Este post faz parte de uma série de sermões sobre a Carta Universal de Judas, que preguei na Igreja Evangélica SOS Jesus em Santo André, em 2009.


por Daniel Ruy Pereira

Suponha que o Brasil declare guerra hoje. As Forças Armadas se reúnem e verifica-se que são necessários mais soldados. O Presidente aparece na TV e convoca voluntários para lutar pelo país. Mas não pode ser qualquer pessoa. Os soldados devem ter determinadas características para poderem lutar.

Ou então, imagine que você foi chamado para uma entrevista de emprego. Durante a entrevista, o funcionário do Recursos Humanos (RH) te faz as seguintes perguntas:

  • O que você mais quer para a sua vida?
  • Quais são as suas principais características?
  • O que você mais quer para estes concorrentes?

A última pergunta, com certeza, é a mais complicada! Mas as outras não ficam atrás. O que responder ao funcionário? Essas perguntas também devem ser respondidas pelo voluntário para ir à guerra – a diferença é que ele responde para si mesmo.

O texto que lemos responde a essas perguntas para o cristão. Deus, através de Judas, mostra o que é mais necessário para se batalhar pela fé cristã. Mas, então, o que precisamos para ser bons soldados de Cristo? Como dizer ao mundo, à nossa família, colegas de trabalho e amigos o que somos e o que queremos?

A chave para essas perguntas está nessas características vitais do soldado de Cristo. Eu louvo a Deus porque, estudando esse texto, percebi que é um dos mais claros da Bíblia sobre o que um cristão é e quais os seus objetivos. Para entendê-lo, vamos dividí-lo em três partes.

O desejo do soldado para si (v.1a)

A primeira coisa que um soldado precisa é saber o que quer para si. Ora, na guerra, ele quer sobreviver! Mas também, quer vencer, conquistar tal território inimigo… Da mesma forma, podemos perguntar: o que o cristão mais deseja para si? Vejamos o primeiro versículo:

“Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago”.

Esse Judas não é o apóstolo. Provavelmente é o irmão físico de Jesus. (*) Embora muitos não gostem dessa ideia, a Bíblia é bem clara. Em Mt 13, os moradores de Nazaré estavam impressionados com Jesus, e perguntaram:

De onde vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? Não é este o filho do carpinteiro? O nome de sua mãe não é Maria, e não são os seus irmãos Tiago, José, Simeão e Judas? (Mt 13:54-55)

Veja que, embora Judas fosse irmão de Jesus, não usou isso como título. Preferiu ser chamado de servo de Jesus. Como isso é importante! Há pessoas que se vangloriam do cargo que têm na igreja. “Qual é a sua religião?” – perguntam seus amigos. E ele responde: “Sou pastor”, ou “sou diácono”. Mas ninguém responde “Sou servo de Jesus”. Nos nossos dias, apareceram homens que se acham dignos de serem chamados “apóstolos”, sem que cheguem sequer perto do critério estabelecido em Atos (ver Jesus, acompanhar seu ministério, ouvir seus ensinos etc). Gostam de ser conhecidos por seus cargos, mas não fica claro se são servos de Jesus Cristo. Afinal, é difícil imaginar apóstolos em BMWs zero-quilômetros. O que pode ser melhor que ser servo de Jesus? O que éramos antes de conhecer o senhor? Mentirosos, vulgares, adúlteros, pecadores da pior espécie. Hoje, Deus nos chama de seus servos. O que pode ser melhor? Como diz o cantor Paulo César Brito, “ser servo é promoção”.

Certa vez a família de Jesus quis falar com Ele, enquanto ensinava a multidão. Talvez pensassem que, por serem parentes, tivessem maior direito que os outros. E o que Ele respondeu?

“Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” – perguntou ele. E, estendendo a mão para os discípulos, disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Pois quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” (Mt 12:48-49)

Judas entendeu isso e foi completamente transformado. Tanto que, agora, ele prefere ser servo de Jesus. Além disso, Judas também é humilde. Havia duas pessoas ilustres em sua família. Uma, o Senhor Jesus, e a outra, Tiago, líder da Igreja de Jerusalém. Na época de Judas era comum a pessoa se apresentar como “Fulano, filho de Ciclano”. Por que então ele se apresenta como “irmão de Tiago”? A explicação é que este Tiago era muito famoso na Igreja. O estilo da carta é um tanto judeu (veja o número de referências ao Antigo Testamento), o que dá a entender que os leitores provavelmente eram judeus. Alguns acreditam que essa carta foi escrita em Jerusalém. Portanto, só pode ser o irmão de Jesus, já que o apóstolo Tiago havia sido morto por Herodes, já em Atos, e essa carta foi escrita muito tempo depois (provavelmente em 65 a 70 d.C., embora muitos discordem dessa data). E as outras pessoas com esse nome no Novo Testamento não tinham a influência que este Tiago tinha.1 Porém, note que Judas não se apresenta como irmão de Tiago, para solicitar ou reivindicar que as pessoas o ouçam. É como se ele dissesse: “Sou irmão de Tiago. Mas e daí? Sou menor que ele, e ele é maior que eu”.

