por Daniel Ruy Pereira

O trabalho de um professor é um processo ininterrupto. Com isso, quero dizer que, quando ele começa a entender a importância de seu ofício, e os frutos que ele produz, passa a olhar para cada vez mais coisas com o olhar de alguém que procura uma forma de ajudar os alunos a compreenderem o conteúdo que precisam aprender.

Isso aconteceu comigo quando vi o filme Contato, 1997, de Robert Zemeckis. O filme é a adaptação cinematográfica da obra homônima de Carl Sagan. O livro já é incrível (bem diferente do filme, claro – o que não invalida a adaptação; ao contrário, a enriquece por sua natureza mais rápida). Mas o filme é fabuloso. Na verdade, encantador. Conta a história de uma radioastrônoma brilhante, Elleanor Arroway (interpretada por Jodie Foster), que procura sinais de vida inteligente no Universo, no programa SETI. Quando ela e sua equipe finalmente descobrem esse sinal, o mundo passa por uma revolução a fim de entender e realizar aquilo que o sinal propõe, através de uma mensagem codificada pelos extraterrestres.

Eu diria que o filme é um belo resumo sobre o trabalho científico, os interesses, limites e consequências por trás dele e o relacionamento entre ciência e religião. Esse último tema é o mais interessante, porque permeia cada minuto e problema no enredo. É uma preocupação constante dos personagens, mas também uma surpresa constante para os espectadores. Para se ter uma ideia disso, Sagan escolheu (ele esteve envolvido também no roteiro), como par romântico da Dra. Arroway, o teólogo liberal Palmer Joss (Matthew McConauguey).

Acho que quando assisti esse filme, estava já no segundo semestre com os Primeiros Anos do Ensino Médio. Interessante: é no último bimestre que aparece o conteúdo de Origem da Vida e Evolução.

Professor de Ciências e representante da Comunidade Científica

Eu sempre esbarrei no problema de como se ensina o conteúdo de evolução na sala de aula. Essa é uma das principais razões deste blog. Veja: embora eu tenha problemas com a teoria da evolução (leia-se: “não acredite em tudo o que ela diz, já que ela não prova tudo”), meu problema não é que se ensine evolução, mas como se ensina evolução.

Professores de ciências são pagos para, e têm a obrigação de, ensinar Ciências. Isso quer dizer que o professor de Ciências precisa ensinar aquilo que a comunidade científica entende como melhor explicação para os fenômenos naturais (não como verdade). Isso é a base do ensino de Ciências. Em outras palavras, o professor de Ciências é um divulgador científico; é aquele que faz a tradução de artigos, livros e teorias para a linguagem de alunos de Ensino Fundamental e Médio. E como a teoria da evolução é a teoria aceita pela comunidade científica hoje, ela deve ser ensinada como tal: teoria mais aceita pela comunidade científica. (Ou por uma comunidade científica gigante que nega a existência de outras comunidades científicas menores, como a de criacionistas e teóricos de design inteligente, que não são ouvidos por causa de suas premissas contrárias a um naturalismo filosófico.)

Como representante e divlugador da comunidade científica, o professor não pode ser alienado, nem alienar os alunos. A comunidade científica é uma biosfera efervescendo com ideias, debates e questionamentos, de um modo vivo e dinâmico. O crescimento do design inteligente e a permanência e desenvolvimento do criacionismo nos últimos anos, mais a migração de cientistas para teorias antes desconsideradas, como essas e as teorias de panspermia, devem ser comunicadas a todos.

Professor alienado + raíz da crença pré-estabelecida = alunos alienados elevado a confusão mental

 Quando olhamos para os livros didáticos modernos eles só trazem o conteúdo a ser passado. Mostram e explicam a teoria da evolução, em certa profundidade, com exemplos antigos e já superados (como os famosos e infames órgãos vestigiais, neste link, por exemplo). Quando falam de criacionismo, dizem que ele é sinônimo de fixismo (1), sequer citam a teoria do design inteligente e não falam do crescimento da aceitação da teoria da panspermia (2).

