por Daniel Ruy Pereira


Filmes românticos nunca foram minha preferência. Desde cedo (acho que desde que assisti Jurassic Park, em 1993) elegi a ficção científica, a fantasia e a animação como meus gêneros preferidos. Ocasionalmente (bem ocasionalmente) acabo assistindo a um filme romântico. Mas sou exigente. Não gosto de clichês e emocionalismo. Prefiro algo inteligente e, se possível, descontraído. Acho que eu até gosto de comédias românticas, uma vez ou outra.

Porém, minhas preferências se somaram (ou se confundiram) em 2008, quando assisti WALL-E pela primeira vez. Na época, e hoje, fiquei maravilhado. Sendo uma animação, feita pela parceria de absoluto sucesso Pixar/Disney (1), WALL-E é uma obra-prima do cinema moderno. É uma ficção científica, uma animação e um filme romântico. Por vários fatores, como a trilha sonora, a poesia encantadora, os “diálogos” sem palavras da primeira metade do filme; ou o fato de ser, para citar Pablo Villaça, “uma espécie de mistura perfeita de Chaplin, Kubrick e Disney” (2). Mas, como este site fala de ciência e religião, e eu não sou, nem de longe, crítico de cinema, embora cinéfilo assumido, quero falar do meu encantamento por um dos temas do filme, aliás, seu principal tema: a Ecologia

Um tema abatido?

Bem, eu sou biólogo e por isso devo ter gostado do filme, certo? Não. Quer dizer, gostei, mas não só por ser biólogo. Gostei por ser biólogo, cristão e por ser humano. Sinceramente, estou bastante cansado do discurso ecológico que tenta ser moralista (como tudo o que tenta ser moralista me cansa). Não sei quando alguns ambientalistas inocentes e eco-chatos vão entender que, se ficarem esperando pela boa vontade das pessoas em economizar água, separar o lixo e usarem energia renovável, o mundo vai acabar mais rápido que gostaríamos. As pessoas não farão isso porque mudar o estilo de vida tão cômodo em que vivemos é complicado. Lembro-me das minhas aulas de ecologia da faculdade. O professor Clóvis vivia dizendo que precisamos preservar o meio ambiente, mas, ele perguntava, estamos dispostos a não ter duas TVs, um carro com motor potente e todo o conforto da vida moderna? A resposta, claro, quase sempre é não. Nesse sentido, estou com Bjorn Lomborg, autor do livro “O ambientalista cético” (que preciso ler urgentemente):

“… o problema é que há questões mais urgentes. Os países em desenvolvimento precisam deixar claro que, enquanto muitos dos seus cidadãos não souberem se vão ter uma próxima refeição, eles não vão se importar tanto com o que vai acontecer com o meio ambiente em 50 ou 100 anos. Isso não é porque são más pessoas, mas porque estão numa situação ruim. É preciso entender que, quando organizações ambientalistas do Primeiro Mundo apontam problemas no meio ambiente, isso pode ser correto em seus países, mas não necessariamente nos países em desenvolvimento.” (3)

Por isso, a proposta de Lomborg é investir mais em tecnologia, já que as pessoas não vão mudar, por vários fatores. Do ponto de vista cristão, eu não espero que as pessoas mudem sua rotina por este e por outro motivo. Creio firmemente que nossa tendência é para o hedonismo e para a depredação egoísta do ambiente em que vivemos. Isso se deve ao egoísmo inerente e à cosmovisão de cada um. Em certo sentido, as pessoas são, sim, más. A filosofia ecológica de uma pessoa é derivada da cosmovisão que ela tem do mundo à sua volta, como escreveu Lynn White Jr, na revista Science, de 10 de março de 1967:

“O que as pessoas fazem sobre a ecologia delas depende do que pensam em relação a coisas ao redor delas. A ecologia humana é profundamente condicionada por meio de convicções sobre a nossa natureza e destino – isto é, pela religião.” (4)

Cena de WALL-E. Imagem de Wikipedia.org.

