Este artigo faz parte de uma série de artigos retirados dos meus estudos em: OARD, Michael; REED, John K. (ed). Rock Solid Answers: the biblical truth behind 14 geological questions. Master Books: Green Forest, 2009.
A geologia diluviana também sofre com uma enxurrada de incompreensão…

por Daniel Ruy Pereira

No segundo capítulo deste livro, os autores discorrem sobre os fatores envolvidos no debate entre diluvianismo e uniformitarismo. É um debate que começou no nascimento do uniformitarismo, no século XVIII, e continua ocorrendo; só que agora a maioria não é mais diluvianista.

“Muitas vezes, o único ‘debate’ por parte dos geólogos seculares é simplesmente rejeitar como ridícula a posição diluviana – uma posição defendida apenas por cristãos ignorantes, apegados a uma fé ultrapassada.” (p.11)

É irritante a forma como certos grupos se portam em debates. Ridicularizar o oponente não vence debates. Dizer que uma posição é antiga não significa que está refutada – só que ela é antiga. Se o argumento não for vencido logicamente, então pode-se fazer quanta gracinha quiser. O argumento não caiu.

“…é preciso outro modo de olhar para o assunto – esse é o primeiro passo. Um que faz mais sentido é que a geologia é uma das muitas áreas onde um debate muito maior ocorre entre cosmovisões opostas.” (p.11)

Certamente. As evidências utilizadas pelos dois grupos são as mesmas, mas muda a forma de interpretá-las porque muda o modelo utilizado, modelo este que é apoiado completamente na cosmovisão do debatedor, isto é, a forma como ele entende o mundo e a existência. Ateus e cristãos possuem cosmovisões dogmáticas, mas não sei quem inventou que é um problema ter dogmas…

“Como o cristianismo pode ser ‘anti-intelectual’ se seus eruditos foram responsáveis pela origem de ambas as disciplinas, bem como de muitas outras? A cultura ocidental foi construída sobre a religião cristã… notoriamente até o Iluminismo, e implicitamente depois dele também. O ponto de inflexão histórico fornece uma pista claramente oposto aos cristãos, o naturalismo iluminista. Isso é confirmado por uma lógica simples.

“E a lógica é assim: se a afirmação da verdade e autoridade bíblica é uma posição religiosa, então a negação da verdade e autoridade bíblica também deve ser uma posição religiosa.” (p.11)

Eu ainda não tinha pensado nisso, mas é verdade mesmo; uma negação religiosa só existe para contrariar uma afirmação religiosa, porque a natureza da afirmação é bem específica. Se eu afirmo: “Deus existe”, a negação disso é “Deus não existe”, que por natureza é é afirmação religiosa…

“Se o contexto do debate é de uma luta de cosmovisões, então é claro que as evidências devem ser avaliadas cuidadosamente, porque compromissos externos à ciência devem estar dirigindo a seleção e interpretação desses ‘fatos’.” (p.12)

“…é importante esclarecer as diferenças entre as conclusões tiradas dos compromissos de fé do naturalismo, e daquelas derivadas da ciência da geologia.” (p.12)

“… debates sobre o sentido dos dados empíricos, em última instância, não resolverão o impasse. Uma vez que há cosmovisões envolvidas, somente a invalidade formal demonstrável de uma ou de outra pode estabelecer o argumento.” (p.12)

É o que digo sempre: a figura mítica do cientista imparcial não existe. Todo cientista vai para o laboratório carregado de premissas, muitas das quais ele nem gastou tempo pensando. Esse é o motivo porque vemos muita gente, como Carl Sagan, na sua série “Cosmos”, dizer que a evolução é um “fato” – evidentemente uma afirmação tão dogmática (isto é, inquestionável) quanto dizer que a evolução não é um fato…

Erros formais nos argumentos contra a Geologia Diluviana

Os autores seguem falando sobre os aspectos filosóficos dos sistemas de Hutton, Buffon e Lyell, que são essenccialmente ahistóricos, pelo fato de negarem uma linearidade histórica, dentro da compreensão cronológica ocidental. Assim, esses sistemas se propõem a fornecer um novo tipo de chronos (1).

