por Daniel Ruy Pereira

“Por que os alunos agem assim?”

Essa pergunta é feita por cada professor brasileiro, nesse enorme Brasil, com enormes problemas escolares. Pela palavra “assim”, entende-se “desrespeitosamente”, “irresponsavelmente”, “desonestamente”, “maliciosamente” e por aí vai. Quando somos estudantes dedicados nas carteiras de nossas faculdades, prestando atenção às aulas de Psicologia da Educação, Prática de Ensino e Didática, não percebemos que aqueles problemas discutidos sairão do limbo teórico e invadirão nossas realidades pacatas. Quando finalmente resolvem sair, muitas vezes não sabemos o que fazer, especialmente se somos parte do famigerado grupo de profissionais multi-uso, conhecidos pelo codinome “eventuais”, do qual faço parte.

Embora as respostas a esses problemas sejam sondadas e testadas o tempo todo, e muitas pessoas (incomparavelmente mais competentes que eu) proponham respostas e soluções a eles, a cosmovisão que os alunos têm sobre a realidade é fundamental, e não pode ficar de fora dessa análise. Por isso, apresento-lhes um “estudo de caso”, e proponho uma reflexão acerca do que temos visto.

A invasão do problema

Na última terça-feira, dia 28 de setembro, vivenciei um desses problemas. Ao substituir a professora de inglês, pensei em uma aula sobre meio-ambiente e sustentabilidade, já que minha gramática em inglês flutua entre o básico e o intuitivo. Armado com caixa de giz, diário escolar e canetas, entrei na sala de aula. Primeiro ano do Ensino Médio. “Bom dia”, desejei aos alunos. “Bom dia o #$%!&* !”, ouvi como resposta. Ignorei (em termos) e comecei a redigir o texto, que serviria de base para a discussão e atividade para nota, na lousa. Tentei muitas vezes explicar para poucos alunos, chamando à atenção os inconstantes, mas sendo completamente ignorado.

Minutos derradeiros da primeira aula, véspera do Intervalo. Saí caçando os cadernos que conteriam os preciosos textos, vistando aqueles que fizeram a atividade. Aos alunos que não fizeram, questionava o motivo e o número de chamada. Seriam punidos com “ponto negativo” no diário. Minha mão esquerda ficou cheia de números, de tal forma, que eu parecia ser obcecado por algarismos arábicos.

Eis o problema: dois alunos, que não fizeram absolutamente nada, ao serem questionados sobre seus números, deram-me número de outra aluna (sim, de sexo oposto) e nome de aluno inexistente. Não perceberam que consequências teriam suas ações? Ao pedir a atenção do Professor Coordenador para o caso, ele prontamente atendeu e foi à sala em que eu estava, já depois do Intervalo. Ao ser confrontado com seu crime, um dos dois alunos, então, desafiou-me e, em gesto de intimidação, exigiu que eu anotasse seu número na lista. Foi suspenso por “desrespeito a funcionário público”. O outro aluno foi transferido da escola, pois não foi a primeira vez que desrespeitava um professor, e a escola vinha tentando novas abordagens com ele há tempos, sem sucesso.

O que leva os alunos a tomarem esse tipo de atitude?

A exploração do problema

É evidente que esses alunos queriam se safar de encrencas, com a escola, com os pais e com os amigos. Para isso recorreram a essas atitudes anti-éticas, sem se preocupar absolutamente com suas causas, efeitos, e validade (além da eficácia). Não podemos esquecer que esses alunos estão em formação – são adolescentes, e estão se descobrindo. Mas já têm noções de ética, e sabem muito bem distinguir certo e errado não-relativos. Sabem muito bem que dar o número de outro aluno ao professor vai “ferrar” o outro, e isso é errado em qualquer perspectiva, mas mesmo assim o fazem. Por quê?

Em uma conversa com a professora de Filosofia da escola, observamos que os alunos, hoje, não tem nenhuma preocupação com o futuro, salvo exceções; nem se preocupam com o peso da responsabilidade de suas atitudes (não sentem medo do que virá). Como explicar que, na mesma classe, uma garota diga que quer estudar Física, e outro aluno diga que quer “pegar mulheres”? É interessante perceber isso, como é interessante perceber que os heróis de nossos alunos não são mais o Capitão Marvel, nem o Capitão América, mas o Capitão Nascimento, armado até os dentes, que tortura criminosos. Isso quando os heróis são policiais!

Façamos mais um por quê. Por quê eles perderam esse senso de futuro e de justiça? Dizer que herdam isso dos telejornais, que mostram a impunidade gritante do país e as atitudes esdrúxulas do Senado Federal responde um bocado, mas é pouco.

Botando Deus pra fora da sala

Quando começaram a tirar Deus de cena, o trem descarrilhou. Defendo a laicidade do Estado e da escola, mas deixar de aguçar a curiosidade sobre a existência de Deus é uma atitude tanto extremista como irresponsável. A dúvida gera cuidado. Quem duvida anda na ponta dos pés. Porém, sob a bênção da laicidade, o ateísmo quer nos convencer que Deus tem que ficar longe da sala.

Pois é, olha só no que dá.

É mais do que óbvio que há uma lei moral no Universo. É quase palpável, e está ilustrada na capacidade que temos de saber o que é certo e errado, em termos não-relativos. Algumas coisas são certas para determinadas culturas, mas erradas para outras. Determinadas coisas, porém, são erradas em todas as culturas. Por que esse fato não pode ser discutido em sala de aula? Só porque tem implicações metafísicas? Da mesma forma, por que não discutir as intrigantes impressões de que há uma Inteligência por trás do Projeto do Universo? Por que também há implicações metafísicas? Ora, é óbvio que há. Mas o que se pode fazer? Se a afirmação tem implicações metafísicas, a negação também tem as mesmas implicações. Ou não é metafísico, em uma aula sobre origem da vida, dizer a um aluno que ele é um acidente cósmico sem explicação ou propósito? Não se pode fugir dessas implicações, embora se possa muito bem (como temos feito até hoje) fechar os olhos e assobiar, esperando que ninguém pergunte nada constrangedor na sala de aula, e que levem suas vidas religiosas dissociadas de sua vida escolar, acadêmica, secular.

Professores – educadores – são responsáveis pela formação de seus alunos. Isso inclui principalmente a capacidade de questionar o mundo, as religiões, os fenômenos que nos cercam. A melhor ciência e os melhores cientistas são feitos assim. Escola não é lugar de evangelismo, tudo bem. Mas é lugar de perguntar sobre tudo, e sair de lá com pulgas atrás das orelhas sobre possibilidades. E, por que não, a possibilidade de um Criador, perante o qual deveremos prestar contas de nossos atos?

Isso poderia mudar um bocado nossa vida dentro das salas de aula…

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