por Daniel Ruy Pereira

Como bactérias e vírus teriam sobrevivido ao Dilúvio? Essa pergunta não é tão difícil quanto os proponentes acham que é. Basta saber um pouco sobre a incrível capacidade de sobrevivência das bactérias para respondê-la.

Bactérias são as células mais “simples”, ou melhor, menos complexas da Biosfera. São compostas de uma parede celular, uma membrana plasmática, o citoplasma (uma mistura de água, íons e proteínas), DNA e RNA, basicamente. Células bacterianas são do tipo procarionte, porque não têm núcleo organizado. É interessante como tendemos a imaginar essas células como mais simples, apenas por não terem organelas revestidas de membranas – o que é um erro. As bactérias, embora menos complexas que as células com núcleo organizado (eucariontes), são altamente complexas, com máquinas e processos celulares que funcionam de forma intrincada e otimizada. É como dizermos que um avião bi-motor não se compara a um ônibus espacial – isso não faz o bi-motor uma máquina simples, apenas menos complexa que o ônibus espacial. O movimento dos flagelos ou o mecanismo de síntese de proteínas são irredutivelmente complexos, e não poderiam ter se originado por acaso (1). Vírus já são diferentes.

Podemos nem considerá-los organismos vivos. Isso porque não possuem células – critério mínimo para ser considerado vivo – e só se reproduzem dentro de outras células. Ou seja, os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios. Se formos considerar os vírus como seres vivos, então só podemos considerá-los assim quando estiverem dentro de outras células.

Além disso, as bactérias têm formas incríveis de sobreviver aos mais diversos ambientes. Uma dessas formas é a esporulação. Através deste processo, as bactérias se desidratam, aumentam a espessura de sua parede celular e, assim, conseguem sobreviver a temperaturas extremas, falta de água e exposição a vários tipos de substâncias tóxicas e radiação. (Quando passam por esse processo, a célula é chamada de endosporo.) Esse processo já está codificado no DNA das bactérias.

“… endosporos com 7.500 anos de Thermoactinomyces vulgaris do lodo congelado do lago Elk, no estado americano de Minnesota, germinaram quando reaquecidos e colocados em um meio nutriente. Foi relatado, também, que endosporos com idade entre 25 e 40 milhões de anos, encontrados no intestino de uma abelha sem ferrão, aprisionada em âmbar (resina de árvore endurecida) na República Dominicana, teriam germinado quando colocados em meio nutriente.” (2)

Além disso, bactérias podem sobreviver transferindo pequenas moléculas circulares de DNA chamadas plasmídeos uma para a outra. “Os plasmídeos podem transportar genes para atividades como resistência aos antibióticos, tolerância a metais tóxicos, produção de toxinas e síntese de enzimas.” (3) Estes são apenas dois exemplos da flexibilidade da sobrevivência dos organismos bacterianos, adaptados aos mais diversos ambientes da Terra.

As bactérias poderiam ter sobrevivido ao Dilúvio utilizando os processos de esporulação ou transferência horizontal. Os vírus teriam sobrevivido dentro de outras células. No entanto, é muito mais provável que ao invés de sobreviver tenham, mais que isso, proliferado, uma vez que havia grande quantidade de material orgânico a ser decomposto na água, e bactérias são decompositoras – o que é excelente, pois dentro de um ano todos os organismos que haviam morrido estavam decompostos, o que evitaria doenças quando Noé, sua família e os animais saíssem da Arca.

Antes do século XVII, a humanidade não fazia a menor ideia da existência das bactérias. Por isso, não tem sentido acharmos que Deus queria que Noé preservasse espécies de bactérias na Arca – embora elas estivessem lá, nos intestinos, pele e no alimento que os animais consumiam. Eventualmente, através da seleção natural, voltaram a se multiplicar e diverenciar em novas espécies. Porém, continuaram sendo bactérias – seres procariontes, parasitas ou não, que abundam em qualquer ambiente do planeta.

Referências e notas

(1) Por exemplo, o DNA produz RNA que, indiretamente, produz proteínas, que são essenciais para que o DNA seja feito, se condense dentro do núcleo (de eucariontes), se duplique e produza RNA, que utilizará proteínas para produzir proteínas. Ou seja, sem proteínas não há DNA e sem DNA não há proteínas. Assim, um não pode ter surgido antes do outro. Ambos precisam ter surgido juntos. Para uma análise completa deste problema e dos flagelos bacterianos veja BEHE, Michael. A caixa preta de Darwin: o desafio da bioquímica à teoria da evolução. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

(2) TORTORA, Gerard J.; FUNKE, Berdell R.; CASE, Christine L. Microbiologia. 8. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 94. As longas datas desta citação são baseadas em processos de datação radiométrica, que fornecem idades relativas. Para uma refutação deste processo veja TAYLOR, Steve; MCINTOSH, Andy; WALKER, Tas. O colapso do tempo geológico. Considere a possilidade, 27 março 2009. Disponível aqui.

(3) Ibid, p. 92. A conjugação é um tipo de transferência horizontal, quando uma bactéria adquire material genético de outra bactéria, do ambiente, ou através de vírus. Isso não leva a transformação de bactérias em protozoários. De acordo com Jerlströem, “essa transferência simplesmente envolve a partilha de genes já presentes nas bactérias, e não resulta no aparecimento de novas ou mais complexas informações genéticas. Quando as condições seletivas são removidas, a informação genética adquirida torna-se redundante e é, eventualmente, descartada pelas células, a fim de abilitá-las a sobreviver entre tipos selvagens de bactérias de crescimento mais rápido.” In: JERLSTRÖEM, Pierre. Is the evolutionary tree turning into a creationist orchard? Journal of Creation 14(2):11-13, agosto 2000. Disponível em: < http://creation.com/is-the-evolutionary-tree-changing-into-a-creationist-orchard&gt;. Acesso em 02 janeiro 2012.

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