por Daniel Ruy Pereira

Stephen Hawking acha que o Paraíso é só um conto de fadas.

Antes de tudo, vamos esclarecer quem é o homem. Para quem não sabe (caso exista alguém nessa situação), Stephen Hawking é um dos mais importantes físicos da atualidade. Premiado diversas vezes e com vários livros publicados, é uma das principais figuras que, hoje, defendem uma origem naturalista do universo. Ele ficou famoso por ser essa gigantesca figura mesmo sendo portador de uma doença degenerativa, a esclerose lateral amiotrófica (ELA) (1), que paralisa os membros do corpo, mas não chega a afetar o cérebro. Por isso, ele consegue ainda manter seu pensamento agudo, e continua escrevendo, embora se comunique por meio de um sintetizador de voz. Recentemente sua história virou um filmaço: “Teoria de Tudo” (2015), de James Marsh.

Fiquei encantado com o documentário protagonizado por ele, “O Universo de Stephen Hawking” (1997), que conta a evolução de suas ideias, e de outros colegas, sobre cosmologia. Bem diferente de suas ideias sobre o pós-morte. O jornal britânico The Guardian publicou, no último domingo, e a Folha Online de ontem, 17 de maio, suas ideias a respeito.

“Tenho vivido com a perspectiva de uma morte precoce pelos últimos 49 anos. Não tenho medo da morte, mas não tenho pressa em morrer. Tenho muitas coisas que quero fazer primeiro. Eu considero o cérebro como um computador que vai parar de trabalhar quando seus componentes falharem. Não há paraíso ou vida após a morte para computadores que quebram. Isso é um conto de fadas para pessoas que têm medo do escuro.” (2)

Em termos naturalistas é isso mesmo. Então, qual é o problema, além, é claro, do próprio naturalismo (pois Hawking está excluindo da equação o fato de computadores serem projetados)?

O grande problema dos ateus é a (nem sempre) aparente arrogância de seus argumentos em relação à teologia, aquela brincadeira de crianças inocentes. Quando alguém diz que o Paraíso é um conto de fadas para pessoas que têm medo do escuro, esse alguém está dizendo essencialmente que já superou isso. “Pobres pessoas que ainda têm medo do escuro… Têm tanto o que aprender.” Uma pena, porque é algo muito sábio ter medo de escuro. Afinal, o que é mais assustador que o desconhecido? Alguém que não tem medo do escuro facilmente vai sair correndo num quarto sem saber onde pisa e vai se machucar feio.

Por isso que eu concordo com Stephen Hawking, meio que do avesso, mas concordo. O céu, de fato, é um conto de fadas criado para pessoas que têm medo do escuro. Porque o Escuro existe, a morte é real, e ninguém quer cair no Escuro para sempre. O medo é nossa resposta ao Desconhecido, que se aproxima incontrolável em nossa direção. O que acontece quando ele chegar? Ninguém sabe. Os contos de fadas nos ajudam a perder o medo desse escuro real. Tolkien, conversando com C.S. Lewis (os dois Hawkings da Fantasia), diz:

Viemos de Deus, e inevitavelmente os mitos que tecemos, apesar de conterem erros, refletem também um fragmento da verdadeira luz, da verdade eterna que está com Deus. De fato, apenas ao fazer mitos, ao se tornar “subcriador” e inventar histórias, é que o Homem pode se aproximar do estado de perfeição que conhecia antes da Queda. Nossos mitos podem ser mal orientados, mas dirigem-se, ainda que vacilantes, para o porto verdadeiro, ao passo que o “progresso” materialista conduz apenas a um enorme abismo e à Coroa de Ferro do poder do mal. (3)

O Evangelho, a história de Jesus, de sua Encarnação, Morte, Ressurreição e Retorno para nos levar ao Paraíso é um conto de fadas, porque nos conta, sem a mínima vontade de apresentar provas, o que acontece quando o Desconhecido chega. Não é por ser conto de fadas, porém, que deixa de ser verdade. Como C.S. Lewis argumenta, é o bosque encantado que faz todos os bosques serem encantados, e o sofrimento de Cinderela é bem real para todos nós, independente da Fada Madrinha (ou por causa da obra dela).

