Quando ouvi falar de “O livro de Eli”, o mais recente filme estrelando Denzel Washington – um dos atores que mais gosto de assistir -, não me empolguei muito. Mas gosto de ver que estou errado. O filme se revelou melhor e mais inteligente do que eu imaginava, se transformando em um dos filmes de ação mais legais que eu já assisti – até por causa do tema. E, se você não viu o filme ainda, e quer saber o que acontece no final, é melhor ir alugá-lo primeiro, e depois continuar lendo esse post, porque há muitos spoilers, e eu não quero estragar a festa. O trailer está aqui embaixo.

youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ozoag5SnnKg

A história se passa em um futuro não muito distante, depois que um evento solar cataclísmico matou a maioria das pessoas, queimou as plantas e tornou os óculos escuros itens fundamentais para a sobrevivência. Como morreu muita gente, a humanidade vive agora espalhada por aí, alguns vivendo como andarilhos, e outros constituindo comunidades pequenas. Outros, porém, tornaram-se ladrões de estrada, atacando, matando e roubando qualquer coisa que valha a pena de andarilhos solitários. Aliás, quando se quer comprar alguma coisa, isso é feito na base da troca de objetos, à moda antiga…

Eli (Denzel Washington) é um desses andarilhos solitários, que tem uma habilidade incrível com sua “peixeira” (machete). No começo do filme ele mostra sua habilidade às últimas consequências, para o azar de seis ladrões que queriam sua mochila. Eli não podia se desfazer dela, pois lá havia algo de valor inestimável: o último exemplar de um livro, que Eli lê todos os dias, infalivelmente, e protege com sua vida. Todos os outros exemplares foram queimados após o cataclismo e a guerra.

Mas existe outra pessoa que também quer o livro. Seu nome é Carneggie (interpretado por Gary Oldman), que reuniu uma comunidade em torno de si e governa essas pessoas, fornecendo-lhes água e comida, e se rodeia de guarda-costas. O homem já aparece lendo a biografia de Mussolini, e isso dá uma ideia do que esperar dele. Nesse momento, seus capangas trazem a ele uma sacola de livros roubados de dois pobres andarilhos. Carneggie dá uma olhada neles, mas nenhum lhe interessa, e manda queimá-los. O único livro que ele deseja, mais do que tudo, não está lá.

Pois é, o livro que Carneggie tanto quer é o livro que Eli carrega. Agora, querido leitor, começam mesmo os spoilers.

Duas formas de ler o Livro

Depois de uma meia hora de filme, descobrimos que o livro que Eli carrega é a Bíblia (1). Fazemos uma ideia disso porque Eli é uma máquina de citar versículos, em contextos perfeitos (por exemplo, cita a Maldição de Gênesis 3, adaptada, “e ao pó voltaremos” antes de mutilar os inimigos que o atacam em um bar). Ao longo do filme, vemos como ele vê a Bíblia como esperança para o mundo perdido em que vive. Enquanto isso, descobrimos que Carneggie quer a Bíblia porque ela é uma “arma”, capaz de dominar as mentes dos fracos, e com a qual ele poderá ter seu poder absolutamente consolidado.

A Bíblia é a mesma, mas a forma de vê-la é totalmente oposta. Esse aspecto do roteiro é sombrio para mim, até porque vemos que isso aconteceu ao longo da história e acontece hoje em muitas igrejas. A Bíblia foi usada como ferramenta de dominação pela Igreja durante a Idade Média, e como ferramenta de libertação durante a Reforma Protestante – a Europa medieval foi alfabetizada por causa da Bíblia. Hoje, a Bíblia é usada como referência para viver uma vida correta e esperança para a humanidade por muitos cristãos e líderes, mas é usada por outros a fim de sustentar superstições cristãs estúpidas e práticas usurpadoras, como a obrigatoriedade do dízimo e a barganha com Deus, por outros. E isso a Hermenêutica Bíblica explica: textos bíblicos interpretados fora de seus contextos literários, históricos e culturais fazem um mal absurdo àquele que lê (e àqueles que ouvem o que esse mal intrérprete prega).

A forma certa de ler o Livro

Em certo momento Carneggie tenta convencer Eli a ficar em sua cidadezinha. E, a fim de convencê-lo, diz algo assim: “Você não quer que a mensagem do livro se espalhe pelo mundo e cure os nossos males?” Ao que Eli responde: “Não há nada que eu queira mais, mas ainda não encontrei esse lugar.” Com isso, Eli vai embora, mas não sem enfrentar uma saraivada de tiros.

