Este artigo, na verdade, é a resposta a dois comentários do leitor Juarez Silva, sobre os artigos “O Dilúvio de Noé e  o Épico de Gilgamesh” e “Resposta a críticas de textos bíblicos (1)“. Como existe muito material nas perguntas do Juarez, preferi transformar a réplica em novo post. É direcionado ao Juarez, mas é possível ler lido, naturalmente, por todos.

por Daniel Ruy Pereira

Olá, Juarez.

Muito obrigado por sua visita e participação.

De cara, peço desculpas por não ter respondido seu primeiro comentário. Passou batido mesmo. (Acho que por causa da data em que foi postado. Em 16 de junho eu estava meio doido com correção de atividades dos alunos e feira cultural na escola… O que não é desculpa, claro. Como diz um presbítero lá da igreja, “explico, mas não justifico”!)

Mas vou responder tudo de uma vez, agora. Vamos lá. Vou dividir a resposta em tópicos porque acho ser melhor para entender, já que será uma resposta longa.

Seu primeiro comentário, feito no artigo “O Dilúvio de Noé e o Épico de Gilgamesh”, basicamente consiste em duas críticas:

  1. A Bíblia não é digna de confiança por ter sido “TREMENDAMENTE EDITADA em N traduções e revisões de interesse RELIGIOSO DOUTRINÁRIO ao longo dos séculos” (a ênfase é sua).
  2. A coerência dos textos sumérios é bem maior, em vista do conhecimento tecnológico atual, que o bíblico, o que provaria sua superioridade em relação ao Gênesis.

Quanto à primeira crítica, Juarez, francamente, você não sabe o que está dizendo. A mesma Bíblia, que você diz ter sido editada para proteger interesses religiosos, condena as ações da Igreja Católica medieval, as Cruzadas, a Inquisição, as perseguições dos protestantes entre si, os intensos atritos entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte, as teologias da prosperidade pregadas no Brasil, o mau testemunho dos falsos “cristãos” e os pecados dos cristãos verdadeiros. (Isso sem falar em condenar seus próprios personagens internos. Abraão, Jacó, Moisés, Davi e Salomão, que são ícones tanto do judaísmo como do cristianismo, estão pintados lá, com todas as cores, inclusive seus pecados mais horríveis. Com a mentalidade antiga de apagar os erros do monarca e deixar apenas seus feitos e conquistas, você acha que isso teria ficado lá até hoje? Por favor… ) Mesmo assim, ainda é o livro sagrado de todos eles. Basta que você pegue um texto qualquer, digamos, Mateus 6:19: “Não acumuleis para vós tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e os ladrões escavam e roubam.” Ora, Juarez, você realmente acredita que a mentalidade católica do século X ou XI ou XVI teria mantido esse texto aí? A Reforma Protestante aconteceu justamente por causa de textos como esse.

Além disso, você pode tranquilamente ir até a língua original hoje. Recomendo uma fonte muito simples: “Aprenda o Grego do Novo Testamento”, de John H. Dobson. Você poderá estudar a língua original e verificar por si mesmo quantas alterações existem nos melhores manuscritos, como o Textus Receptus, ou o Novum Testamentum Graece, de Nestle-Aland, 4a. edição, no Novo Testamento Trilíngue, ou ainda na Septuaginta, que é a tradução grega do Velho Testamento, datada entre o terceiro e primeiro século ANTES de Cristo. Compare e você verá que essas alterações não existem. Alternativamente, você pode ler a Nova Versão Internacional (2000), que contem honestas notas de rodapé com todas as variações encontradas até sua data de publicação. Compare e veja se as doutrinas cristãs ficam de algum modo prejudicadas. Eu já fiz isso algumas vezes, e não há prejuízo algum.

Além disso, só como exemplo pra você não insistir mais nessa história, a tradução de Erasmo, católico, de 1516 e a tradução de Elzevris, de 1633, contém apenas 300 palavras diferentes – menos de 0,002% do total (140.000 palavras). Considere também o estilo da tradução aqui, que varia conforme o tradutor.

