por Daniel Ruy Pereira

Quando você administra um blog, precisa dar uma olhada em um monte de coisas, como o número de acessos totais, quais os posts mais acessados, os termos mais buscados. A parte estatística acaba sendo estimulante também. E, às vezes, a gente tromba com preciosidades como a que deu origem ao título deste post. Alguém digitou “é possível amar a Deus e a Darwin”. Só que, provavelmente, não teve sua busca satisfeita, porque não é comum ver relações entre as palavras “amor”, “Deus” e “Darwin”. Não sei quem foi que digitou esses termos no campo de busca. Mas é bom, de vez em quando, como dizem Francis Crick, no livro “Vida: sua origem e mistérios”, e muito mais gente, “dar asas à imaginação”. Vamos lá.

Talvez o autor da pergunta seja um estudante de Biologia ou Ciências Naturais, primeiro ou terceiro-anista, que busca fazer a desejada conciliação entre ciência e religião. Quem sabe, um professor de ciências de Ensino Fundamental, em crise diante de uma pergunta inteligente de um de seus alunos de sétima série. Ou um professor de Ensino Médio que gostaria de responder a perguntas bem feitas de seus alunos interessados. Talvez seja um cristão atormentado pela mídia evolucionista. Ou (por que não?) um darwinista que começou a ver sentido no Design Inteligente ou no Criacionismo – ou no Cristianismo.

Seja como for, amigo buscador, você me deu razão para escrever um novo post. Obrigado!

A importância da crise para o pensamento científico

O ato de pensar sempre nos leva para algum lugar. Essa é a grande maravilha do cérebro, que as igrejas, religiões, políticas e filosofias sócio-econômicas e científicas tentam, na maioria das vezes, suprimir – por motivos que entendemos muito bem: controle, alienação, submissão irrestrita, absolutismo, consumismo, vaidade e bolsas de pesquisa. Os suprimidos, embora não tenham culpa de pensar, sofrem com a supressão, porque sentem-se sozinhos e impotentes. Os supressores, por outro lado, riem e engordam às custas dos suprimidos, mas torcem para que os últimos não se multipliquem. Se os suprimidos tomarem consciência da supressão, o sistema fica ameaçado, os supressores perdem seu poder e conforto e acontece o que chamamos revolução.

Pensar no sistema é legal, mas eu gosto de individualizar as coisas. Para a pessoa comum, eu e você, o ato de pensar é, muitas vezes, doloroso. Quando uma ideia abala o nosso sistema de crenças, o mundo parece ficar muito fluido, e ninguém gosta disso. A sensação é de estar em queda livre, sem para-quedas, torcendo para que o solo seja de gelatina. Mas isso não é o fim do mundo (embora pareça)! Deve-se ter calma para saber que os dilemas não têm respostas hoje, mas nada impede que elas apareçam no futuro. O epistemologista Thomas Kuhn adverte:

Embora seja improvável que a ciência registre seus nomes, indubitavelmente alguns homens foram levados a abondonar a ciência devido à sua inabilidade para tolerar crises. Tal como os artistas, os cientistas criadores precisam, em determinadas ocasiões, ser capazes de viver em um mundo desordenado… (1)

O cientista, bem como qualquer outro pensador, deve ter em mente que todos os sistemas de crença são fluidos e passíveis de serem abalados pela menor perturbação. Mas a perturbação permite sua reorganização, geralmente com um grande salto de qualidade.

Então é possível amar a Deus e a Darwin?

A resposta para a pergunta título é um caloroso “Siiiiiiim!!!”. Com três exclamações mesmo. Há vários cientistas que creem em Deus e creem em algum tipo de evolução. Entre eles há quem interprete o Gênesis alegoricamente, tentando conciliá-lo com a teoria moderna da evolução. Acreditam que nada impede que Deus pudesse criar a vida e deixá-la evoluir ao “deus-dará”, por meio do acaso e da morte. Todavia, quando acrescentamos a teologia, que nunca pode ser desprezada nesse debate, por ser parte fundamental dele, essa equação fica desequilibrada. Essa teoria não funciona bem, e é um frankenstein científico-teológico. Por isso também há os que interpretam o Gênesis  literalmente, negando uma evolução de bilhões de anos, das bactérias ao homem, contudo sem negar a seleção natural como mecanismo produtor de novas espécies, que é justamente a ideia principal de Charles Darwin (2). Esses últimos estão em melhor posição quando acrescentamos à equação a variável “teologia”. Não têm todas as respostas, mas a harmonização com os dados, não com as interpretações evolucionistas,  é bem mais fácil.

Darwin não estava certo em tudo o que disse, mas seu mérito jamais pode ser diminuído. Contra um sistema de fé falho, em suas crises de fé, lançou questões importantíssimas que mudaram radicalmente o rumo da humanidade (3). Quem negar sua importância na história da biologia, da filosofia e da teologia está ficando louco.

Referências

(1) KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 109.

(2) A diferença é que, para esses criacionistas, algumas espécies originais foram criadas miraculosamente e, a partir de um evento histórico conhecido como “A Queda”, que foi o ato de desobediência do homem contra seu Criador, a seleção natural começou a agir, selecionando os mais aptos e eliminando os menos aptos. Ou seja, a partir de tipos básicos originais, houve especiação e a biodiversidade atual se deve a isso.

(3) Para quem duvida, é só lembrar que o nazismo só foi possível pela aplicação das principais ideias de Darwin: a sobrevivência dos mais aptos (que foi mal interpretada como “sobrevivência dos mais fortes”) na luta pela vida e a seleção natural (que virou seleção artificial dos arianos sobre os outros).

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