É, porém, interessante ver como Eli se comporta frente à Bíblia. Ele a lê todos os dias e procura aplicar as lições à sua vida. Mas nem sempre o faz. É interessante ver como, em certo momento, dois andarilhos são atacados e uma moça estuprada por ladrões; ele vê a cena, mas fica repetindo para si mesmo: “Siga seu caminho. Isso não é da sua conta.” Difícil não lembrar da parábola do Bom Samaritano. Depois, ao encontrar o ladrão-estuprador-assassino, diz que ele vai prestar contas pelo que fez. Perto do fim do filme, porém, ele admite que tentou tão desesperadamente proteger o livro que esqueceu de uma das mais importantes lições que ele ensina: ajudar mais aos outros que a si mesmo.

É claro que o contexto do mundo de Eli é desconhecido para nós. Para sobreviver e para cumprir sua missão, como em uma guerra, ele precisa matar. Até aí a situação é compreensível. Contudo, Eli acaba cedendo a tentações. Em um momento, ao ter vencido um oponente, ele poderia tê-lo deixado em paz, mas resolveu matá-lo a sangue frio. E só não fez isso de novo porque uma garota (Solara, interpretada por Mila Kunis) o impediu. Mesmo assim, Eli se distinguia de todas as outras pessoas de seu mundo, porque tentava viver de acordo com o que lia todos os dias.

Mas quem não tem pecado atire a primeira pedra. Qual é a pessoa que vive de acordo com todos os princípios bíblicos? Ninguém consegue, se Deus não nos ajudar. O padrão ético que Deus nos deixou é elevado e dignifica o homem. E não é impossível, se nos dispomos a obedecer tudo o que Ele diz em Sua palavra (e Ele nos ajudar). Todos caímos, mas Deus está sempre lá para nos levantar.

Uma história sem fim

O melhor desse filme é seu final. Carneggie consegue tirar a Bíblia de Eli, inclusive atirando a queima-roupa em seu estômago. Confuso. Eli dizia acreditar que era “protegido”, e víamos isso ao longo do filme. Pareciaque nenhuma bala conseguia pará-lo. Só que, dessa vez, ele fica estirado no chão, enquanto Carneggie leva a Bíblia embora. Quando consegue abrí-la, porém, uma surpresa: a Bíblia está em braile. Quê?

O corte da cena mostra Eli de pé, indo para o Oeste, até que Solara o encontra e dá uma carona até onde ele precisa ir. Chegando ao Oeste, alguns sobreviventes construíram uma biblioteca, e só está faltando a Bíblia. Eli então começa a entregá-la. Ele decorou a Bíblia toda, e vai citando-a, versículo a versículo, até o final. E descobrimos que ele é cego. Só um milagre poderia ter feito isso.

Nessa parte do filme, cristãos como eu já estão gritando: “Filmaço! Filmaço!” Porque essa parte do enredo ilustra o que diz Jesus, em Mateus 24:35.

Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão. (NVI)

Nos últimos 2000 e poucos anos, imperadores romanos tentaram destruir a Bíblia, a Igreja escondeu a Bíblia, deturpou a Bíblia Fragmento da Septuaginta, séc. I. Imaem de wikipedia.org.e desobedeceu a Bíblia. Na Reforma, a Inquisição destruiu as Bíblias que eram traduzidas para a língua do povo. Mas a Bíblia nunca desapareceu. Hoje, aqueles que dizem que a Bíblia foi modificada não sabem o que estão dizendo, pois existem mais manuscritos da Bíblia que de qualquer outra obra. Mesmo Bíblias anteriores a Cristo, como a Septuaginta (2) podem ser compradas pela Internet, e quem quiser pode estudar grego e hebraico e constatar o que estou dizendo (3). A Bíblia é indestrutível, como diz Henry Thiessen, porque Seu Autor é indestrutível.

No final das contas, Eli é como todos nós. Cego. Nunca sabemos o que a vida nos trará amanhã. Jamais seremos capazes de prever nosso futuro. Mas podemos ter fé e nos render a Deus, levando uma Bíblia conosco todos os dias, deixando-a nos guiar pela vida. O salmista estava absolutamente inspirado quando escreveu o Salmo 119.

A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho. (Sl 119:105, NVI).

Eli que o diga.

Notas

(1) Os produtores fazem questão de dizer, nos extras, que o filme não é religioso, e que poderia ser qualquer outro livro, como o Corão, ou a Torá, ou ainda qualquer outro que tivesse informações importantes para a humanidade. Concordo com isso, mas devo confessar que achei que a Bíblia foi a escolha perfeita, por tudo o que ela representa para a nossa sociedade ocidental.

(2) Tradução grega do Velho Testamento, feita entre o terceiro e o primeiro século antes de Cristo. Veja mais em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Septuaginta.

(3) Veja mais em http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/texto_novotestamento.htm.

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