
Reverbero,
e minha frequência é o inverso do tempo,
Oscilando em eterna-idade.

(Reticências)

Que urgência é essa de escrever?
Algo me toma.
Na verdade, eu que tomo. Na cara.
A Graça Comum é maior e mais bela do que pensei ser.

Beleza é coisa invasiva.
Não pede licença, não.
Obriga a vê-la, a lê-la, a ouví-la.
Incorpora. Reveste.
Irritante! Petulante!
Querida!

O que você fez, Deus?
Não basta criar? Tem que ser belo?
Mesmo o feio pode ter e ser belo?
Por que isso?

Mas eu te entendo.
Você, Deus, é cubista.
E Tua arte é multifacetada.
A feiúra que sou
É feia mesmo, sem metáfora.

Mas tem beleza. Tem Você.

Mas onde?
Aqui não. Não mesmo.
Não em mim.
Mas em Você em mim.
Você é minha interpretação, meu significado.
Você é meu valor.
Você é o que não posso ser.

Ninguém me vê valioso, não.
Nem eu. Feio que sou.
Você vê Tua obra.
Tua personalidade na Tua obra.
Eu mostro Você.

Tela cubista que sou,
Não sou compreendido
exceto pelo Artista.

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