Para uma criança, é mais fácil entender que as formiguinhas estão trabalhando, por ordem de sua Rainha, para suprir o Reino das Formigas de alimentos, porque o inverno um dia vai chegar e elas têm que ficar bem alimentadas, enquanto que aquele Pica-pau brincalhão e preguiçoso vai acabar passando frio. Ou que as abelhas são amigas das flores. Na dança das abelhas com as flores, as flores dão de presente para as abelhas muitos doces, e as abelhas, para agradecer, levam sementinhas, espalhando-as por aí. Ambas ficam felizes, e as abelhas voltam para a Colméia, um reino seguro, onde uma Rainha, a Mãe de todas as abelhas daquela colméia, governa a todos com amor. Esses também são contos de fadas, não? Não é assim que a ordem dos himenópteros vive? Esses breves “contos de fadas” não são carregados de verdade, e não ajudarão a criança, quando for mais velha, a compreender a biologia desses animais?

Justamente por isso Jesus diz:

Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus. Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus. (Mateus 18:3-4, NVI).

Ser como criança é aceitar a história de Jesus como explicação válida e real. O cristão simplesmente sabe que um dia será como Cristo, e morará com Ele, apenas porque Ele disse isso na Bíblia, e o cristão crê no que Ele diz. É igualzinho a uma criança que acredita que vai ganhar presente de seus pais, ou mesmo do Papai Noel, no Natal. O Paraíso existe. E o Inferno também existe. Essa declaração nunca é e nunca será científica. Baseia-se única e exclusivamente em uma fé sincera na Bíblia, mas não cega. Quando percebemos que o Escuro, o Nada (como na História Sem Fim, de Michael Ende) existe, e que estamos indo em direção a ele quase sempre na mesma velocidade em que ele vem até nós (embora o Nada possa vir mais rápido) (4), precisamos de algo ou alguém que nos mostre onde é e como chegar à Luz. Isso porque não queremos cair na não-existência, pois viver sem propósito ou finalidade é absolutamente sem sentido. E ninguém, sinceramente, quer viver apenas “buscando os melhores valores de suas ações”. Pra que fazer isso se tudo é sem sentido? Se vou desaparecer, após a morte, pra que me preocupar com os valores de minhas ações? Aliás, pra que me preocupar com qualquer coisa que seja?

O cristianismo, porém, dá sentido a tudo. Se confiarmos na Bíblia, e na obra de Jesus Cristo, o grande Deus Encarnado, Morto e Ressurreto, o escuro não será nada, quando a hora chegar.

Na verdade, tudo se baseia em fé. Por isso que nunca gostei das pessoas que menosprezam as fantasias de uma criança. Há mais sabedoria nelas que em muitos cientistas.

Referências e notas

(1) Verbete Stephen Hawking. Wikipedia.org. Acesso em 18 maio 2011. É muito interessante que Hawking, juntamente com sua filha Lucy, tenha escrito um livro chamado “George e o Segredo do Universo”, que é um tipo de fantasia sobre o sistema solar, para crianças. Não é nem de longe um livro de ficção científica só porque tem um computador que viabiliza viagens rápidas de ida e volta a planetas e cometas. É um conto de fadas, mas não é dos melhores, infelizmente.

(2) VIDA APÓS A MORTE É UM CONTO DE FADAS, DIZ HAWKING. Folha.com, 17 maio 2011. In: SAMPLE, Ian. Stephen Hawking: there is no heaven; it’s a fairy story. Guardian.co.uk, 15 maio 2011.

(3) Citado em CUNHA, Martim Vasques da. Fé e fantasia em Tolkien. Publicado em descubranarnia.wordpress.com. Acesso em 18 maio 2005.

(4) C.S. Lewis, em “O grande abismo” retrata as almas condenadas ao inferno, que visitam o céu, como fantasmas translúcidos. (É interessante pensar que, talvez, o maior sofrimento do inferno não sejam as chamas que nunca se apagam e os vermes que nunca dormem, mas um estado em que a consciência (alma) de alguém fique completamente imersa em coisa alguma, em uma não-existência consciente avassaladora, se é que isso existe. Possível é.) Por outro lado, o Paraíso é a maior de todas as realidades. Uma realidade completa, tão real que as cores são mais coloridas e intensas, a água é mais líquida, o ar é mais arejado, a luz mais brilhante. Para os fantasmas de Lewis, a grama parecia feita de aço, de tão real. LEWIS, C.S. O grande abismo.

Anúncios