Artigo traduzido de: Creation 28(4):41-43 setembro 2006. Título original: “Life in test-tube”. Copyright Creation Ministries International Ltda. Usado com permissão.

por Cheri Williams

Tradução de Daniel Ruy Pereira

Há décadas que Hollywood apresenta imagens de “marcianos” e “criaturas espaciais”, através de filmes como Independence Day e Alien. Por trás disso está a ideia de evolução: se a vida evoluiu na Terra, então por que ela não poderia ter evoluído em outros planetas? Um experimento é largamente apregoado como prova de que a vida pode evoluir de compostos químicos não vivos.

O experimento de Miller

Experimento de Miller-Urey. Imagem de Wikipedia.org.

Em 1953, mesmo ano em que foi desvendada a estrutura de dupla hélice do DNA, um jovem estudante de graduação chamado Stanley Miller “eletrocutou” alguns gases e formou aminoácidos – que são as unidades formadoras das proteínas, um dos mais importantes componentes celulares. Milhares de jornais no mundo todo, porém, erroneamente publicaram que ele criou, em essência, vida em um tubo de ensaio.  Esse experimento tornou-se ortodoxia para os livros didáticos.

Contudo, os livros didáticos tendem a apresentar supostas “provas” da evolução sem nenhuma discussão crítica. A menos que os estudantes consultem outras fontes, eles frequentemente supervalorizam a conexão entre as moléculas orgânicas e a vida. Afirmações ousadas como “moléculas orgânicas poderiam ter surgido em uma Terra estéril” tendem a iludir os estudantes, levando-os a acreditar que moléculas orgânicas são equivalentes a vida. Mas “orgânico” não significa que as moléculas são vivas. Simplesmente se refere a qualquer molécula que contenha o elemento carbono.

Alguns dos compostos orgânicos importantes para a origem da vida são os aminoácidos e os carboidratos. Para que a vida aconteça, estes e outros compostos inorgânicos devem se organizar de um modo específico. A diferença entre vivo e não-vivo não é tanto as substâncias contidas, mas como essas substâncias estão organizadas.

Compostos químicos inorgânicos podem se organizar nas sequências precisas que observamos nos sistemas vivos atualmente? O experimento de Miller realmente mostrou que a matéria tem essa capacidade? Pensando em termos estritamente naturalistas, tentaremos responder essas questões. Como poderia a primeira célula ter se originado na hipotética “sopa primitiva”?  Quais teriam sido as primeiras sub-unidades, àquela época, que poderiam ter dado origem à primeira célula?

O experimento de Miller criou alguns dos mais simples aminoácidos e outros componentes mais simples por meio de descargas elétricas em um mistura dos gases metano, amônia, vapor de água e hidrogênio. Isso significa que talvez os aminoácidos poderiam ter sido os primeiros componentes a formar a célula? De jeito nenhum. A primeira coisa a ter em mente é que os experimentos no laboratório muitas vezes diferem do mundo real em vários sentidos.

Problemas químicos

Para começar, o experimento de Miller usou um balão de vidro equipado com uma armadilha para coletar aminoácidos. Nos relatos dos livros didáticos, a armadilha é descrita apenas de passagem, como parte do aparato que ele usou. Quase nunca é mencionado que a armadilha servia para proteger os aminoácidos da mesma energia usada para criá-los.

De fato, essa energia seria milhares de vezes mais eficaz na destruição dessas moléculas que na sua formação. Alguns propuseram que poças de maré, lagos ou lama devem ter servido como armadilhas na Terra primitiva. “Mas solucionar o problema da armadilha seria outro problema, porque as moléculas que devem ser protegidas das fontes de energia também precisam daquela energia para avançar para o próximo estágio. De modo que a ideia de uma armadilha seria, na verdade, fatal à teoria da evolução.” (1)

Mas e se tanto os aminoácidos como os carboidratos fossem, de alguma forma, capazes de vencer todas as incríveis dificuldades e não apenas existir, mas co-existir? Dr. Duane Gish, que tem ampla experiência na formação de proteínas, diz (2), “Quando aminoácidos e carboidratos estão juntos, combinam-se tão prontamente que cancelam um ao outro… Quando um aminoácido e um carboidrato se ligam dessa forma, o produto não é nem carboidrato nem aminoácido. Isto é, eles se combinam quimicamente e se destróem mutuamente.” (3) Gish diz que geralmente se assume a existência de mais aminoácidos que carboidratos na Terra primitiva. Se esse fosse o caso, também não ajudaria em nada os evolucionistas. Todos os aminoácidos reagiriam com os carboidratos disponíveis e não haveria  mais carboidratos para criar a “espinha dorsal” da molécula codificadora vital, o DNA.

Mas vamos dar aos evolucionistas o benefício da dúvida. Vamos admitir que de alguma forma os carboidratos estavam disponíveis e o DNA se formou. O que aconteceria com ele? “Muitos acreditam que a vida se formou no oceano”, diz Gish. “Porém, na água, os nucleotídeos [unidades que formam o DNA] não se ligam, mas se quebram através de um processo chamado hidrólise. Nesse processo, perde-se energia. É justamente o contrário do necessário. Para formar uma molécula de DNA, tremendas quantidades de energia devem ser liberadas, a fim de forçar a formação das ligações químicas.”

Para que os nucleotídeos se liguem corretamente, eles precisam de energia, bem como de pelo menos 200 enzimas (um tipo de proteína que acelera reações químicas) trabalhando juntas. Isso é um paradoxo. As enzimas são necessárias para formar o DNA, combinando os nucleotídeos, só que essas enzimas não podem ser formadas sem que o DNA as codifique.

