Esse post é uma resposta ao comentário de Leo ao artigo “Deus criou vida em outros planetas?“, em 22 de agosto de 2012. Por conta disso, fiz a revisão ortográfica do seu comentário, para facilitar a leitura dos outros leitores (tentei conservar o estilo da melhor forma que pude). O original pode ser visto no link citado acima.

Deus é amor. Mas também é Juiz.

por Daniel Ruy Pereira

Quando vocês falam em DEUS sempre falam em amor incondicional. Será que ninguém aqui lê a Bíblia, não?! Se tudo o que está escrito na Bíblia for verdade, vocês estão muito engandos; o Antigo Testamento é recheado de atos de violência, mortes e selvageria quase irracional por parte do povo de Israel que, segundo a bíblia, é o povo escolhido por deus. Pára! Fala sério! Quantas crianças, mulheres e idosos foram mortos israelitas a mando do todo-poderoso deus? Quantas cidades foram exterminadas pelo simples propósito de deixar o povo de Israel passar – e pior! Em vários trechos da Bíblia é dito que “Javé endureceu o coração do rei para que ele não aceitasse”. P.Q.P., só eu vi isso? É muito fácil se deixar levar pelo que os outros interpretam, mas difícil é ter coragem de ler a Bíblia como um livro comum, escrito pelo homem e não por um pseudopai de todos. Tem muita coisa errada na Bíblia, muitas contradições, na minha opinião; tantas que não se explica como tem tanta gente que ainda acredita. (Leo)

Olá, Leo.

Antes de responder às suas objeções, preciso te dar os parabéns. Você fez o que muito cristão não faz: pensou no que está escrito. Mas não basta pensar assim, também é preciso interpretar o texto lido corretamente, sem ser anacrônico e estar bem informado sobre as cirscunstâncias daquele texto. Eu vou responder suas objeções em cinco sessões, para facilitar a sua leitura e a dos outros leitores também.

Como ler a Bíblia

Primeiramente, Leo, para começar a ler a Bíblia é preciso se informar sobre o livro que se está lendo – estar inteirado da época na qual a história se passa, a cultura que permeia a narrativa e quais as intenções do autor. Além disso, é preciso ter outros conceitos em mente, a fim de compreender as características dos personagens. Você citou duas passagens, em particular: O livro de Josué (as matanças e tal) e o livro de Êxodo (“Deus endureceu o coração do rei”). Pra começar, os livros se passam entre 1400 e 1200 a.C. Essencialmente, a cultura que permeia os livros é em grande parte egípcia  (os hebreus foram escravos por 400 anos, então, nada mais natural. Em 50 anos, nossa cultura tem muita coisa de americana…) – veja por exemplo as descrições dos móveis do tabernáculo . Nessa época, era comum que os povos em guerra dizimassem uns aos outros. Os babilônicos, que vieram alguns anos depois, chegavam a abrir a barriga de mulheres grávidas e empalar exércitos inimigos. Os persas crucificavam, os romanos também. Essa matança era comum no mundo antigo. Não estou justificando ou negando nada, só apresentando fatos. É importante começar assim, pois não se pode olhar para o passado com a visão de mundo do século XX.

Deus mandou exterminar povos?

A intenção dos autores de Levítico, Deuteronômio e Josué, que abordam as questões citadas por você, é mostrar para o povo de Israel quais as características de Deus, e as exigências derivadas dessas características. Deus é santo e justo e não pode tolerar o pecado, por isso, pune proporcionalmente cada pecado, individualmente.

Portanto, a chave para interpretar a ação de Josué deve ser extraída dos escritos de Moisés, mais especificamente de Levítico e Deuteronômio:

“Não sigam os costumes dos povos que vou expulsar de diante de vocês. Por terem feito todas essas coisas, causam-me repugnância”. (Levítico 20:23, ênfase nossa.)

