por Daniel Ruy Pereira

Zumbis! Como não gostar deles? Como não gostar de filmes como “A Noite dos Mortos Vivos” (1968) e dos filmes de George Romero, e dos jogos de Resident Evil e agora, de “The Walking Dead”? Não é pela violência, pela carnificina ou pela maquiagem sensacional e assustadora. Também, mas essa é a parte legal. A parte boa sempre está na trama. E, inspirado pelos últimos episódios dessa terceira temporada de The Walking Dead, que foram absolutamente sensacionais, vou fazer algumas reflexões a respeito.

Videogames

Resident Evil 2: que jogaço! Jogava de madrugada com meu irmão, com medo do diabo incorporar em um de nós! Imagem wikipedia.org

Zumbis nunca foram feitos para ser engraçados. Minha história com esses monstros começou lá por 1999, quando joguei Resident Evil 2, pela primeira vez, no meu Nintendo 64. Eu fiquei fascinado e atormentado pelo que eu via. Cães, corvos e monstros sedentos pelo sangue do meu personagem – ou melhor, pelo meu sangue. É a mágica do videogame. Mas a história é que me pegou em cheio. Imagine isso: ter que sobreviver a uma cidade tomada por hordas de mortos-vivos comedores de carne fresca. E tudo começou com a mordida de um rato contaminado pelo T-virus – uma tentativa fracassada, na época, de fazer super soldados. Fascinante, mesmo, ainda mais para um garoto de 14 anos, que não tinha tido muito tempo ou condições de refletir sobre a vida. Mas o tempo passou e eu esqueci.

Em 2011, joguei o Resident Evil: Remake, para GameCube. E o fascíneo voltou. Agora, um rapaz de 26 anos, com alguma condição filosófica. E aí viciei. Vi que os zumbis tinham perdido a graça ao longo das décadas de 1990 e 2000. Acho que um dos principais responsáveis foi – quem diria! – Michael Jackson, com seu Thriller. Mas é injustiça colocar a culpa nele. Os zumbis viraram product. Foi justamente Resident Evil que voltou a mostrá-los assustadores.

Os filmes de George Romero

Em 1968, George Romero lançou “A Noite dos Mortos-Vivos”. Um

Cartaz original de “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968). Imagem wikipedia.org.

clássico absoluto, aquele filme está entre os melhores que eu já assisti em minha vida. É assustador e politicamente engajado, eu diria. Afinal, no ano em que morre Martin Luther King Jr., lança-se um filme onde o protagonista mais inteligente e ativo é negro. Nada mal, sr. Romero.

Dez anos depois (1978), em Madrugada dos Mortos, Romero joga as pessoas de volta naquele mundo pós-apocalíptico, precisando sobreviver em um shopping center – e os humanos nunca pareceram tão humanos: defendendo seu espaço e vivendo numa boa, até serem atacados por… humanos. Os zumbis eram uma ameaça pequena (mas presente) nesse filme.

Em 1985, Romero fecha sua trilogia com Dia dos Mortos. Os cientistas estão tentando descobrir como funcionam esses mortos-vivos. O que eles sentem? Podem aprender? Guardam algum resquício de humanidade? Experimentos são conduzidos na tentativa de entender o comportamento e biologia desses seres. Ficam até menos assustadores – por um tempo. Aqui também os humanos são o verdadeiro perigo. A sede de poder absoluto de um grupo de militares põe tudo a perder. É desse filme a cérebre frase: “quando o inferno estiver lotado, os mortos andarão pela terra.”

É interessante o modo como olhar para os zumbis nesse filme faz você querer entender os humanos. Muita gente seria melhor zumbi que humana, essa é a verdade. Zumbis não mentem, não atacam uns aos outros, não trapaceiam. Sobrevivem. Isso é o que eles fazem. Humanos não. Descontentes com sua vida, querem sempre mais. E se o “mais” for do outro, então eu preciso tomá-lo – é aqui que entra a série “The Walking Dead”.