“A natureza do tempo é uma questão a ser resolvida pela filosofia ou teologia, não pela ciência. Além do mais, este quadro da história era cristão (Rudwick 1999). Porém, mais importante, só poderia ser justificado, teologicamente, pelo cristianismo (Lisle 2009; Reed 2001). Portanto, quando vemos um conceito cristão de tempo sendo usado para refutar o cristianismo, o alarme da lógica começa a soar. E se o naturalismo não possui uma justificativa igualmente válida para este conceito de tempo, o alarme deveria ser ouvido.” (p.13)

“…a escala de tempo geológico assevera que o caminho da história pode ser traçado por uma sequência de rochas. Mas isso requer a assunção de que durante cada era geológica proposta, as rochas eram depositadas ao mesmo tempo, ao redor do mundo todo, a fim de que pudessem ser depois correlacionadas à sua cronologia (Reed 2008)” (p.13)

Ou seja, tenho a premissa; minha premissa está correta; logo, as evidências devem corroborar minha premissa. Mas muitas vezes isso não acontece, e existe o acúmulo de “anomalias” ao modelo usado. Aí, começa-se a pensar na troca por um modelo melhor. Os geólogos seculares acabam por se render ao neocatastrofismo.

“…mesmo que muitos geólogos tenham se tornado ‘neocatastrofistas’, muitos dos argumentos padrão estão enrraizados no passado uniformitarista. E mais: disfarçadamente, embora sistematicamente, eles assumem a conclusão que estão tentando provar – que o uniformitarismo é verdadeiro! Se se assumir que causas atuais operaram por muito tempo, então deve-se procurar por processos de baixa-energia.” (p.13)

“Outro erro de lógica comum aparece nos argumentos contra o Dilúvio. Ele pode ser resumido a uma proposição de forma simples: ‘Os dados X exigem a interpretação Y. A interpretação Y é contrária à minha percepção (tempo, energia ou espaço) do Dilúvio bíblico. Logo, a geologia diluviana é inválida e a geologia secular é vindicada.

“A deficiência lógica é evidente logo no início da proposição. X exige Y ou há uma premissa oculta nas entrelinhas de X que sorrateiramente dirige a Y? Em outras palavras, a interpretação flui dos dados auto-autenticados, ou surge da interação entre suposições filosóficas dos dados, compromissos de fé e fatores sociais ou psicológicos? Afirmamos esta última e consideramos a primeira como ingênua, uma relíquia, uma visão antiquada da ciência.” (p.13)

“Este assunto não é ‘religião contra ciência’, mas a história de uma cosmovisão contra a história de outra cosmovisão. Trabalhar com essa junção de ciência, história e filosofia é inescapável, porque a história natural é uma questão mista (Adler 1965), uma história que requer a cooperação de múltiplas disciplinas a fim de alcançar as conclusões mais compreensivas. A geologia diluviana é um subconjunto de um universo que é teísta, ao invés de ateísta; faz da revelação, ao invés da ciência, o árbitro da verdade; e aceita a narrativa bíblia como uma delineação da história, ao invés de uma extrapolação dos processos atuais.” (p.13)

Não temos vergonha de assumir isso. Faz parte de nossa cosmovisão e funciona como uma cola para as explicações. Para nós, Deus é o Autor da Bíblia, que por isso é um livro inerrante (e não afirmamos isso porque somos inocentes, mas porque, em primeiro lugar, a Bíblia afirma isso de si mesma, e em segundo lugar, ela tem resistido a todos os escrutíneos, filosóficos e científicos, até o momento), logo, é verdadeira em tudo o que afirma. Se uma de suas afrimações estiver errada, então tudo o que ela representa cai por terra. Isso, porém, não significa que tentamos validar a Bíblia por evidências, mas que acreditamos tanto nela que esperamos encontrar evidências que se encaixam no modelo por ela proposto. A lógica é, mais ou menos, a seguinte (salvas as proporções): Confio tanto em um dicionário que, se eu encontrar uma palavra que não conheço, sei que posso procurar por essa palavra no dicionário, que ela estará lá.

