por Daniel Ruy Pereira

Não chorem, não sofram, eu estou ABSOLUTAMENTE FELIZ! Era tudo o que eu queria: ter paz eterna com meu Deus e, se possível, com minha mãe. Eu não me suicidei, eu parti para junto de Deus. (…) Saibam todos que tiverem conhecimento desse documento que não estou desistindo da vida, estou em busca de Deus. Não é por falta de dinheiro, pois com o que tenho posso morar aqui, em Floripa ou no Sul. Mas acontece que eu não quero mais morar em lugar nenhum. Eu não quero envelhecer e sofrer. Eu vi minha mãe sofrer até a morte e não quero isso para mim. Eu quero paz! Estou cansada, cansada de cabeça! Não agüento mais pensar, pagar contas, resolver problemas… Vocês dirão: Todos vivem! Mas eu decidi que posso parar com isso, ser feliz, porque sei que Deus me perdoará e me aceitará como uma filha bondosa e generosa que sempre fui.

(…) Se existe sentimento maior que o amor, eu desconheço!” (1)

Leila Lopes escreveu essa carta, e outras a seus parentes, antes de ser encontrada morta, em seu apartamento do Morumbi, ao lado de um frasco vazio de veneno de rato. A polícia investiga como suicídio, e parece que foi mesmo o que aconteceu, pelo que ela passou nos últimos meses. Ela teve o útero retirado por causa da endometriose, que lhe dava dores terríveis. Confessou a uma amiga, alguns dias antes de morrer, que se sentia muito solitária. Então foi encontrada morta, com cartas destinadas a familiares e amigos e até a roupa que gostaria de vestir no enterro. Sua história é muito triste. Depois de ter atuado em novelas de sucesso na Rede Globo, migrou para a indústria de filmes pornográficos, e nunca mais conseguiu voltar a atuar em uma novela, o que era seu sonho. Tornou-se, no YouTube, motivo de zombaria e desrespeito por muitos (não todos) que comentaram vídeos seus.

Ao ler sua carta, fico pensando em sua vontade de encontrar Deus, sua certeza de que seria aceita por Ele, por causa de sua bondade e generosidade, e também no seu post scriptum: “Se existe sentimento maior que o amor, eu desconheço!” E eu me pergunto qual era a definição de amor que ela tinha. Estava completamente errada sobre como seria aceita por Deus (pois Ele nos aceita apenas pela fé em Seu Filho, não pelas boas obras que praticamos), mas esse seu pensamento sobre o amor é intrigante. Neste artigo, às vésperas do Natal de 2009, quero compartilhar alguns pensamentos com você sobre o amor. Vamos ver, com base na Bíblia, se Leila Lopes, e muitos dos leitores, estão certos sobre o amor.

Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. (1 João 4:10)

Desde o versículo 7 do capítulo 4 desta carta, o apóstolo João disserta sobre o amor de Deus. Ele fala coisas lindas, mas deixa você pensando: “Afinal, o que é ‘amor’?” Então, pela inspiração maravilhosa de Deus, ele responde essa questão. Neste versículo 10, fala sobre a natureza do amor, sobre a singularidade do amor e sobre a manifestação do amor. Vamos olhar para cada uma delas.

A natureza do amor

João começa limitando o amor a uma definição. “Nisto consiste o amor”. Ou seja, o amor é somente aquilo que ele vai dizer em seguida. É claro, há diferentes palavras gregas para “amor”, e diferentes tipos de amor, segundo os conceitos que utilizamos em nossa sociedade. Existe o amor de mãe, o amor de irmão, o amor de amigo, o amor de cônjuge, de filho, o amor altruísta (caridoso) e outros tipos. Essas expressões são nossa forma de dizer que gostamos de alguém, que temos por ela simpatia, e… sejamos francos: é difícil definir o amor que sentimos uns pelos outros. O motorista do fretado que me levava para a faculdade achava que o amor de mãe era maior que o amor de Deus. Mas é preciso lembrar que todos esses amores falham. Mães abandonam seus filhos. Amigos abandonam uns aos outros. A caridade pode ser hipócrita. Irmãos nem sempre são tão chegados assim. Filhos nem sempre amam seus pais. Cônjuges adulteram. Assim, isso que chamamos “amor” pode ser apenas uma ilusão.

João não vai falar de nenhum destes amores. Ele não está falando de uma ilusão. Ele está limitando sua definição ao amor de Deus, o único amor que é verdadeiro, perante o qual todos estes sentimentos de que falamos são como faíscas diante de fogueiras. Assim como as faíscas perdem a graça quando você vê uma fogueira grande, e o crepitar da lenha, também esses amores ficam ínfimos perante o amor de Deus.

A singularidade do amor

A definição de João diz o que o amor não é. Você deve ter percebido que ainda não falamos do amor cristão. Seria ele uma ilusão também? Para alguns, certamente, pois há muitos que professam amar a Deus, serem cristãos, mas não passam de arruaceiros no Reino de Deus.

