por Daniel Ruy Pereira

Livraço. Você pode comprar uma edição aqui, no Creation.com: http://austore.creation.com/catalog/rock-solid-answers-p-218.html

Essa semana recebi, por cortesia e amizade do Creation Ministries International, um exemplar do livro “Rock Solid Answers: the biblical truth behind 14 geological questions” (Respostas Sólidas como Rocha: a verdade bíblica por trás de 14 questões geológicas) (1), que é editado por Michael Oard (Mestre em Ciências Atmosféricas) e John K. Reed (que detém um phD em Geologia).

O livro é uma coletânea de artigos científicos de inclinação diluvianista. É isso mesmo que você entendeu: cientistas experientes que defendem, com evidências e lógica, segundo dizem, o Dilúvio. E é um livro de 2009, portanto, atual o bastante, embora provavelmente já esteja de certo modo desatualizado.

Como este livro não tem tradução em português, pensei em publicar minhas anotações aqui, na forma de resenhas dos capítulos, já que, em quase 5 anos de blog, nenhum assunto é tão lido aqui como este. Hoje já li o prefácio, para saber o que vem pela frente. E já adianto: gostei muito do que eu li.

As sessões deste artigo seguirão as sessões do livro, inclusive com os mesmos títulos. Vou priorizar as citações, comentando-as em seguida.

“O declínio e a ascensão da geologia diluviana”

Os autores começam fazendo um brevíssimo panorama histórico das ciências geológicas. Para explicar o declínio da aceitação da geologia diluviana – de modelo dominante a um objeto de ridículo – é preciso entender que o contexto filosófico da época (fins do século XVIII e início do XIX) era iluminista e positivista. O uniformitarismo (1) de Lyell foi adotado e tornou-se o modelo dominante. Na verdade, podemos dizer, como os autores, que formou-se um monopólio uniformitarista da geologia. Até as últimas décadas do século XX.

“Durante as últimas décadas do século XX, o fantasma de Georges Cuvier (1769-1832) voltou para assombrar a geologia aceita. O uniformitarismo de Lyell caiu diante do violento ataque de um catastrofismo secular ressuscitado, chamado por muitos de “neocatastrofismo” (p.7)

Mas por que os geólogos resolveram aceitar o catastrofismo, apenas com a ressalva sublinhada, com caneta marca-texto fosforescente, que a nova geologia diluviana surgida na década 1960, não fazia parte dessa aceitação?

“Pode-se dizer que os geólogos provaram que podem aceitar uma variedade de modelos históricos desde que excluam a Bíblia. No mínimo, as últimas décadas mostraram que as tendências em história geológica são guiadas por compromissos filosóficos – não científicos.” (p.7)

Como se explica essa rejeição da Bíblia?

“Alguns argumentam que a geologia diluviana, uma vez que se prende à Bíblia, não pode ser considerada. É evidente que essa posição ignora os compromissos igualmente religiosos daqueles que rejeitam a Bíblia.” (p.7-8)

A ciência não é pura, destituída de preconceitos e cosmovisões comprometidas com pontos de vista religiosos. Isso ficou claro pra mim quando li “A estrutura das revoluções científicas”, de Thomas Kuhn (2). O cientista é gente, cercado de gente, e quer ser aceito, obter bolsa de pesquisa, ser premiado. E até tem suas teorias de estimação, intocáveis, queridas, defendidas com a mesma paixão de um torcedor pelo seu clube de futebol. Afinal, tanto quanto o futebol, a ciência é uma atividade humana, feita por humanos.