Encontrando um lugar comum

“Os geólogos seculares há muito rejeitaram a geologia diluviana como sendo superstição teísta – uma declaração não menos significativa que o seu oposto: que eles estão caindo em uma superstição atéia! (…) Cada lado deve entender a cosmovisão do outro.” (p.14)

“Mesmo que não concordem sobre a origem e extenção da ciência, ambos concordam que a ciência é uma ferramenta válida na história natural, se usada corretamente. Ambos concordam que a adição de dados empíricos ao debate é uma passo positivo. Os geólogos diluvianos podem ser céticos quanto às conclusões uniformitaristas ou neocatastrofistas, mas não porque disputam os dados empíricos. Ao invés disso, eles questionam a parte da interpretação que se baseia em premissas não-empíricas e viéses não-empíricos.” (p.14)

Portanto, o lugar comum neste debate é a fé na Ciência como instrumento válido de busca por verdades naturais.

“Ironicamente, os defensores do naturalismo parecem ter perdido sua posição histórica de serem os arautos de uma abertura cética em matéria de ciência, a qual pareceria exigir que se ouvisse seriamente a geologia diluviana – pelo menos em seus aspectos empíricos. Os geólogos diluvianos são agora os céticos, pedindo um novo exame, de mente aberta, de múltiplas hipóteses, na investigação do passado da terra.” (p.14)

O mundo dá voltas, caro leitor… o mundo dá voltas…

“… conforme você for lendo os próximos capítulos, pode pesar as evidências e concluir que há 70% de probabilidade de que o argumento contra o Dilúvio é válido. Então, pode ler o próximo capítulo e concluir que a mesma probabilidade é de apenas 20%. Essa incerteza demonstra que, embora a geologia diluviana não seja vencedora em cada tópico do debate, ela é, certamente, uma competidora.” (p.14-15)

 É importante que os detratores do criacionismo leiam este parágrafo de novo. Temos modelos, sim, que também possuem suas anomalias. Estimulamos a pesquisa e o questionamento, de modo que dentro do criacionismo há muito debate.

“…apenas a invalidação formal de um (modelo) pode resultar em uma firme conclusão de verdade ou falseamento. A rejeição automática da geologia diluviana na ausência de uma demonstração convincente de sua invalidade formal é sintoma de um rígido dogmatismo. (…) Se os geólogos seculares dizem que a geologia diluviana não é de modo algum competidora, eles estão, essencialmente, fazendo uma negação universal, o que exige grande quantidade de provas.” (p.15)

Provas estas que não possuem, até porque, ao invés de responderem propriamente, seguindo as regras do jogo científico, preocupam-se em fazer gracinha.

“Por que os geólogos seculares são tão indispostos a considerar alternativas teístas? Sua recusa é evidente: qualquer geólogo ou estudante de geologia que articule uma visão dessas encontrará fechada a estrada para uma carreira profissional de sucesso. As universidades seculares discriminam estudantes e professores nessa base (Bergman 2008). Nenhum periódico secular publicará ideias diluvianas. As indústrias de petróleo e de mineração seguem a academia e se recusam a considerar a exploração em um viés diluviano. Isto é um diagnóstico não de uma posição empírica confiante, mas de um monopólio arraigado.” (p.15)

Também é importante frisar o que os autores dizem em seguida. A posição bíblica é clara e tentar conciliá-la com qualquer teoria não bíblica origina um frankestein teológico, que acabará por matar seu criador.