Termino essa parte citando R.V.G. Tasker:

O pesquisador do texto do Novo Testamento está numa situação muito mais cômoda. É certo que os originais de todos os livros do Novo Testamento desapareceram pouco depois que foram escritos e que numerosas copias foram feitas por escribas pouco instruídos e por outros indivíduos que se preocuparam mais pelo sentido geral dos livros, que eram para eles a mensagem da salvação, que pela precisão e exatidão. Também é correto afirmar que isso ocorreu até que todos os livros fossem reconhecidos como parte das Escrituras. É verdade também que muitas das melhores cópias, usadas nas igrejas locais mais importantes, foram destruídas durante as grandes perseguições que precederam a conversão de Constantino. Não obstante, possuímos hoje no Codex Sinaiticus, que está hoje no Museu Britânico, todo o Novo Testamento; além do Codex Vaticanus de Roma, também do século IV, que só faltam os últimos quatro capítulos de Hebreus, as Epístolas Pastorais, Filemom e Apocalipse. Além desses, O Codex Ephraimi de Paris contém fragmentos de todas as partes do Novo Testamento; e o interessantíssimo, todavia estranho, Codex Bezae de Cambridge é um documento de importância para o estudo dos quatro evangelhos e a maior parte dos Atos dos Apóstolos.

Todos esses testemunhos antigos, de tanto valor, eram conhecidos quando se fez a revisão da Bíblia em 1881; e se reconheceu que eles estão mais próximos do original, que a grande parte dos manuscritos posteriores que contém o texto que logo se converteu no padrão, durante o Império Bizantino e que formou a base do Novo Testamento Grego de Erasmo e da Versão Inglesa de 1611. Também se reconheceu que existem textos pré-bizantinos conservados em numerosos manuscritos posteriores, alguns dos quais datam do século nono ou mais tarde, quando a escrita chamada cursiva, havia suplantado a velha escrita uncial ou de maiúsculas. (1)

Você pode ler esse texto completo aqui (veja a referência para mais informações). Acho que basta, mas se ainda tiver dúvidas sobre isso pode perguntar. Só não vá afirmando algo que já foi tão refutado tantas vezes.

Sobre a segunda crítica, à suposta superioridade do texto sumério em relação ao Gênesis, acho que você não leu o texto de Sarfati direito, porque não é possível afirmar essa superioridade depois de le-lo e comparar os dois relatos. Faça o seguinte: leia de novo e, por favor, aponte aquilo que você acha que é superior nesse relato.

O segundo comentário

Seu segundo comentário é sobre minha resposta ao Rogério. E ele tem três críticas.

  1. A cronologia bíblica é pequena quando comparada aos métodos de datação radiométrica, como o K-Ar, U-Pb etc. (o C14 não seria útil para datas superiores a 5.000 e poucos anos, já que sua meia-vida gira em torno disso), o que a invalida.
  2. Os estágios de hominídeos provam uma evolução, essa porém, feita ou conduzida por intervenção extraterrestre, o que, para você, é muito mais “lógico”. Além disso, a romantização dos criacionistas estaria permeada de histórias assim, e os extraterrestres-supervisores dariam conta dessa explicação.
  3. Você propões várias questões sobre o Dilúvio: como Noé recolheu TODAS as espécies de animais, sem contar as espécies extintas?; como se explica o fóssil de Luzia?; a megafauna teria vivido junto com os homens?; ela se extinguiu no dilúvio?; por que não há fósseis da megafauna após o dilúvio?

Já respondi à sua primeira crítica em vários dos artigos publicados aqui no blog (2, 3), mas vou dizer o seguinte: os métodos radiométricos não invalidariam o relato bíblico, primeiro porque são questionáveis, segundo porque existem muitas evidências para a juventude do planeta Terra. Vou citar uma do MÊS PASSADO: a sonda Cassini descobriu lagos de metano próximo ao Equador de Titã, a maior lua de Saturno. Esse lago tem a distância de São Paulo a Atibaia. Em Titã, o metano é líquido e passa por um ciclo, como o da água aqui. Ele evapora e chove – mas a chuva só ocorre nos polos. O que isso significa? Que É IMPOSSÍVEL que esse lago exista, uma vez que em 4,5 bilhões de anos ele já teria evaporado há muito tempo, em MILHARES (não milhões nem bilhões) de anos.

Os esqueletos de hominídeos encontrados não provam evolução alguma, já que existe mais debate que acordo sobre eles. E mais: muitos fósseis antigos voltaram a ser questionados e descobriu-se que vários deles eram apenas humanos normais com artrite ou outras doenças, fora as fraudes. Repito, quando há mais desacordo que acordo, não pode haver certeza, a menos que se queira muito que a certeza exista… (4)