“Quando vocês avançarem para atacar uma cidade, enviem-lhe primeiro uma proposta de paz. Se os seus habitantes aceitarem, e abrirem suas portas, serão seus escravos e se sujeitarão a trabalhos forçados. Mas se eles recusarem a paz e entrarem em guerra contra vocês, sitiem a cidade. Quando o Senhor, o seu Deus, entregá-la em suas mãos, matem ao fio da espada todos os homens que nela houver. Mas as mulheres, as crianças, os rebanhos e tudo o que acharem na cidade, será de vocês; vocês poderão ficar com os despojos dos seus inimigos dados pelo Senhor, o seu Deus. É assim que vocês tratarão todas as cidades distantes que não pertencem às nações vizinhas de vocês. Contudo, nas cidades das nações que o Senhor, o seu Deus, lhes dá por herança, não deixem vivo nenhuma alma. Conforme a ordem do Senhor, o seu Deus, destruam totalmente os hititas, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Se não, eles os ensinarão a praticar todas as coisas repugnantes que eles fazem quando adoram os seus deuses, e vocês pecarão contra o Senhor, contra o seu Deus. (Deuteronômio 20:10-18, ênfase nossa. Perceba que a ordem de extermínio é contra seis povos – não todos. Isso é muito importante, Leo.)

Por não obedecerem ao Senhor, ao seu Deus, vocês serão destruídos como o foram as outras nações que o Senhor destruiu perante vocês. (Deuteronômio 8:20)

Ou seja: Deus mandou matar gente? Sim. Inclusive mulheres e crianças? Com certeza. Essas ações divinas são injustificadas e irracionais? De modo algum. Nas citações acima, veja a citação em negrito. Deus considerava repugnantes as ações desses povos. E por isso, os condenou totalmente ao extermínio, em um tipo de “juízo final” (1). No Novo Testamento, Jesus ensinou a mesmíssima coisa. No julgamento final, “grandes e pequenos” serão julgados e condenados, se não crerem em Cristo e em Sua obra. De acordo com Martin Lloyd-Jones (2), Deus executa “juízos finais” aos povos, inclusive permitindo que povos destruam outros povos sim, por causa da grande pecaminosidade desses povos.

Deus tem amor incondicional?

Em lugar nenhum da Bíblia afirma-se que Deus tem amor incondicional. Aliás, nenhum amor existente é incondicional. Essa é uma concepção estranha, talvez derivada da literatura, do cinema e de um ideal platônico, sei lá. Todo amor tem um objeto e uma razão, mesmo que não a conheçamos. O próprio Deus diz, em Romanos 9:15: “Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão”. Aliás, seria bom que você lesse todo esse capítulo de Romanos 9. Mas tem outra ainda:

“Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me revelarei a ele”. (João 14:21, ênfase nossa)

Viu? É amado por Deus quem ama Jesus, amor este que é evidenciado pela obediência aos mandamentos de Deus. Ou seja, o amor de Deus depende Dele e não tem nada a ver conosco, com quaisquer méritos nossos. Deus amou o mundo injusto e deu Seu Filho ao mundo (João 3:16).

Porém, a Bíblia ensina que algumas pessoas não são salvas, simplesmente porque Deus não vai salvá-las. Todos pecamos e, como o pecado ofende gravemente a Deus, precisamos ser condenados por isso. Porém, Deus é compassivo, e nos amou, escolhendo salvar alguns. É o paradoxo de Deus: Ele é justo e por isso precisa punir o pecado, mas também ama Sua criação e quer salvá-la. Isso não é contraditório – pelo contrário. A justiça de Deus é vista por causa de Seu amor; e Seu amor é “compreendido” (até onde é possível, que é bem pocuo) por meio de Sua justiça. É exatamente por isso que Jesus, Deus Filho, morreu para sofrer essa condenação merecida por nós (mas não por Ele) no lugar destes a quem Ele escolheu, isto é, sofreu o castigo imposto a estes. E a estes, Deus salva. Agora, os outros são deixados à mercê de seus pecados. Amaram tanto sua pecaminosidade que Deus os abandonou, para fazer o que quiserem de suas vidas, e assim, essa já é parte de sua condenação (Romanos 1). O caso de Faraó parece ser um desses casos. Se bem que Deus também queria libertar seu povo e mostrar para eles e para o mundo que os outros deuses – incluindo o Faraó, auto-proclamado deus – não passavam de invenções humanas, que também seriam condenadas. (3)

Conclusão

Tremper Longman III afirma que o mais assombroso nessas narrativas não é que Deus tenha eliminado alguns povos, mas que tenha deixado um povo vivo – o de Israel – tão corruptível e falho como os outros. Não seria de admirar que Deus destruísse todos os povos. (4)

Como espero que você e os leitores tenham visto, Leo, as contradições na Bíblia não existem, se você olhar direito e tiver as premissas corretas, dadas pela própria Bíblia. Cremos na Bíblia porque ela não esconde nada: ela mostra o que o homem realmente é, e o que Deus realmente é. Se você tentar analisar as ações de Deus com base na nossa justiça humana, que é falha e recheada de injustiças, vai se dar mal.