“Os cristãos não são os únicos que reagem à nova compreensão das incertezas da ciência. O cientista não está mais no seu pedestal de meados do século XX. Alguns, como os pós-modernistas, simplesmente lavaram as mãos à possibilidade da verdade; denegrindo a verdade religiosa e a científica com igual deleite. Eles se opõem aos cientistas inflexíveis, que ainda creem ser a verdade possível, mas se apegam à ideia ultrapassada de que a ciência é o caminho da iluminação.” (p.8)

“Compromissos teológicos, metafísicos e epistemológicos existem em ambos os lados. Os cristãos estão dispostos a admitir os seus e mostrar como eles se integram bem com a ciência real e com a história real. Infelizmente, muitos secularistas resistem a isso, sabendo que suas assunções repousam sobre solo arenoso.” (p.8)

“Aqueles que se opõem à geologia diluviana utilizam conclusões guiadas por suas pressuposições da verdade inerente à sua própria posição, inclusive utilizando, em sua argumentação, processos uniformitaristas em um mundo neocatastrofista. Evidentemente, falham em reconhecer que tudo o que eles de fato fazem é encontrar novas e complicadas formas de dizer: ‘minhas pressuposições são diferentes das suas.'” (p.8-9)

Então, os autores concluem seu prefácio dizendo que, se o leitor analisar cuidadosamente o que for apresentado, o debate ficará, pelo menos para ele, mais esclarecido, e

“levará à descoberta que a geologia diluviana não só é uma alternativa legítima ao uniformitarismo e ao catastrofismo secular, como é uma porta a uma cosmovisão que oferece o panorama mais satisfatório de uma unidade da verdade ao longo do espectro do conhecimento.” (p.9)

Depois de ler este prefácio já estava fisgado. Concordo plenamente com os autores. Para quem não é cientista é difícil reconhecer a importância desse cuidado de contrabalancear posições distintas dentro da ciência. Muita gente carrega título de Bacharel, Mestre e Doutor e nunca parou para ler posições distintas das suas. Sejamos sinceros: quem gosta de ter sua cosmovisão, isto é, o conjunto de conceitos que usa para explicar o mundo à sua volta, abalado? Quem já passou por isso sabe que é um processo dolorido, sofrido mesmo, e solitário.

Frequentemente, sequer sabemos que há posições divergentes, já que os programas de TV quase nunca mencionam isso – e quando mencionam, é para caricaturar tais posições, ou citá-las como opinião de minoria, tendendo a desaparecer.

As pessoas se esquecem que, nas revoluções científicas, são as minorias que levam a teoria adiante, aos trancos e barrancos, contra tudo e todos. No processo, muita gente se convence da validade, muitos questionam, muitos se recusam a olhar para ela com seriedade. (4) Dizem que, no escritório de Darwin, havia uma cópia nunca lida dos trabalhos sobre hereditariedade que um certo Gregor Mendel vinha fazendo na República Tcheca. Ironicamente, lá estava o mecanismo tão sonhado por Darwin para explicar as variações nas espécies. (5) Só nas primeiras décadas do século XX é que começaram a perceber as implicações daquele trabalho do monge agostiniano. Demorou, mas pegou.

Aconteceu o mesmo com a deriva continental de Wegener (5), com o heliocentrismo de Brahe e Copérnico. É difícil abandonar algo no que trabalhamos a vida toda, e que faz tanto sentido para nós. Mas a ciência exige humildade de reconhecer que temos pouco conhecimento sobre pouca coisa – ainda mais em nossos dias de especialização cada vez maior. (6)

Por isso que vou analisar o que vier neste livro. Afinal, todo estudo é uma aventura epistemológica. Quem sabe que tesouros descobrirei aqui?

Referências e notas

(1) OARD, Michael J.; REED, John K. Rock solid answers: the biblical truth behind 14 geological questions. Green Forest: Master Books, 2009.

(2) O uniformitarismo diz que as mesmas forças geológicas que atuam hoje no planeta foram responsáveis por sua formação e moldagem. Ou seja, essas forças e fenômenos não teriam mudado, em toda a história geológica da Terra. Também originou o moto “o presente é a chave para o passado.”

(3) KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas.São Paulo: Perspectiva, 2007.

(4) Veja a Ref. 3.

(5) HELLMAN, Hal. Grandes debates da Ciência: dez maiores contendas de todos os tempos. UNESP: São Paulo, 1999.

(6) Ver ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e suas regras. 12 ed. Loyola: São Paulo, 2007. Rubem Alves diz que vai chegar uma hora em que saberemos cada vez mais sobre cada vez menos. Extrapolando, um dia saberemos tudo sobre nada!

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