“Apesar de todas as tentativas de misturar palavras e frases, o ensino bíblico de um dilúvio global de um ano de duração é irresistível. (…) Se o dilúvio foi local, por que se incomodar com uma Arca? (…) Se um barco assim flutuasse nas águas de um dilúvio local, ela viajaria corrente abaixo e rumo ao oceano, e não terminaria encalhada no topo de uma montanha. (…) Finalmente, e provavelmente o ponto mais importante, a teoria do dilúvio local impugna a honra de Deus. Ele prometeu a Noé nunca mais trazer à terra um dilúvio como esse. Se o dilúvio não foi o cataclisma global descrito em Gênesis, então a promessa de Deus era falsa – uma posição que nenhum cristão pode sustentar.” (p.16)

A Estrada Adiante

Se o modelo diluviano é assim tão bom, tão válido, tão coerente, por que então a sociedade não o adota nas indústrias de petróleo, mineração, etc?

“Incapazes de obter recursos (disponíveis aos acadêmicos seculares, como as bolsas de pesquisa), os diluvianistas precisam procurar apoio em outros lugares. Instituições privadas começaram a fornecer algum apoio, mas isso ainda é uma gota no oceano quando comparado à verba e mão de obra disponível aos geólogos uniformitaristas. Quem sabe que progresso seria feito na geologia diluviana onde mesmo uma pequena porcentagem dos mesmos recursos estiver disponível!” (p.16)

E aí que as instituições cristãs falham grandemente. O dinheiro que é gasto com futilidades, como shows, marchas-pra-jesus sem significado, senão a promoção de um denominação, edição de livros teologicamente execráveis, CDs sem qualidade poética ou musical (ou ambos, corrupção pastoral, deveria ser usado para amparar a pesquisa séria de quem está tentando mostrar o erro do pensamento moderno. (2)

“Uma vez que a natureza do conflito entre uniformitarismo e diluvianismo seja vista no contexto apropriado – o das cosmovisões competidoras – temos confiança que uma igualdade de condições se tornará mais aceitável às pessoas racionais. Afinal, os geólogos que advogam diferentes teorias dentro do uniformitarismo são, pelo menos, capazes de trabalhar juntos com uma atitude profissional. A discordância é mantida no nível da discussão objetiva e do debate. Não pedimos nada mais que a mesma cortesia profissional.”(p.17)

O mínimo que se espera da comunidade cientifica é abertura para questionar. Afinal, o discurso é: a ciência gosta de ser questionada; o cientista gosta que se prove que ele está errado; se você tiver um modelo melhor proponha e a comunidade o analisará.

Só que isso não acontece na prática. Bastou usar as palavras Deus, Bíblia, Dilúvio, surgem as palavras pseudociência, religião, impossível. E não se pára para ouvir a proposta, não. E trata-se o criacionista com desdém, embora muitos criacionistas sejam mais capazes, honestos e inteligentes que tantos outros não-criacionistas. Exemplos? Newton, Mendel, Georges Cuvier… há muitos, inclusive atualmente. Só não os deixam falar dessas coisas. Ficam fazendo gracinha acadêmica.

Referências e Notas

(1) Chronos é uma palavra grega usada para descrever o tempo, na sua qualidade mensurável. Por exemplo, uma hora é dividida em minutos, segundo que o minuto 2 vem depois do um, e assim por diante. Havia outro termo grego para tempo, kairos, que carregava o conceito de qualidade do tempo, algo não mensurável. Por exemplo, a felicidade envolvida naqueles dois minutos que se passaram. Andar de montanha russa pela primeira vez leva 2 minutos, mas parece uma eternidade – isso é kairós.

(2) Além, é claro de subsidiar missionários, pastores e trabalhadores sérios do Reino de Deus, que sofrem por não terem recursos, enquanto a Igreja gasta seu dinheiro naquilo que não é pão, aliás, que não é nada. Ao invés de fazer show deveríamos mostrar para o mundo a fé que nos foi confiada.

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