Mas o problema maior nem são os livros, que por natureza já saem da gráfica desatualizados. O problema são os professores que se comportam como se aquilo que aprenderam na faculdade fosse imutável – ou fixista.

Assim, os alunos ficam sem saber todo o movimento em torno desse tema entre os cientistas, e a impressão que é passada para eles é que o debate terminou no século XIX, e todo mundo aceitou a evolução como um fato. Os cientistas, portanto, acabam sendo vistos como os novos sacerdotes que levam leigos como nós a um relacionamento mais profundo com A Verdade e O Progresso – os verdadeiros deuses da humanidade. Os alunos podem acabar achando que a evolução é um fato absolutamente inquestionável, e “A Origem das Espécies”, de Darwin, é um livro que deveria ter sido incluído no cânon bíblico, ou melhor, substituído.

O professor que é ateu pode até gostar disso, mas precisa concordar que esse resultado deve ser combatido de todas as formas. O professor de ciências está na sala para ensinar Ciências, não ateísmo. Afinal, da mesma forma que a Ciência não aceita explicações do tipo “Deus criou o mundo”, também não aceita explicações do tipo “Deus não criou o mundo”. E não aceita porque não pode testar essas afirmações, e com relação a isso deve se omitir – o que é necessário, dada sua função na sociedade.

A velha desculpa da implicação

Muitos, entretanto, dizem que o criaciosmo e o design inteligente não devem aparecer na sala de aula porque têm implicações religiosas. Ha! E a origem química da vida não tem? Moléculas se chocando ao acaso, contando apenas com o tempo e cálculos de probabilidade, sem direcionamento algum, a fim de formarem vida complexa, que questiona sua origem, existência e destino depois de milhões de anos… Isso não tem nenhuma implicação religiosa, do tipo, “seu-deus-não-existe-aceite-e-pronto”? Faça-me o favor…

Uma das maravilhas do conhecimento é que ele tem implicações diversas – políticas, médicas, sociais, religiosas. Deixar de abordar um assunto em sala por causa de sua implicação é negar ao aluno seu primeiro direito como estudante: entender e questionar o mundo e a cultura que o cerca.

Por isso, a discussão sobre a natureza da Ciência e da Religião, seu relacionamento e seus limites podem ser discutidos nas aulas de Biologia, desde que o professor esteja preparado para isso.

Justificativa para essa aula

Nossos alunos não são depósitos de informação, fechados de forma hermética. São seres que pensam e questionam as informações passadas por alguém. Hoje, ninguém mais aceita prontamente o que alguém diz, só porque esse alguém carrega o título de professor. Os alunos são mais questionadores, e isso se intensifica a cada ano.

Assim que você começa falando sobre origem da vida, eles já começam com uma postura defensiva, pois a sala é heterogênea e há muitos cristãos, católicos, kardecistas etc. E, por causa da religião, estão dispostos a ignorar o que você diz, decorando informações que o professor vai perguntar na prova, mas sem nem se preocupar com a importância daquilo. (Isto é, sem aprender nada sobre aquele assunto.) Chegando na igreja, o pastor ou padre diz que os cientistas estão errados, mesmo, e invalida qualquer coisa que tenhamos dito. Assim, o aprendizado e aprofundamento dessas questões fica totalmente prejudicado.

A experiência com o filme

Tendo em vista tudo isso, pensei em uma atividade de 3 aulas para os 1 anos do Ensino Médio. Gostei muito do resultado dessa aula diferenciada. Com o apoio da Coordenação e de outros professores, utilizei as três últimas aulas de um dia letivo para uma sessão integral do filme. Na aula (4a. aula) seguinte retomei o enredo, explicando-o e apontando os vários temas. E na quinta aula apliquei uma atividade, pensada em duplas, contendo seis questões para análise do filme (3). O resultado foi que mais de 90% da sala conseguiu estabelecer claramente os limites entre ciência e religião, e isso facilitou demais o meu trabalho com questionamentos nas aulas seguintes.

