por Daniel Ruy Pereira

“Morte” não parece ser uma boa palavra para começar um artigo. Só parece. É uma ótima palavra, porque é carregada de um monte de ideias, sentimentos, medos e crenças, que por si só já faz pensar. Talvez por isso seja uma parte do tema do filme Além da Vida, de Clint Eastwood.

Cartaz do filme “Além da Vida” (2011), de Clint Eastwood.

O filme conta três histórias sem conexão, a princípio. Todas as três histórias são de pessoas de tiveram, ou melhor, estão tendo, contato com a morte, de diferentes perspectivas. Um garoto inglês que perdeu seu irmão gêmeo em um acidente de carro; uma jornalista-escritora francesa cética que teve uma experiência de quasi­-morte nos tsumanis de 2004, na Indonésia; e um norte-americano que trabalha como empilhador, apenas para fugir de seu “dom”: ele, na verdade, é um médium, e já foi muito famoso, ganhando bastante dinheiro fazendo comunicações entre vivos e mortos.

Embora tenha todas essas facetas, na verdade o filme não é religioso. É um filme sobre como encaramos a morte. E é interessante como vários discursos religiosos – inclusive o discurso ateu sobre a morte – se fazem presentes no filme.

Vemos isso especialmente no garotinho Marcus. Em uma cena específica, ele se senta ao computador procurando informações sobre o que acontece com quem morre. Aparece um muçulmano, depois um cristão. A ambos os discursos o garoto fica indiferente. Não era o que ele procurava. Ele queria só saber se o irmão estava bem e, talvez, falar com ele.

C.S. Lewis aborda esse assunto em seu livro “Anatomia de uma dor”. Ele escreveu esse livro, na forma de um diário, depois da morte de sua esposa, Joy Davidman. E, depois de ler o livro, uma coisa se tornou absolutamente nítida para mim. Ninguém faz a menor ideia do que é perder alguém que ama, até que isso aconteça. O luto é uma experiência absolutamente individual e não pode ser categorizada. Cada luto é diferente do outro, porque a pessoa que morre é única e insubstituível. Por isso que, numa situação dessas, qualquer tentativa de consolar quem sofre a perda é vazia, inútil, cinza. É esse vazio que faz com que alguém procure conservar, de uma forma ou outra, a pessoa amada com ela. Como diz o próprio Lewis, as fotografias não são a pessoa. A substituição da pessoa pela foto acaba levando à adoração de alguém que não existe mais – de uma ideia. A pessoa da foto sorri, mas não é o sorriso dela, não tem o calor ou a ternura dela. E conscientizar-se de que a história dela (e de nossa história com ela) já acabou é muito duro. É por isso que os médiuns fazem tanto sucesso. Se pudessemos ter qualquer vislumbre, por menor que seja, da pessoa que amamos, ficaremos bem.

Mas perceba. Não tem a ver com a pessoa que se foi. Tem a ver com a que ficou. Procurar o médium é tentar trazer a pessoa de volta, não por ela, mas pelo mim. Para matar minha saudade, minha curiosidade. Gira em torno do mim porque eu tenho medo do escuro.

É por esse motivo que as pessoas de luto são tão exploradas. O filme de Eastwood mostra isso, quando o garoto Marcus procura vários médiuns, e todos os métodos mediúnicos que ele encontra são ridículos. O garoto continua no escuro, com saudade do irmão que ele perdeu. Até encontrar o médium George, que de fato consegue estabelecer essa comunicação.

Mas isso dificilmente convence (embora Eastwood pareça não ter a menor dúvida de que o fenômeno seja genuíno). Todas as experiências mediúnicas podem ter outra explicação. Acho interessante que Deus, na Bíblia, não parece negar que pessoas possam consultar os mortos. Mesmo assim Ele proíbe a prática. Por quê?

Quem me garante que aquela entidade que fala é minha pessoa amada? E se for um espírito enganador? E se for manipulação psicológica do “médium”? E se for auto-ilusão sugestionada? O melhor é deixar “os mortos para os mortos”.

Questionar isso, no filme, é o papel de Marie, que passou pela experiência de quasii morte. Isso começa depois que sobrevive a um tsunami. A partir daí começa a ter dúvidas sobre sua crença anterior, compartilhada com seu namorado. Para eles, a morte é o “apagar das luzes”. Só isso. O vazio eterno. Se houvesse alguma coisa depois da morte, certamente já teríamos descoberto. Para mim, essa foi a declaração mais engraçada do filme. Parece uma posição inteligente e centrada, mas isso é falso. A posição ateísta sobre a morte não só é insuficiente e vazia. Ela é estúpida, quando dita da forma que os personagens do filme disseram (e ela é dita assim frequentemente).

Já postei sobre esse assunto antes. Veja, por exemplo, aqui (o dilema de Pascal). Ora, como é possível esperar que os cientistas descubram algo sobre o pós-morte? Por definição, se existe alma, que não é material, não é física, então a ciência não pode lidar com ela.

É engraçado como passamos a vida atrás de certezas, mas a única que temos desde o momento em que nascemos é a de que vamos morrer, e é justamente dessa certeza que fugimos desesperadamente. Até o dia que encontramos algo a que nos apegar, como o conceito passado em Filipenses 1:20-21

“Aguardo ansiosamente e espero que em nada serei envergonhado. Ao contrário, com toda a determinação de sempre, também agora Cristo será engrandecido em meu corpo, quer pela vida, quer pela morte; porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro.”

A Bíblia só nos dá pistas do que encontraremos depois da morte. E ela o faz como as moças que entregam amostra grátis de queijo no mercado. “Tá vendo esse pedacinho aqui? É gostoso, não? Imagine o queijo todo, só pra você.” Isso para quem se render ao Cristo. – é lucro. Para quem não se render, é como o torturador que diz: “Tá vendo esse instrumento de tortura aqui? É ruim, não? Imagine o que eu não posso fazer com você.” Não se iluda: todos nós merecemos a tortura, não o queijo.

Jesus morreu pra ser torturado, prometendo que quem acreditasse Nele seria levado à fábrica de queijo. Ressuscitou como demonstração, outra amostra grátis. Se o reconhecermos como Senhor e Deus, não há nada a temer depois da morte. Se não, pode começar a temer agora. É simples assim.

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