Estive pensando sobre Judas e é interessante que seu nome, nas Escrituras, só é citado em Mt 13:55, Mc 6:3 e aqui em sua carta. Todas as outras vezes em que ele aparece está incluído no grupo “os irmãos do Senhor”. E não se sente mau por isso. Judas podia ser o caçula da família, mas ainda assim, Deus o escolheu para escrever um livro da Bíblia, honra dada a apenas alguns homens. Ele ilustra aquele grande princípio de Jesus:

Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mt 20:25-28)

Nunca seremos bons cristãos se não servirmos, humildemente, o nosso irmão. Devemos considerá-lo maior que nós. Devemos querer isso. Se não quisermos, ao ponto desse comportamento começar a ser natural em nós, então falhamos como cristãos. O cristão só faz diferença quando ele serve. Martin Luther King Jr. personificou este conceito. Veja o que ele disse à sua igreja dois meses antes de sua morte:

     Se alguém aqui estiver presente quando chegar a minha hora, não quero um enterro prolongado. Se alguém fizer o elogio fúnebre, digam-lhe que não fale demais. Às vezes, penso no que eu gostaria que essa pessoa dissesse.

     Digam-lhe que não mencione que eu tenho o Prêmio Nobel da Paz – isso não é importante. Digam-lhe que não fale que eu tenho mais de 300 ou 400 prêmios, isso não é importante. Digam-lhe que não fale na Universidade onde eu estudei. Gostaria que alguém falasse no dia em que Martin Luther King Jr. tentou dar a vida para servir aos outros. Gostaria que alguém falasse do dia em que Martin Luther King Jr. tentou amar alguém.

     (…)

     Sim, se quiserem, digam que eu fui um mensageiro. Digam que fui um mensageiro da justiça. Digam que eu fui um mensageiro da paz. Digam que eu fui um mensageiro da retidão. E todas as outras coisas supérfluas não terão importância. Não terei dinheiro para deixar, não terei as coisas boas e luxuosas da vida para deixar, quero deixar apenas uma vida de serviço.

     Se puder ajudar alguém à minha volta, se puder alegrar alguém com uma palavra ou uma canção, se puder mostrar o caminho a alguém que está andando errado, não terei vivido em vão. Se puder cumprir o meu dever de cristão, se puder levar a salvação ao mundo arrasado. Se puder difundir a mensagem como o Mestre ensinou, então, minha vida não terá sido em vão.2

A Consciência do soldado sobre si (v.1b)

A segunda pergunta que o funcionário do RH fez foi: “Quais as suas principais características?”. É evidente que, para respondê-la, você precisa saber quem você é. Como o soldado: se não souber no que ele acredita, como pensa o seu país e quais as suas limitações, não pode lutar. Ninguém vai à guerra achando que é o Rambo, pois pode não ser muito eficiente no combate. O cristão, soldado de Cristo, também deve saber quem ele é. E essa resposta está na parte b do versículo 1.

“aos que foram chamados, amados por Deus Pai e guardados por Jesus Cristo…”

A primeira coisa que percebemos é que o cristão sabe que foi chamado. Mas chamado para quê?

E vocês também estão entre os chamados para pertencerem a Jesus Cristo… e chamados para serem santos. (Rm 1:6-7, grifo nosso).

Às vezes, somos místicos demais. Cantamos músicas que dizem que temos um chamado, mas chamado de quê? Com frequência isso se refere à pregação do evangelho. Só que não podemos esquecer que o chamado da pregação é secundário. Antes de tudo, fomos chamados para pertencer a Cristo, e para sermos santos. Isso é reconfortante! Se nos sentimos abandonados, a Bíblia lembra que temos um dono: pertencemos a Jesus. Se nos sentimos incapazes de ser santos, incapazes de cumprir os mandamentos de Deus, é preciso lembrar que Deus nos chamou para sermos santos, e é Ele quem opera em nós a santificação. Quando o dono de uma empresa contrata uma pessoa para trabalhar, ele não lhe dá o treinamento necessário? Da mesma forma, Deus é quem nos ensina a sermos santos. Este é um ideal maravilhoso para nossas vidas!

O cristão também sabe que é amado por Deus. O cristão verdadeiro não tem a menor dúvida de que é amado por Deus, embora não consiga entender o por quê. O cristianismo tem 2000 e poucos anos de existência e, até hoje, nenhum teólogo sério conseguiu responder à pergunta: “Por que Deus me ama?” É uma pergunta sem resposta. Sabemos que somos pecadores e indignos, mas, mesmo assim Deus nos ama e tomou o nosso castigo sobre si, na pessoa de Seu Filho querido, para que pudéssemos ser salvos.

Oh! por que Jesus me ama?

Eu não posso t’explicar!