Sugerir que uma ou duas sub-unidades existiam antes da presença de uma célula é totalmente falacioso. Além disso, as células funcionam por interdependência, isto é, uma parte depende de outra.

Problemas ignorados

Qualquer busca por uma explicação naturalista para a origem da vida deve confrontar e tentar responder os inconstestáveis obstáculos acima. Não é surpresa que essas incríveis complicações sejam censuradas em quase todos os livros didáticos de biologia. Se essa informação crítica fosse incluída nos currículos de biologia, a grande maioria dos estudantes teria que concluir que a matéria não pode ter se transformado em seres vivos.

Além disso, eles chegariam a essa conclusão baseados no que sabem e podem ver acerca das propriedades da matéria. Deus nunca teve a intenção de fazer mistério acerca de nossas origens. Ele disse que somos claramente capazes de ver Seu poder e divindadade na natureza (Romanos 1:20). A origem da vida é misteriosa somente para aquele que já foi exposto a todos os fatos, mas ignora-os, na esperança de encontrar uma solução “livre de Deus”

Contando à mão esquerda o que faz a direita (*1)

Outro fato, poucas vezes mencionado a respeito do experimento de Miller, é que foram criados dois tipos de aminoácidos – imagens especulares um do outro, como nossas duas mãos. Os sistemas vivos são compostos apenas por aminoácidos “canhotos”. Porém, nas experiências de Miller, e em qualquer processo natural, sempre se obtém uma mistura 50:50 de aminoácidos “canhotos” e “destros” (*2). Quando ambos os tipos estão presentes, eles se combinam quimicamente, de forma que a proteína resultante fica totalmente inativa. Por si mesmos, os aminoácidos produzidos no balão de vidro de Miller não são nada além de becos-sem-saída da teoria evolutiva.

Os experimentos de Miller falharam em demonstrar como a preferência da vida por moléculas exclusivamente “canhotas” pode ter surgido naturalmente. Em uma extensa entrevista, o Dr. Duane Gish nos explicou como o comportamento natural das moléculas orgânicas estabelece problemas insuperáveis para uma origem naturalista da vida. “Sem a presença do DNA para direcionar a sequência dos aminoácidos”, diz Gish, “a tendência natural é que ambos os tipos de aminoácidos se combinem um ao outro, na mesma proporção. Moléculas “canhotas” não tendem a reagir somente com “canhotas” (1). Com isso ele quer dizer que a tendência normal seria que talvez dois ou três aminoácidos “canhotos” se ligassem, então viria um “destro”, depois talvez um “canhoto” e assim por diante. Ele diz que o problema com a presença dos dois tipos é que proteínas normais contém, em média, 400 aminoácidos. Isso significa que, por acaso, 400 ou mais aminoácidos “canhotos” teriam que se ligar sem a presença de qualquer aminoácido “destro”. “Se tivermos uma proteína com 400 aminoácidos”, Gish explica, “a probabilidade de haver apenas aminoácidos canhotos é de ½ elevado a  400 vezes (½^400 ) [ou uma em 4 x 10^121, que é um número tão grande que teria que ser escrito como um 4 seguido por 121 zeros]. Se apenas um aminoácido “destro” se ligasse a qualquer um desses 400 “canhotos”, isso resultaria em uma cadeia protéica totalmente inativa. E ficaria inativa porque os aminoácidos “destros” alteram a forma da cadeia. Uma enzima [que é um tipo de proteína] deve ter uma configuração bem precisa, a fim de permitir sua ligação a um substrato. Se o substrato não puder se ligar a enzima, ela é totalmente inútil.”

Talvez essas proteínas inúteis poderiam ter uma chance melhor se o DNA tivesse se formado primeiro. Talvez os carboidratos que foram criados em outros experimentos de origem-da-vida pudessem aparecer junto com os fosfatos e bases para produzir o DNA. Como os aminoácidos, os carboidratos ocorrem também nas formas “destra” e “canhota”. Contudo, somente os “destros” são encontrados nos seres vivos. O problema com a presença de ambas as formas é que isso impediria a junção das duas fitas complementares de DNA. Neste ponto em particular, Gish faz uma analogia muito útil. “Imagine que você tenha uma série de luvas destras amarradas uma à outra, e então você quisesse inserir mãos direitas nessas luvas. Se uma das mãos for a esquerda, você jamais conseguirá fazer isso.” Se duas fitas complementares de DNA não pudessem se juntar, jamais haveria a forma de dupla hélice. Sem essa forma, o DNA não seria capaz de replicar ou desempenhar qualquer um de suas funções conhecidas.

Nota
Entrevista pessoal com o bioquímico Dr Duane Gish, em 13 de maio de 1996.

NT1: O fenômeno descrito neste box é conhecido, tecnicamente, por “quiralidade”.

NT2: Optei por usar os termos “canhoto” e “destro”, em substituição aos termos técnicos “levógiro” e “dextrógiro”, respectivamente, para facilitar o entendimento. Os termos significam a propriedade que determinada molécula tem de desviar luz polarizada. A moléculas levógiras a desviam para a esquerda, e as dextrógiras a desviam para a direita.

Referências e notas

(1) Bliss, R., Parker, G. e Gish, D., Origin of Life, CLP Publishers, California, USA, 1990.
(2) Entrevista pessoal, 13 maio 1996. Dr Gish tem Ph.D. em Bioquímica, pela University of California, Berkeley, e foi Vice-Presidente do Institute for Creation Research, em San Diego.
(3) O grupo amina (–NH2) do aminoácido reage rapidamente com o grupo carbonila (O=C<) do carboidrato, liberando uma molécula de água (H2O), formando uma imina (HN=C<), que é inútil à vida.

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