por Daniel Ruy Pereira

É comum ouvirmos pessoas dizerem que colocar Deus em uma explicação é apelas para um “deus das lacunas”, um subterfúgio para evitar dizer  “não sei”. Mas existe muita diferença em usar um “deus de lacuna” e explicar determinado fenômeno com base em uma inteligência, ou projeto.

Por exemplo, o caso da ATP sintase, sobre a qual publiquei um post, da autoria de Brian Thomas, em 18 de setembro de 2009 (1). Essa enzima produz ATP, a molécula responsável por fornecer energia para o metabolismo celular. A ATP sintase produz essa molécula de modo incrível. Você pode ler o artigo todo aqui, mas vou apenas citar Thomas para facilitar.

A vida depende de uma incrível enzima chamada ATP sintase, o menor motor giratório do mundo. Este pequeno complexo de proteínas produz um composto rico em energia, o ATP (adenosina trifosfato). Cada uma das 14 trilhões de células do corpo humano conduz esta reação cerca de um milhão de vezes por minuto. Mais da metade do peso corporal do ATP é feito e consumido no mesmo dia!

Depois de analisar muitos aspectos dessa enzima, Thomas conclui:

A ATP sintase fala da sabedoria, inteligência, capacidade ou racionalidade do seu criador… (2)

Questionando essa conclusão, o leitor Silvio Cicoti, escreveu nos comentários desse artigo de Thomas:

Caríssimo:
“a origem sobrenatural é possível em um universo teísta”;
Puxa, em que universo vivemos?? Toda vez que algum “cientista criacionista” chega a um beco sem saída abre a mão de alguma divindade. Foi deus quem fez. Tá explicado!

“Eu afirmo que uma tendência criacionista é claramente verdadeira”
Como você pode afirmar algo baseado em crença?

Não seria mais sincero com sua profissão escolhida, dizer:
Até o momento desconheço o processo evolutivo da ATP sintase, somente existem suposições.
Ou pelo menos não conheço qualquer outro estudo que compreenda melhor a evolução da ATP.

Só que como você deve saber a ciência é naturalmente evolutiva. O cérebro que conhecíamos a 40 anos como portador de mapas fixos hoje sabemos que é plastico, e se molda mesmo na vida adulta. E essa evolução no conhecimento não foi fácil, pois em muitos momentos a ciência exige um pouco mais do que esforço, e tempo. Justamente para não ser pautada em erros causados pelo desejo de estar certo.

Não vejo problema algum um cientista acreditar em deus.
O problema é quanto tenta justificar sua crença a partir da razão.

Abraços.

Como as críticas do Silvio são muito interessantes, resolvi transformar a resposta a elas em um novo post. A partir de agora, vou responder dirigindo-me a ele, mas a resposta vale para todos.


Olá, Silvio.

Muito obrigado pela visita e participação.

Vou responder a suas críticas e começo perguntando o seguinte (você já deve conhecer o argumento, mas vou modificá-lo um pouco para tornar mais lúdico): imagine um lugar totalmente deserto, digamos, no Taylor Valley, na Antártida. Veja a foto para facilitar.

Taylor Valley, na Antártida. Imagem de Ross Sea Info.
Taylor Valley, na Antártida. Imagem de Ross Sea Info.

Pois bem. Você está andando sozinho por lá, quando encontra, no meio dessa paisagem, um microscópio óptico que amplia 1000x uma amostra de célula animal. Lembre-se: você está sozinho e não há nenhum indício de companhia por ali, nem pegadas, restos de fogueira – nada. Do jeito que está na foto. Então, naturalmente, vem a pergunta “De onde veio esse microscópio?” Qual é a resposta mais lógica, Sílvio? Você dirá: alguém colocou ali. (3)

Só que sua resposta não é científica, meu amigo. É baseada na crença purinha de que um microscópio é fabricado por seres humanos, até porque você já viu microscópios antes. Para ser científica, ela precisaria ser testada e colocada em cheque por outros colegas de profissão. Depois, sua hipótese precisaria ser testada e falseada. então, te pergunto: “Como você pode fazer uma afirmação baseada em crença”?

Além disso, é claro que a ciência evolui. A cada dia aprendemos mais e revemos conceitos antigos, comprovando sua veracidade ou sua falibilidade. A ciência é assim. Precisa ser assim. Concordo plenamente com você. É por isso que o fato de a sonda Cassini ter descoberto lagos de metano no equador de Titã, a maior lua de Saturno (4), mostra que é preciso repensar a idade do sistema solar. É impossível  que esses lagos existam há 4 bilhões de anos. Mas eles podem ter milhares de anos.

Ou, então, a descoberta de que não existem fendas branquiais em embriões humanos (5). Aquelas estruturas conhecidas como fendas branquias, que Haeckel disse serem resquícios de uma ancestralidade comum com os peixes, nada mais são que estruturas iniciais (6), que formarão o rosto do bebê. Inclusive, a BBC produziu uma animação mostrando isso.

“Um olhar atento para a animação revela que o rosto se forma a partir de três características principais que giram no lugar, encontrando-se com o philtrum, a depressão que fica acima do lábio superior. A transformação ocorre com cronometragem precisa e um atraso pode resultar em um lábio ou plato leporino.” (grifo meu)

Você diz que seria mais honesto dizer que desconheço o processo evolutivo da ATP sintase, e que só existem suposições. Mas nesse caso, eu estaria assumindo que processos evolutivos acontecem – o que não é verdade! Não existe uma única evidência mostrando que bactérias produzem protozoários, ou fungos; nem que RNA mergulhado em uma solução coloidal se insira em um colóide e se reproduza. É muito mais honesto, Silvio, dizer que não existem evidências de uma evolução darwinista. Porém, existem muitas evidências de que alguém colocou o motorzinho da ATP sintase ali – até porque já vi motores e sei que são feitos por engenheiros.

Finalmente, Silvio, eu também não vejo o menor problema em um cientista acreditar em Deus ou não. O problema é quando ele tenta se apegar à sua crença de forma irracional, contrariando evidências que estão bem diante de seus olhos.

Abraço e Deus abençoe,

Daniel.

Referências e notas

(1) THOMAS, Brian. A ATP Sintase. Considere a Possibilidade, 18 setembro 2008.

(2) idem.

(3) Ou será que dirá: “Surgiu totalmente por acaso, ao longo de bilhões de anos de evolução, por ação de mutações e seleção natural?

(4) THOMAS, Brian. Young-looking methane lakes on Saturn’s moon. Institute for Creation Research, 16 julho 2012.

(5) THOMAS, Brian. Do People Have ‘Gill Slits’ in the Womb? Institute for Creation Research, 20 julho 2012.

(6) Aliás, já está demonstrado que os desenhos de Haeckel foram tentativas de fraude. Veja a Ref. 5.

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