Mas, a ti também te chama,

Pois deseja te salvar!3

E o cristão sabe que é guardado por Jesus. Ou, sabe que é protegido Jesus. Assim Judas conclui essa parte sobre a consciência do cristão. O seu objetivo é que o leitor visse essas expressões e fizesse uma auto-avaliação. “Eu sou isso o que Judas está dizendo?” Se fosse, a carta era destinada a ele. (Mas eu duvido que, se não fosse, estaria lendo esta carta!)

Há um detalhe importante aqui. Judas usa um tempo diferente do verbo “ir” (foram). Aos que foram guardados por Jesus. Escrito assim, entende-se que a ação de guardar aconteceu no passado, mas ainda continua hoje. Seria assim: “Aos que foram (e continuam sendo) guardados por Jesus Cristo.” Guardados do quê? Pela forma como o autor escreve, não parece que se refira a acidentes físicos, dos quais os anjos nos guardam. É algo mais importante e terrível. Fomos e continuamos sendo guardados da perdição. Do inferno. Quando nos entregamos a Jesus, ficamos sob suas asas. Como os pintinhos ficam debaixo das asas da galinha para serem protegidos.

Às vezes nos sentimos fracos espiritualmente, achando que estamos prestes a cair na fé e voltarmos ao caminho do inferno, mais uma vez. Mas é então que precisamos lembrar que Jesus nos guarda de cairmos (Romanos 14). Ele nos protege sob suas asas e nos ampara. Deus é poderoso para nos guardar!

O desejo do soldado para o seu irmão (v.2)

Chegamos à última pergunta feita pelo RH: “O que você deseja para os seus concorrentes?” É algo difícil de responder! No mundo empresarial, as pessoas tendem a desejar o melhor para o outro, contanto que não fique no caminho. É triste que isso aconteça em algumas igrejas também, porque é óbvio que este comportamento não tem nada de cristão. Um soldado sempre quer o melhor para o seu companheiro no campo de batalha. O que, então, um cristão deseja para o seu irmão? Versículo 2:

“Misericórdia, paz e amor lhes sejam multiplicados.”

Judas ora e, em sua oração, ele pede que sejam multiplicados, amontoados sobre os cristãos essas três coisas. Poderíamos considerá-las separadamente, mas, do jeito que Judas pede, elas estão completamente interligadas. (Seguimos, assim, a análise do livro de Matthew Henry).

O que um soldado pode desejar de melhor para o seu companheiro senão que ele sobreviva? No livro “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien, um grupo de nove amigos sai com a missão de destruir o Anel. No meio do caminho, porém, eles se separam, e cada um segue um destino diferente, mas em todos os momentos eles se preocupam um com o outro, e torcem para que todos fiquem vivos.

Não é assim com o cristão? De forma muito mais profunda, ele deseja que seu irmão seja coberto de misericórdia. Ou seja, deseja que o Juiz perdoe o réu, que é culpado. Deseja que seu irmão tenha paz, porque quer que esse mesmo réu agora tenha uma vida que nunca teve antes, com tranquilidade. E deseja também amor. Que esse réu possa ser amado pelo Juiz e por outras pessoas, e possa ser, ele mesmo, alguém que ama os outros – para que possa cumprir a lei.

Perceba que isso é uma história da salvação. Judas está pedindo a Deus que conserve e desenvolva a salvação de seus leitores. Quão diferente tem sido a atitude de muitos! Quando veem que o irmão pecou, “caiu na fé”, não se entristecem, não ajudam; apenas recriminam e desejam justiça. “Está vendo?” – dizem – “Eu avisei que iria cair. Agora caiu e não vai mais se levantar.” Isso é uma insanidade sem tamanho! É como estar no campo de batalha, e ver que o companheiro ao lado levou um tiro e está morrendo. Você tem o remédio, e o outro soldado está pedindo ajuda. Então você olha para ele e diz: “Quem mandou ficar no caminho da bala? Agora, vire-se.” Isso não é um cristão! O cristão se importa com o próximo, e quer o melhor para ele, sempre. Se ama o próximo, quanto mais deve amar o seu próprio irmão em Cristo Jesus!

Conclusão

Somente depois de saber o que quer para si, quem é, e o que quer para os outros que o cristão estará plenamente apto a batalhar pela fé, e cumprir a missão que Deus lhe designou. Estes são os fundamentos do cristianismo: a salvação pela fé e o serviço humilde. Por isso dizemos que o cristão é um humilde servo de Deus, que conhece bem o Senhor e se preocupa com o irmão. Aplicar essas verdades em nossas vidas é entrar na batalha com a vitória garantida.

Referências e notas

* De acordo com a Bíblia de Estudo NVI, p. 2161.

(1) BÍBLIA DE ESTUDO NVI. São Paulo: Vida, 2003. p. 2116, 2161. (NVI)

(2) Retirado de Jilton MORAES. Homilética: da pesquisa ao púlpito. 2. ed. rev. e at. São Paulo: Vida, 2007. p. 129-130.

(3) Paulo Leivas MACALÃO. Oh! Jesus me ama. In: Harpa Cristã. 10. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2004. Hino 169.

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