The Walking Dead

A história foi criada como história em quadrinhos – também impressionate – criada por Robert Kirkman e Tony Moore em 2003. Rick Grimes, o protagonista, acorda em um hospital silencioso e bagunçado e eventualmente acaba descobrindo, da pior forma possível, que os mortos voltaram à vida e estão atacando as pessoas – a fim de comê-las. Em 2010 a série começou a ser adaptada para a TV, e desde lá vem quebrando recordes de audiência e acumulando fãs – como eu.

O que é tão fascinante nessa série? A resposta é subjetiva, então darei a minha, mas vou adaptá-la, perguntando de outro jeito.

“Por que um cristão assiste uma série de TV com mortos-vivos? Isso não é coisa do diabo?”

(Já adianto: deixe o diabo fora disso. As coisas não são boas ou más per se, mas o que fazemos delas é que é bom ou mal. Jesus disse que não é o que entra no homem que o torna impuro, mas o que sai ele, os maus pensamentos, desígneos etc.)

Para entender “The Walking Dead”, pense o seguinte: como a humanidade reagiria se isso de fato acontecesse? Uma resposta que se repete no seriado é “do mesmo jeito que age hoje”. Humanos são egoístas, mesquinhos, autoritários, mentirosos, ciumentos, gostam do mal e só defendem seus próprios interesses. E não são zumbis ao nosso redor que vão mudar nossa natureza. Por que somos assim?

Uma explicação “morta” que continua andando por aí… 

Se eu disser uma palavra aqui você continua lendo até o final? Vou dizer (cuidado: para o mundo atual pode soar como um palavrão, uma palavra imoral e ofensiva): pecado. Alguém deve estar dizendo: “Lá vem ele com um conceito teológico-metafísico que só serve para preencher espaço de uma resposta que ele não sabe…”

Querido leitor, entenda. É preciso explicar porque somos assim. Por que evitamos pensar na morte? Por que mortos-vivos nos chocam, mas nos atraem em toda a sua deformação? O zumbi é a representação quase platônica da nossa natureza animal, nossos instintos. Então não é isso. Não é o zumbi que nos atrai. É o humano sobrevivente aos zumbis. Como reagem em situações de dilema moral, como constantemente aparecem em The Walking Dead e nos filmes de Romero?

Ora, do jeito que sempre agimos: procurando a saída mais fácil; o jeito mais simples, mesmo que seja errado; fazendo de tudo para sobreviver – inclusive prejudicando outros como nós. É isso o que somos. Por isso, em The Walking Dead, Rick luta tanto para permanecer íntegro, mas naquele mundo, isso é impossível. Só naquele mundo? Não, no nosso também. Entenda, leitor: você só é uma boa pessoa até encontrar um dilema moral onde precisa decidir o que fazer. Aí sua natureza humana se revela: você é mau, intrinsecamente; você é zumbi.

Existe cura para a infecção? 

Teologicamente, todos somos mortos-vivos. Levamos a vida, “mortos em nossos delitos e pecados” (Effésios 2:1). E, apenas por estarmos em contato com outros, pioramos essa infecção e a alastramos pelo mundo e pela criação. Somos zumbis teológicos!

Somente alguém que não tenha tido contato com o vírus poderia nos curar – nos mesmos moldes de “Eu sou a lenda” (2008). O sangue do não-afetado cura os afetados. Assim, a única forma de alguns serem salvos é a morte do não-afetado em favor dos afetados – que ele, aliás, abomina, porque não são mais quem ele gostaria que fossem – sua natureza está totalmente degenerada.

Percebe, caro leitor? Cristo é a única solução para o nosso problema de zumbificação. Nossa natureza só tem cura em Sua obra redentora na cruz. E, embora relutemos, por mais que recusemos a inoculação de Seu sangue em nossas almas, nossa luta só aumenta o sofrimento. A única alternativa é ceder.

O melhor é que isso é de graça. Existem algumas igrejas-umbrella-corporation que querem cobrar por isso. Esqueça. Só Cristo pode nos salvar de nossa natureza degenerada.

Aos que não quiserem, os mortos continuam andando pela terra, mas sempre há espaço pra mais um no inferno.

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