O desenvolvimento tecnológico afastou o homem da natureza –  o que WALL-E leva às últimas consequências, mas de uma forma muito bem-humorada. Quanto mais imersos ficamos em tecnologia, mais longe ficamos das árvores, por vários motivos. Um deles é a distância. Eu, por exemplo, vivo no miolo de uma cidade grande, e o contato mais próximo que tenho com a natureza são duas falsas-figueiras plantadas na esquina de casa. Não estou perto de nada que me ponha em contato direto com bosques, animais ou riachos limpos. O rio Tamanduateí, que corta toda a região do Grande ABC, passa em frente à minha casa. Mas é deprimente olhar para ele, de tão poluído. O dinheiro também tem um papel nesse drama, uma vez que, para estar próximo da natureza, terei que dispor de recursos financeiros para ir até um parque, uma área de preservação, uma trilha. E normalmente isso não é barato. (Como tudo, ficar perto da natureza acabou sendo incorporado pelo capitalismo, e virou mercado.)

Essa distância acaba diminuindo o significado. A árvore que foi cortada na Amazônia não tem a menor importância para o cidadão comum que vive aqui no Sudeste, correndo atrás de grana para pagar suas contas. Por outro lado, o trânsito que ele enfrenta na época de chuvas, quando os rios alagam, por causa do crescimento desordenado de nossas cidades, o afeta, e muito. Assim, ao invés de despoluir o rio e reorganizar a cidade (o que, convenhamos, é virtualmente impossível), os rios são canalizados, quando isso é possível, ou amaldiçoados, quando isso não é possível. É preciso entender, portanto, que o discurso ambientalista se dilui e se perde no cotidiano do progresso tecnológico, em função da distância cada vez maior entre homem e natureza.

Uma das cenas de WALL-E mostra o capitão da nave pedindo para o computador definir os termos “terra”, “mar”, “planta” etc. Pelo fato de ter estado tão longe, ele está redescobrindo (aliás, no caso dele, descobrindo) o que é o planeta Terra. E está se apaixonando por ele. Esse “redescobrir” é uma das chaves da reflexão ecológica. Teoricamente, se levarmos as pessoas a redescobrirem a natureza, elas se apaixonem de novo e passem a se preocupar. Isso até funciona, mas até que ponto? Como já dissemos, o encantamento facilmente acaba com os problemas do dia-a-dia, a menos que seja totalmente incorporado no cotidiano, e passe a fazer parte da cosmovisão da pessoa.

A visão cristã da ecologia

É comum ouvir pessoas dizendo que o cristianismo é um dos principais responsáveis pela degradação ecológica que vemos hoje. Tantos anos de Igreja moldando o pensamento e estimulando a colonização, a escravidão e a predação do ambiente nos trouxeram até este ponto, e agora, toda a humanidade colhe os frutos do que os “cristãos” fizeram com seu pensamento de “dominar a Terra”.

Já vou logo dizendo que isso é um absurdo. Reconheço que a igreja institucionalizada acabou pregando essa filosofia, mas porque se distanciou da Bíblia. A doutrina da criação do mundo, exposta em Gênesis, ensina que Deus deixou o homem responsável por Sua criação. Quando Deus disse que o homem teria que “dominar” sobre a Terra, não quis dizer “escravizar, explorar e depredar”, mas sim “governar”, “administrar”, “cuidar”. Com maestria, Francis Schaeffer explica isso:

“… nós estamos separados do que é a forma “inferior” [perceba como  esta palavra está entre aspas] da criação; contudo, nós somos unidos a ela. Não se deve escolher mas, ao invés disso, assumir ambas. Eu estou separado dela porque eu sou feito à imagem de Deus; meu ponto de integração é ascendente, não descendente; não retorna à criação. Não obstante, ao mesmo tempo, eu sou unido a ela porque a natureza e o homem são ambos criados por Deus.” (5)

O que ele está querendo dizer é que, como a natureza é criatura, eu também sou criatura. Estamos, nesse sentido, no mesmo pé de igualdade. No entanto, eu (humano) fui criado com a obrigação de administrar as outras criações, investigando-as, descobrindo-as, cuidando bem delas. A preservação ecológica é, na verdade, serviço: como servo de Deus, devo cuidar de suas obras, o melhor que eu puder.