“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres? Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!” (Mateus 7:21-23)

“Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me revelarei a ele”. (João 14:21)

Somente aquele que guarda os mandamentos de Deus o ama de verdade. Mas também não é deste amor que João está falando. O amor cristão é apenas um espelho do verdadeiro amor: mostra como ele é, mas não em toda a sua plenitude. Talvez você tenha se enquadrado, até agora, no grupo dos arruceiros do Reino. Talvez você tenha percebido o quanto foi iludido até agora. Tem jeito para você? Existe algo que possa tirá-lo da ilusão e consolá-lo?

Lembre-se que o Evangelho nunca, repito, nunca, se baseia no seu amor por Deus, porque você é falho e pecador. Baseia-se e gira em torno do amor de Deus por nós. Não merecemos uma gota deste amor. Não somos nem um pouco louváveis, nem um pouco admiráveis. Até os grandes líderes da história cristã, como Paulo, Lutero, Calvino, Martin Luther King e outros tinham suas falhas e pensamentos obscuros que só Deus conhecia. Mas o cristianismo nunca se baseou neles. O amor de Deus é singular. É sobre ele que precisamos falar, porque apenas ele pode nos tirar da ilusão, e nos transformar completamente em novas criaturas.

A manifestação do amor

O amor de Deus não é palavreado. Nada é mais ativo que o amor. Nunca gostei muito de filmes românticos (embora já tenha visto alguns fantásticos). Gosto mesmo de filmes de ação. Há muito romance neles também, quando o herói sai para salvar a mocinha. Já pensou se o herói ficasse parado? Se o Homem-Aranha deixasse o Duende Verde levar a Mary Jane, e dissesse: “Ah… Há muitas garotas por aí…”. Seria absurdo. Super-Homem sem Lois Lane também é inconcebível… Porque o amor precisa ser demonstrado, manifestado.

O amor de Deus é perfeito porque não ficou só no poema. Veio para a ação. Ele veio até nós, vestido de carpinteiro, morrendo na cruz pelos nossos pecados. Preste atenção à palavra “propiciação”. Ela significa “sacrifício que desvia a ira de Deus”. Deus enviou seu Filho para morrer. Jesus se dispôs a dar Sua vida. O Espírito Santo atuou para que Jesus fosse preso e crucificado, assegurando que alguns não creriam Nele. Os anjos deixaram Jesus sozinho de propósito. Não pense que a crucificação foi estupidez. Não ignore aquele pedaço rústico de madeira. Não olhe para ele com dó. Não feche os seus olhos. Abra-os bem e deixe entrar bastante luz. Grave as imagens em sua memória para sempre e entenda de uma vez por todas: aquele lugar era seu, porque você pecou um dia, ofendendo a Deus, como eu já o fiz. Merecíamos ser condenados à morte eterna. Mas Jesus tomou o nosso lugar, com o consentimento e aprovação do Pai e do Espírito Santo, para desviar a ira de nós. Desviar para onde? Para cima dEle mesmo! É como se o policial honesto prendesse a si mesmo para salvar o ladrão; como se o juiz condenasse a si mesmo para livrar o réu declarado culpado; como se o rei se condenasse à decapitação para salvar o traidor; como se o presidente dos Estados Unidos tomasse o lugar de alguém no corredor da morte. É absurdo, inconcebível, escandaloso! Parece loucura?

“… agradou a Deus salvar aqueles que creem por meio da loucura da pregação.” (1 Coríntios 1:21)

O amor de Deus é a única coisa neste universo que não é ilusão. Até quando você vai ignorá-lo?

Conclusão

Para mim, Leila Lopes desconhecia completamente esse amor. Isso me leva a pensar que, se não o conheceu é porque ou ninguém falou dele para ela, ou ela ouviu falar dele e deliberadamente o ignorou, preferindo acreditar em um sistema de fé que ela mesma criou – o que não entra na minha cabeça. Se você ignora este amor tão grande, motivo de nosso louvor a Deus, por nos salvar sem termos a menor possibilidade de entender por quê, então não há solução para sua vida.

Chegamos a mais um Natal e, enquanto as pessoas armam suas árvores e seus presépios, ignoram completamente o significado da manjedoura: Deus veio ao mundo para salvar os pecadores. Este é o verdadeiro sentido do Natal.

Referências

(1) YAHOO! BRASIL. Família divulga carta deixada por por Leila Lopes. Yahoo! Brasil Notícias, 08 dez 2009, 2h54min. Disponível em: <http://br.noticias.yahoo.com/s/08122009/48/entretenimento-familia-divulga-carta-deixada-leila.html&gt;. Acesso em 14 dez 2009.

RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave linguística do Novo Testamento grego. São Paulo: Vida Nova, 1995. p.590

Este artigo foi originalmente um sermão pregado por mim na Igreja Evangélica SOS Jesus em Santo André, no dia 13 de dezembro de 2009.

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