por Daniel Ruy Pereira

Ha! Que interessante… Hélio Schwartzman comenta uma notícia que afirma que o cérebro tende à religiosidade:

… ao que tudo indica, o cérebro humano vem de fábrica com uma série de vieses cognitivos que tornam a religião um subproduto natural. (1)

Na notícia, que você pode ler aqui, o autor começa dizendo que já há 20 anos que a religião tem sido estudada como um fenômeno. Isso é muito bom. Independentemente da existência ou não de um deus (ou Deus), a religião existe e move bilhões de pessoas. Eu diria que, de uma forma ou de outra, move todas as pessoas, inclusive os ateus, já que, por religião, entendo qualquer pensamento ou sistema que defenda a existência de um ser (como Deus ou um alienígena), entidade (como espíritos) ou força (como a evolução (2)) como definidor de sentido e destino para o indivíduo e o universo. Ou seja, é algo muito importante em nossa civilização, por isso merece ser estudado sistematicamente pela comunidade científica.

De acordo com a teoria da evolução, a religiosidade surgiu no homem em algum ponto da história, por necessidade de adaptação. Ela seria mais uma forma de aumentar as chances de sobrevivência, porque religiosos tendem a se aproximar em torno de uma causa comum; todos sabem que um grupo tem mais força que um indivíduo, por isso, além de aumentar as chances do indivíduo, a religião aumentaria as chances de sobrevivência da espécie, justamente por agregar maior força a um determinado grupo. Assim, o homem criou Deus, voluntária ou involuntariamente, porque precisava sobreviver.

É claro que este último parágrafo causa arrepios em cristãos e religiosos. Mas basta um pouquinho de disposição para ir atrás do assunto e verificar que essa é uma hipótese razoável, dentro do evolucionismo. Quero dizer que ela parte do pressuposto que a evolução de fato aconteceu. Se não aconteceu, então essa hipótese é descartada. Portanto, sr. religioso, antes de sair por aí batendo nos ateus e condenando-os ao inferno, entenda que, para eles, essa explicação faz muito sentido, já que eles acreditam que a evolução aconteceu.

Mas vamos continuar a análise da notícia da Folha. Vou citar a parte mais interessante:

Cientistas já identificaram pelo menos dois genes ligados ao circuito da dopamina que parecem desempenhar um papel importante na crença, além de interessantes diferenças anatômicas entre os cérebros de céticos e crentes. (3)

Molécula de Dopamina. Imagem Wikipedia.org.

Sabe-se então que a dopamina (hormônio produzido no cérebro, responsável por várias sensações, como o prazer,  a motivação, o pensamento) desempenha importante papel na crença religiosa. Essa afirmação leva à dedução que, quando você lê a Bíblia e fica feliz por ter descobrerto o rumo a seguir, libera dopamina na corrente sanguínea; ou quando você ora e sente que foi ouvido, também está cheio de dopamina; ou quando aprende um novo ensinamento que faz sentido dentro de sua religião.  E essa quantidade de dopamina te dá aquela sensação “religiosa”. Desse modo, quando Paulo diz, em Filipenses 4:4: “Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se!” (NVI), podemos dizer que ele, na verdade, estaria dizendo: “Liberem dopamina quando pensarem na Divindade. Novamente direi: liberem dopamina!”.

Um problema ovo-galinha

A pergunta crucial: é a liberação de dopamina que determina a ocorrência de religião ou é a religião que determina a liberação de dopamina? A pergunta pode parecer viciada, tendenciosa, mas não é. Veja:

  1. Se a liberação de dopamina determina a religião, então uma pessoa que afirma ter sido visitada por Deus, ter experimentado “a graça de Deus” ou ter sido salva está apenas sob efeito de uma grande quantidade de substâncias químicas – como alguém que usou uma droga.
  2. Mas se é a religião que determina a liberação de dopamina, então dizemos que a experiência da pessoa foi real, e a alta liberação de dopamina é uma evidência dessa profunda e transformadora experiência pela qual a pessoa passou.

O evolucionismo sempre vai ficar com a primeira hipótese, mas não porque é melhor que a segunda, e sim porque a segunda tem implicações que o evolucionismo (e o ateu) não aceita. O melhor disso tudo é que, aceite a hipótese que for, essa aceitação é pura e simplesmente feita com base na fé que a pessoa tem na evolução. Nenhuma das duas pode ser testada e a conclusão precisa ser aceita.

Se ajudar, gostaria de lembrar ao leitor que, até onde sabemos, em toda a história da humanidade, ninguém que usasse muita droga mudou a civilização como Jesus mudou. E se tinha um cara que, se a primeira hipótese for aceita (dopamina produz religião), era muito louco, era ele. Jesus afirmava ser Deus. Se ele estivesse “dopado” não manteria esse discurso sempre – a menos que fosse louco de pedra. E os evangelhos mostram que louco ele não era, até pelas lições altamente lógicas que ele ensinava, como, por exemplo, em, João 8:12-59, no debate com os fariseus, ou em Mateus 23, na repreensão severa ao mesmo grupo. Porém, se aceitarmos a segunda hipótese (religião produz dopamina), significaria que o contato íntimo que Jesus tinha com Deus refletia na liberação de grande quantidade de dopamina em seu corpo, o que explicaria o fato de ele ser uma pessoa muito feliz e extremamente determinada (ou motivada) a realizar seus objetivos. Intrigantes essas evidências, não?

Conclusão

Neste artigo, vimos um  exemplo do uso de um método científico que leva a uma conclusão não-científica, mas que muitas vezes é apresentada em tubo de ensaio, só para não admitir que é uma conclusão baseada em fé.

Por isso, Habacuque e Paulo estavam certos quando disseram (em Habacuque 2:4 e Romanos 1:17), que o “justo viverá por fé”. Para o cristão e para o criacionista, a liberação de dopamina é um efeito biológico da marcante experiência que a pessoa tem, seja na oração, na leitura bíblica ou na prática da piedade. Para o ateu e para o evolucionista, é só o inverso. Mas tudo fica na base do “acreditamos que seja isso”, porque testar no laboratório não dá. Ninguém escapa da fé.

As últimas conclusões sobre a origem e destino da vida e sobre o modo como a levamos não são baseadas em experimentação, mas em reconhecimento, em aceitação do que Jesus fez e de Quem Ele é. Quando se reconhece isso, abre-se caminho para a verdadeira satisfação e motivação. Por isso, Jesus disse, em João 7:38:

Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. (NVI)

E poderíamos dizer, também, rios de dopamina.

Referências e notas

(1) SCHWARTZMAN, Hélio. Análise: Cérebro humano tem viés religiosos ‘de fábrica’. Folha.com, 22 setembro 2011. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/978837-analise-cerebro-humano-tem-vies-religioso-de-fabrica.shtml&gt;. Acesso em 22 setembro 2011.

(2) Como disse Michael Ruse, um filósofo evolucionista (citado por Henry Morris em Some call it science: the religion of evolution): “Evolução é uma religião. Isso era verdade no início da teoria da evolução, e continua sendo verdade sobre ela ainda hoje.” (tradução nossa)

(3) Shwartzman, op. cit.

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