Sobre os alienígenas, você faz uma proposta nem um pouco científica. Primeiro, transfere o problema da origem de lugar: se alguém supervisionou nossa evolução, quem supervisionou o supervisor? E o supervisor do supervisor do supervisor? E assim por diante. Uma hora, vai esbarrar de novo no problema, e não vai ter resposta. Além disso, não existe nenhuma evidência disso, pelo contrário, o que existe é a evidência de que o DNA foi criado instantaneamente, já que ele produz as proteínas que o produzem, o que torna o processo cíclico, devendo existir completamente desde o início. É bem complicado supervisionar algo assim, o que dirá direcionar esse processo para onde se quer, já que a própria evolução admite ser não-direcionada e absolutamente cega… Veja mais informações no livvro “Invasão Alienígena”, que estou traduzindo semanalmente aqui no blog (é só clicar no ET da coluna da direita que você poderá baixar os fascículos gratuitamente. Cique aqui: https://considereapossibilidade.wordpress.com/2011/03/18/livro-invasao-alienigena-de-gary-bates-fasciculo-001-para-download/ e pode ir direto para o capítulo 4)

Para responder à crítica 3, vou citá-la de novo, e responder em negrito entre as questões.

Você propões várias questões sobre o Dilúvio (em destaque, as palavras-chave para minha resposta): como Noé recolheu TODAS as espécies de animais, sem contar as espécies extintas? (A Bíblia nunca disse isso, antes diz que os animais “viriam” até ele (Gn 6:20). Deus está dizendo que os traria até Noé. Além disso, sabemos que muitos animais têm um tipo de sentido anti-catástrofes: nos tsunamis de 2004, na Indonésia, vários elefantes foram para as montanhas, dias antes do evento catastrófico.); como se explica o fóssil de Luzia?; (já dei algumas possibilidades. Lucy é classificada como Australopithecus, mas não é necessário apelar para a evolução para explicá-la, já que alguns cientistas evolucionistas nem a consideram mais ancestral humano. (4)) a megafauna teria vivido junto com os homens?; (sim. Uma evidência é haver criaturas semelhantes a dinossauros em um selo mesopotâmico, de cerca de 3000 a 4000 a.C. Veja a foto abaixo) ela se extinguiu no dilúvio?; (no Dilúvio e depois dele) por que não há fósseis da megafauna após o dilúvio? (Juarez, os fósseis são, virtualmente todos, posteriores ao Dilúvio, porque para um fóssil existir é preciso ter ação RÁPIDA de água, RÁPIDA sedimentação e pressão. Tudo isso está incluso no Dilúvio.)

"É um pássaro? É um leão? É um dinossauro?"
“É um pássaro? É um leão? É um dinossauro?”

Já que você usou uma referência legal ao título do blog, vou fazer o mesmo. Juarez, quais evidências temos de que “energias” influenciam nossas vidas? Qualquer “evidência” que você citar poderá ser explicada naturalmente, como a maioria dos “milagres” vistos hoje. A ciência serve para isso – quebrar as pseudociências e superstições, e nos dar um terreno seguro para pisar. Mesmo assim, duvido que você deixaria de acreditar, porque a crença dá sentido. Ninguém está te impondo o  cristianismo. Ele está aí para ser analisado. Pode rejeitá-lo, se quiser. Só não o faça sem analisá-lo, porque ele merece uma análise mais cuidadosa (afinal, não mereceria algo que diz nos reconciliar com Deus e nos livrar de um potencial inferno?) Mas se você quiser questionar toda a sua cosmovisão e “considerar a possibilidade” que o Deus da Bíblia fornece todas as respostas na Bíblia, garanto que você não vai se decepcionar, como eu jamais me decepcionei, e o tempo passando e as evidências do mundo natural só aumentam minha admiração por Ele. O apóstolo Tomé considerou depois de ver as evidências. Pense nisso.

Referências

(1) (1) TASKER, R.V.G. O texto do Novo Testamento: manuscritos e versões? Monergismo.com, acesso em 09/08/2012. Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/texto_novotestamento.htm.

(2) WALKER, Tas. Como funcionam os métodos de datação. Considere a Possibilidade, 29/04/2009. Disponível em: https://considereapossibilidade.wordpress.com/2009/04/29/como-funcionam-os-mtodos-de-datao/

(3) TAYLOR, Steve; MCINTOSH, Andy; WALKER, Tas. O colapso do tempo geológico. Considere a possibilidade, 27/03/2009. Disponível em: https://considereapossibilidade.wordpress.com/2009/03/27/o-colapso-do-tempo-geolgico/

(4) ANDERSON, Daniel. No more love for Lucy? Creation.com, 4/05/2007. Disponível em: http://creation.com/no-more-love-for-lucy. Mais algumas palavrinhas do próprio autor sobre isso: “No modelo bíblico, Lucy é considerada um antigo tipo de símio cujo tipo foi criado de forma especial por Deus no sexto dia da criação… Baseado em uma análise compreensiva do esqueleto, Lucy e outros membros no gênero Australopithecus eram provavelmente símios arborícolas que tinham bipedalidade bastante limitada, como os símios atuais.”

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