por Daniel Ruy Pereira

Existem perguntas que nos recusamos a fazer. Principalmente se temos algum tipo de religião. Perguntas como a do título tendem a ser engavetadas em um dos compartimentos do cérebro. Pensamos que a resposta para essa pergunta é muito fácil. “Ah, a vida serve para nos treinar para a vida eterna”, pode-se ouvir alguém dizer. Só que essa resposta não me satisfaz. Pode servir pra alguns, mas pra mim é insuficiente. Olha só: todos nós sofremos, e esse sofrimento visa nos preparar para vivermos eternamente felizes, sem nos lembrar de nada do que passamos aqui (1). Não há o menor sentido nisso! Meus sofrimentos me preparam para que eu me esqueça deles na eternidade, pra resumir. E então serei feliz. Uma visão pra lá de hedonista da eternidade.

Pior que isso é a postura hedonista da nossa sociedade. Ouço com frequência as pessoas dizerem que o único objetivo do ser humano é ser feliz. Trabalhamos para sermos felizes, amamos para sermos felizes, sofremos para sermos felizes, para chegar ao final de tudo e ver que poderíamos ter sido ainda mais felizes e não fomos. Aí, ficamos tristes e morremos, infelizes.

Mas nada se compara à postura do ateísmo. Ele ensina que a vida não tem o menor sentido, já que é um acidente evolutivo. Vamos tentar dizer de um outro modo. O tempo geológico é vasto. O universo tem uns 15 bilhões de anos (2) de evolução casual; a Terra uns 4,5 bilhões de anos e a vida uns 3,5 bilhões de anos, no máximo. O surgimento dessas coisas não tem motivo algum. Apenas surgiram. Poderiam não ter surgido, mas surgiram. É isso. Nós, humanos, somos produto desse vasto tempo de experimentação da seleção natural, melhores em nada comparados a qualquer coisa. Somos apenas um estágio atual da evolução de uma espécie específica, uma das sendas que a evolução poderia tomar em seus tortuosos e imprevisíveis caminhos. De toda a humanidade, e das outras espécies, apenas os mais adaptados às circunstâncias ambientais sobreviverão, deixando descendentes, que repetirão o processo até o fim da espécie, que pode acontecer catastroficamente ou não. O indivíduo não tem a menor importância. Ele é apenas um carregador de genes que, no final da vida, poderá ou não contribuir com sua espécie (3). Morreu, acabou. Tudo o que ele passou não teve o menor sentido, senão demonstrar sua boa ou má adaptação ao mundo.

O mais irritante nessa visão é que várias pessoas que a professam dela se ufanam. É uma ótima visão, dizem, já que elimina aquela visão da humanidade como o centro da criação: ela não passa de mais uma espécie animal no mundo. Parece que, do Renascimento para cá, os pensadores ficam cada vez mais satisfeitos em concluir que não temos valor algum. Isso sim é que é progresso… (4)

Essas perspectivas me cansam. Oferecem uma explicação que não explica e não satisfaz. E, ainda por cima, quando contra-argumentamos, nos dizem: “Paciência. É a realidade, queira você ou não.”

Revolto-me contra essa “realidade”, pois não é real coisíssima nenhuma. Ela não me deixa escolha, senão a morte. Se a resposta para a pergunta do título é “a vida não serve para nada”, então nem minha existência nem a dos outros ao meu redor tem qualquer importância. Se não quiser mais, deixo de existir e pronto. Meus amigos, parentes e esposa vão sofrer, mas eles podem dar fim à sua existência se também quiserem, já que eles também não valem nada.

É um absurdo.

Algo me diz, esperneando, que não é assim. Todos, de uma forma ou de outra sentimos que a vida serve para alguma coisa (5). Internamente, gritamos: “Precisa haver um propósito!” Sabemos que 70 anos é muito pouco tempo, e queremos viver muito mais que isso. Queremos continuar. Queremos morrer e descobrir que

“ergue-se a cortina de chuva cinzenta deste mundo e tudo se transforma em vidro prateado. E então, você vê (…) praias brancas e além, um longínquo campo verde sob um rápido nascer do sol.” (6)

Afinal de contas, pra que serve a vida?

A resposta que darei é cristã. A nossa vida serve para conhecermos a Deus, que nos criou e, conhecendo-O, O honrarmos. Somos criaturas Dele, pertencemos a Ele e para Ele voltaremos. Fazendo isso, seremos felizes na medida certa, sofreremos na medida prevista por Ele e, quando morrermos, veremos o resultado dos nossos trabalhos e sofrimentos, com a promessa de viver a vida verdadeira eternamente (7).  A vida que Ele nos deu serve para aprendermos a conhecê-Lo e amá-Lo, pois somente isso faz sentido de fato.

“Agora que já se ouviu tudo,
aqui está a conclusão:
Tema a Deus
e obedeça aos seus
mandamentos,
porque isso é o essencial para o
homem.
Pois Deus trará a julgamento
tudo o que foi feito,
inclusive tudo o que está
escondido,
seja bom, seja mau.” (8)

Notas

(1) Colocando desse modo, reencarnar também não faz sentido. Quanto tempo levarei para evoluir e me tornar uma boa alma? E outra: chegando no além, o “véu do esquecimento” vai me ajudar a reencarnar sem lembrar de nada, para melhorar em sei-lá-o-quê (já que não me lembro, pois eu, como alma, fui levado a esquecer), pagando, justamente, os erros que cometi em uma outra vida, erros estes que acredito ter cometido, embora não me arrependa por nenhum, já que não faço ideia do que fiz. Absolutamente sem sentido.

(2) Veja POTTER, Christopher. Você está aqui: uma história portátil do universo. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

(3) Lembrar que essa explicação exclui a medicina e a busca de melhoria da qualidade de vida do homem. Os indivíduos que têm asma, bronquite, e outras doenças crônicas (como eu) provavelmente seriam eliminados pela seleção natural, mas a medicina impede isso. Assim, nós estaríamos afetando nossa própria evolução, especulam alguns.

(4) Estou sendo simplista de propósito. É evidente que tivemos muito progresso no mundo. As ciências médicas, exatas e humanas progrediram a ponto de explicar muitos e variados fenômenos. Porém, à pergunta mais importante, o anseio do homem em saber por que existe, não chegaram nem perto de responder.

(5) E não ajuda muito dizer que a vida de um indivíduo vale quando ele dispõe dela em benefício de outros. Por que ele faria isso? Em última análise, falando em termos de evolução, para beneficiar a transferência de genes…

(6) Foi o que Gandalf disse a Pippin em “O Retorno do Rei”, na adaptação de Peter Jackson da obra de J.R.R. Tolkien. Veja a cena abaixo:

(7) C. S. Lewis diz que o céu é mais real que a realidade que conhecemos. As plantas são mais reais, mais sólidas, as cores mais reais. É como se aquilo que vivemos fosse uma espécie de pintura fosca. Na vida eterna, essa pintura ganha todo o brilho que merece ter. Para saber mais, veja LEWIS, C.S. A última batalha. In: As crônicas de Nárnia. Volume único. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.730. E também O grande abismo. São Paulo: Vida, 2009.

(8) Eclesiastes 12:13-14, NVI.

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