Ou seja, nesse ponto de vista, se eu estou degradando o meio ambiente, diante de Deus estou cometendo pecado. Quando mato uma formiga apenas com aquele prazer mórbido, pisando nela ou explodindo-a com uma lente (que converge os raios de luz para um único ponto, aumentando a temperatura); ou quando quebro uma planta jovem só por esporte (o que alguns babacas faziam muito no bairro onde cresci), estou dizendo, com minha atitude, que aquele ser não vale absolutamente nada para mim, e estou depreciando, aliás, zombando, da obra de Deus, dizendo que aquele ser vivo é imprestável. Entendeu o tamanho da ofensa? É por isso que, em Apocalipse 11:17-18, quando o anjo toca a sétima trombeta (que anunciam os juízos de Deus sobre a Terra), os anciãos dizem:

“Graças te damos, Senhor Deus    todo-poderoso,
que és e que eras,
porque assumiste o teu grande poder e começaste a reinar.

As nações se iraram; e chegou a tua ira.
Chegou o tempo de julgares os mortos
e de recompensares os teus servos, os profetas, os teus santos
e os que temem o teu nome, tanto pequenos como grandes,
e de destruir os que destroem a terra.” (NVI, ênfase nossa)

Uma das razões por que Deus julgará a humanidade é porque ela não dá valor à criação, não cumpre seu papel, de cuidar sabiamente dela. Não sei quem teve a ideia de que o cristianismo é a razão da filosofia exploratória que existe hoje, mas quem disse isso, certamente nunca leu ou nunca entendeu o que a Bíblia ensina.

Ainda há esperança, mas onde ela está?

Em WALL-E, a humanidade acumulou tanto lixo que teve que ir para o espaço, até a Terra voltar a ter condições ambientais capazes de sustentar o homem. Nesse filme, a humanidade ganha uma segunda chance. Mas ela dificilmente virá, no mundo real. É possível (quem sabe provável?) que em 50 anos vejamos guerras por causa de água e recursos naturais. O futuro é bastante incerto. Ou o homem entende que seu egoísmo deriva de sua natureza pecaminosa, e é incorrigível pela ciência e tecnologia, mas corrigível pela obra de Cristo, ou o colapso é certo.

Tanto o diagnóstico como o remédio desse apocalipse estão claros na Bíblia:

A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza será libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.

Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. (…) (Romanos 8:19-22)

O humanismo, com seu enfoque na mudança do ser humano por meio da educação e da informação, não ajudou em nada o século XX e, agora, o século XXI a coisa está bem feia. A Bíblia ensina que nós, humanos, somos responsáveis pela degradação do mundo. Nós somos os grandes vilões da história. Mas, ainda assim, não é porque chegamos neste ponto que não faremos nada. “A natureza aguarda… que os filhos de Deus sejam revelados.” Os cristãos, antes de todo mundo, devem começar a cuidar do planeta. Esta é uma das formas mais importantes de servir a Deus, em nossa época.

Referências e notas

(1) Este post começou a ser escrito em setembro, mas optei por publicá-lo hoje, para completar minha homenagem a Steve Jobs, que morreu ontem, 05 de outubro de 2011, uma vez que até mesmo este post deve a ele, de certa forma, sua existência – ele foi diretor executivo da Pixar, e a transformou de um pequeno estúdio de animação da Disney no maior estúdio de animações, verdadeiro criador de tendências, do cinema. Veja o banner de homenagem na coluna ao lado. Clicando nele, será direcionado à página sobre Jobs, no Wikipédia.

(2) VILLAÇA, Pablo. Wall-e. Crítica. Disponível em: <http://www.cinemaemcena.com.br/ficha_filme.aspx?&id_noticia=19573&id_filme=5655&aba=cinenews&gt;. Acesso em 07 setembro 2011.

(3) AMARAL, Rodrigo. “Ambientalista cético” receita riqueza para salvar a natureza. BBC Brasil.com, 10 setembro, 2002. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2002/020828_lomborgrg1.shtml&gt;. Acesso em 07 setembro 2011.

(4) JR. WHITE, Lynn. As raízes históricas de nossa crise ecológica. In: SCHAEFFER, Francis A. Poluição e a morte do homem. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 71. O artigo original também está disponível online em: <http://www.sciencemag.org/content/155/3767/1203.citation&gt;. Acesso em 06 outubro 2011.

(5) SCHAEFFER, Francis A. Poluição e a morte do homem. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 39.

(6) Como sou bastante realista, duvido que isso aconteça. Então é melhor o mundo se preparar para o pior.