Por exemplo, uma das questões era: “Com base no enredo do filme, podemos dizer que ciência e religião não podem se relacionar em momento algum?” A essa questão, duas alunas responderam:

“Podem sim, desde que os cientistas sejam pés no chão [sic]. Que isso não interfira na verdade e que não misturem as questões sobrenaturais da religião com a ciência.”

As mesmas alunas, ao responder à pergunta: “Um cientista pode dar uma resposta sobrenatural para um fenômeno? Pode fazer isso como cientista ou como ser humano?”, disseram:

“Um cientista pode dar uma resposta sobrenatural como ser humano, mas como um cientista mesmo ele não pode [sic], tem que ter provas com base em fenômenos naturais.”

Veja como essas alunas conseguiram estabelecer o limite entre Ciência e Religião. Um outro exemplo, de outros dois alunos que, quando questionados sobre qual é o limite entre ciência e religião, responderam:

“Como a ciência não pode encontrar a verdade absoluta, apenas se aproximar dela através de provas concretas, sempre existirá uma ponte onde o concreto chegará no seu limite e essas duas vertentes que muitos acreditam ser opostas, se encontrarão. Foi o que ocorreu com a Dra. Ellie, que terminou no limite e sendo obrigada a admitir que tinha fé.”

Há muitos outros casos, mas estes ilustram o que aconteceu com a sala, de um modo geral. Eles conseguiram entender que a Ciência se ocupa com uma esfera da vida; a religião, com outra. As duas esferas não se chocam, mas ficam juntas. Além do resultado pedagógico, ocorreu uma aproximação entre mim e os alunos. Eles ficaram interessados em perguntar qual ponto de vista eu defendia. O que propositalmente não respondi, deixando para faze-lo ao final da série de aulas sobre Teoria da Evolução. Uma curiosidade: muitos deles achavam que eu sou ateu, por causa das discussões que fizemos sobre o assunto!

Conclusão

Um dos objetivos do ensino de Biologia é ajudar o aluno a entender que mitologia e ciência são tentativas diferentes de explicar fenômenos, mas que nem sempre são excludentes. Só é preciso tomar cuidado para não tentar uma unificação forçada entre as duas coisas, porque é óbvio que alguns fenômenos naturais contradizem explicações religiosas. De qualquer modo, precisa ficar claro na mente dos alunos que as explicações mais naturais e simples sempre são preferíveis em todas as esferas da vida. Isso nos livra do trauma de sermos vítimas de religiosos para quem tudo é milagre, sinal e profecia. Nos deixa com os pés no chão, e pode nos ajudar a chegar mais perto de Deus. Ou nos afastar Dele, mas isso não é nem obra do cientista nem do religioso.

Referências e notas

(1) Ideia que dizia que as espécies teriam sido criadas por Deus de forma fixa, isto é, sem capacidade de variação. O que leva à conclusão de que todas as espécies hoje existentes são as mesmas da Semana da Criação, e as mesmas que estavam representadas na Arca de Noé – ou seja: mais de 1 milhão de espécies de animais, segundo uma estimativa de Ernst Mayr. O que, evidentemente, é um absurdo. Inclusive para o criacionismo moderno.

(2) Ideia de que a vida se originou em algum lugar do espaço e acabou vindo parar aqui na Terra, “semeando-a” com vida “simples” (bactérias). Essa versão foi proposta no começo do século XX por Svante Arrhenius. Mas na década de 1980, Francis Crick propôs a versão “dirigida” da panspermia. Segundo ele, é perfeitamente possível, de acordo com a teoria da evolução, que vida inteligente como a nossa tenha surgido em algum outro lugar no espaço há bilhões de anos atrás. Esses seres inteligentes teriam desenvolvido foguetes e enviado bactérias pelo espaço, que caíram aqui e evoluíram para tudo o que temos hoje. Crick formulou essa teoria porque não conseguia acreditar que as condições da Terra primitiva, como propostas por Oparin e outros, pudessem originar vida – embora fosse ateu convicto. Essa crítica é a mesma compartilhada por teóricos do design inteligente.

(3) Se você se interessar em aplicar essa atividade em sua sala de aula, pode baixar as questões, clicando aqui.

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