A Bíblia afirma a justiça de Deus em termos absolutos. Nele não há injustiça. Assim, por ser justo deve punir o pecado e o crime, e Ele o faz de várias formas. A guerra é mais uma dessas formas.

Referências e notas

(1) Quanto às crianças (e pessoa mental e/ou psicologicamente incapazes), se entendermos que elas são podem refletir sobre esses assuntos, se convencendo de sua pecaminosidade e se rendendo a Cristo, então elas seriam salvas. Esse assunto não está perfeitamente claro na Bíblia, mas podemos inferir a resposta com base em várias evidências.

(Citarei aqui o que está no FAQ do site de John McArthur, e outra reflexão por John Piper. As referências são:

  • [S.a.] Do babies and others incapable of professing faith in Christ automatically go to heaven? Grace to you.org, acesso em 17 out 2012. (*)
  • PIPER, John. After Death, Is There a Final Chance to Be Saved?  27 julho 2009. Desiring God.org, acesso em 17 out 2012.(**))

As pessoas, muitas vezes, pensam sobre o destino eterno dos natimortos, bebês e daqueles que são intelectualmente incapazes de entender o evangelho. Essa questão é difícil. Infelizmente, a Bíblia não nos oferece uma resposta explícita. Porém, baseados em várias passagens, bem como na compreensão do caráter de Deus e Seu relacionamento com o homem, podemos desenvolver uma boa ideia de como Ele opera em tais situações.

(…)

2 Samuel 12:23 sugere forte evidência para um destino celestial para os natimortos e crianças que morrem muito cedo.

(…)

Porém, outro ponto pode ser útil na reposta à essa questão. Já que os infantes e crianças não sentiram seu pecado pessoal e a necessidade de salvação, nem colocaram sua fé em Cristo, as Escrituras ensinam que a condenação é baseada na clara rejeição da revelação de Deus – geral ou específica – não pela simples ignorância dela (Lucas 10:16; João 12:48; 1 Tessalonissences 4:8).

Podemos dizer definitivamente que os natimortos e as crianças pequenas compreenderam a verdade mostrada pela revelação geral de Deus, que os deixa “inescusáveis” (Romanos 1:18-20)? Elas serão julgadas de acordo com a luz que receberam. As Escrituras são claras que as crianças e os natimortos possuem o pecado original – incluindo tanto a propensão ao pecado, como a culpabilidade inerente do pecado original. Mas poderia ser que, de algum modo, a expiação de Cristo tenha pago a culpa desses desamparados através do tempo? Sim, e portanto há uma suposição crível de que uma criança que morre muito jovem para fazer uma rejeição disposta e consciente de Jesus Cristo seja levada para estar com o Senhor. (*)

A autoria deste argumento não está disponível, mas talvez seja de John McArthur. Veja o artigo todo, em inglês, aqui.

Na mesma linha, John Piper, grande e respeitado pregador batista americano, diz neste artigo:

Penso que a justiça de Deus em Romanos 1:18-21 implica que os bebês que não tiveram recursos para interpretar a revelação não terão sua natureza caída levada em conta. Elas serão salvas por Jesus.

Mas para todos os outros, só há uma oportunidade de ser salvo. E é esta: Creia no Senhor Jesus agora, e você será salvo. (**)

Com base nesses argumentos, podemos perguntar: qual é o problema moral de Deus matar uma criança, se ela continuará vivendo com Ele, e sem as dificuldades e imoralidades deste mundo? É como buscar uma criança no último dia de aula, levando-a para viajar ao parque de diversões que ela mais quis ir por toda a sua vida.

(2) LLOYD-JONES, Martyn. A Igreja e as Últimas Coisas. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1999. p. 233-245 (Grandes Doutrinas Bíblicas, v.3)

(3) Essa doutrina é chamada de “expiação limitada” e faz parte de um sistema teológico chamado “calvinismo”, pois foi desenvolvido no século XVI por João Calvino. Embora não seja perfeito, como qualquer sistema humano, é o que melhor explica as Escrituras, dando-lhes unidade e coerência. Há outros sistemas, mas não chegam perto deste em clareza e lógica.

(4) Recomendo o maravilhoso livro editado por Stanley Gundry, “Deus mandou matar? Quatro pontos-de-vista sobre o genocídio canaceu”, onde Longman III escreve um dos quatro pontos-de-vista. O livro é fabuloso e relevante.