por Daniel Ruy Pereira

Vocês sabem da minha paixão pelo cinema. Essa forma de arte está, se bem feita, entre as maiores elevações artísticas do ser humano. Mas, como praticamente tudo o que aparece nesse mundo vira mercadoria, o cinema é, como todos sabem, muito mal aproveitado. Não é o caso deste filme. Assistir O Show de Truman (1) é um deleite. É uma obra-prima daquelas que, quando terminamos de assitir, sorrimos e pensamos: “Caramba!”

Dirigido por Peter Weir, estrela Jim Carrey (como é evidente, em um dos seustruman melhores trabalhos), como Truman Burbank, e conta a sua história. Truman nasceu para ser o astro do maior reality-show da história, tem toda a sua vida filmada e controlada, em detalhes. O mundo todo sabe o que acontece com Truman. Menos ele. Embora seja o astro, não faz idéia de que sua vida esteja sendo montada por outros. Só essa sinopse já revela um dos roteiros (de Andrew Niccol) mais intrigantes já escritos. Mas não vou fazer uma crítica de cinema.

O filme é de 1998 – portanto, tem 10 anos. Porém, é incrivelmente relevante e atual, principalmente às vésperas de mais um cansativo e inútil Big Brother, e outros reality-shows, que não têm a menor função no ecossistema. O interesse no filme cresce à medida que descobrimos temas como Psicologia, Sociologia e (opa!) Teologia. Sem esquecer, é claro, de nosso debate sobre teorias da origem da vida.

Nossa influência naquilo que fazemos

O que a TV nos oferece? Em geral, nada. Ou melhor, muitas coisas, que não valem nada, em sua grande maioria. De fato, a TV influencia a sociedade (2), positiva ou negativamente. Ela pode informar e alienar, bem como outras mídias, inclusive a Internet. Isso é muito fácil de notar, e não é preciso fazer análises extensas para se chegar a essa conclusão. Contudo, não é só a TV que influencia. Somos influenciados também por idéias dominantes na sociedade, por personalidades famosas, por ícones que nos fascinam, por autoridades em determinados assuntos.

É exatamente por isso que os cientistas, conscientes do perigo de influenciar seus trabalhos com seus preconceitos e opiniões, usam o método do distanciamento. Por exemplo, quando eu estava na faculdade (terceiro ano, a disciplina era Psicologia da Educação), precisei, junto com meu grupo, fazer um trabalho de campo. Pesquisaríamos por quê os alunos de certa escola colavam nas provas. Se usássemos uma pergunta do tipo: “Você cola? (   ) Sim   (   ) Não”, é óbvio que os alunos marcariam o “Não”, mesmo que colássem, porque as pessoas tendem a responder o que é mais aceito pela comunidade em que estão inseridos. E a sociedade não vê a cola com bons olhos. Esse tipo de pergunta sempre deve ser evitado em pesquisas sociais. (3) Com o distanciamento, os cientistas podem observar, testar, fazer hipóteses e experimentar, a fim de chegar às conclusões relativas ao estudo feito.

Com isso, poderíamos dizer que a Ciência seria a mais forte candidata a verdade absoluta?

Não é bem assim. Para ser claro, a Ciência não quer ser Verdade, mas quer chegar o mais perto possível dela. Isso quer dizer que, quando você encontra um cientista falando certas coisas, e concorda com elas, não deve chegar para ele dizendo: “Ei, Sr. Cientista, isso é verdade!”, porque ele responderá, separando as sílabas: “Pro-va-vel-men-te”. No método científico, os dados obtidos por alguém devem ser passíveis de reprodução, se outros cientistas quiserem tirar a prova. Como em uma receita de bolo: quer ter certeza de que alguns ovos, farinha, leite e manteiga, misturados e aquecidos a uma certa temperatura, produzem um bolo? Então pegue a receita e experimente você mesmo.

Thomas Kuhn mostrou em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas (4) que a Ciência não está isenta de preconceitos. É uma atividade humana, e os humanos, cientistas ou não, podem ser influenciados, e carregam seu trabalho com aquela influencia, por mais que tentem não fazê-lo.

Empurrando goela abaixo

Voltando ao Truman, ele vivia em um mundo onde lhe empurravam, goela a baixo, seu modus vivendi. Suas escolhas eram feitas, mas monitoradas. Seus questionamentos eram propositadamente afogados, coibidos, por aqueles que dirigiam o espetáculo. Truman era condicionado a viver de acordo com o que daria mais audiência ao programa. (É revoltante pensar que seres humanos possam fazer isso uns com os outros – e fazem). Por outro lado, os habitantes da cidade, todos atores, faziam de tudo para manter o status quo. Usavam suas conversas com Truman para fazer comerciais e trabalhavam para manter o mundo o mais “real” possível.

Quando, porém, Truman começou a perceber evidências de que havia algo estranho na história de sua vida, passou a procurar meios de obter a verdade. E, cada vez mais, apareciam pessoas tentando dissolver suas idéias. Em uma cena, o garoto Truman se levanta na sala de aula e diz: “Quero ser um explorador, como o grande Magalhães”, ao que a professora responde: “Chegou tarde, Truman, não há mais nada a ser descoberto…”

Olhando por outro ângulo, é quase ridículo não perceber que fazem o mesmo conosco. Empurram-nos, goela a baixo, teorias sobre a origem da vida que não são como bolos. Os ingredientes, que se crê serem os necessários, não estão disponíveis; as condições de preparo não são mais as mesmas; e o pior: aconteceram no passado. Como ninguém dispõe de máquina do tempo para voltar lá e ver o que aconteceu, não dá para ter certeza, cientificamente falando.

Assim, somos compelidos a acreditar no que nos falam, sejam textos científicos ou bíblicos. Simplesmente temos que escolher em qual modelo vamos acreditar. Mas com base em quê escolhemos, se queremos saber a verdade? Baseados em evidências, como Truman. É preciso ir até o fundo e procurar o tesouro. É preciso ler, questionar, é preciso buscar. Nessas horas, sempre aparece um colega de sala, dizendo: “Pare com isso! A ciência já provou que a evolução aconteceu… Vai acreditar nessa besteira de Bíblia?” Ou então, um amigo da igreja: “Pare com isso! A Bíblia já provou que a evolução não aconteceu… Vai acreditar nesses cientistas que não sabem do que falam?”

Deus é roteirista, diretor ou dono do estúdio?

Outro ponto interessante no filme de Weir é como aparece o diretor do programa. Seu nome é Christof (parecido, hein?), e ele interfere no que Truman faz, a fim de que não perceba a verdade, iludido no mundo perfeito que ele mesmo, Christof, criou. Ele não permitia que as informações chegassem a Truman, e tirava de cena os atores que arriscavam pôr o esquema em risco.

Mas o Cristo de verdade não é assim, embora gostem de vê-lo desse modo: tirano, abusivo, mesquinho. As pessoas gostam que Deus seja retratado assim porque, com isso, conseguem arrumar um motivo para não gostar Dele.

Deus não faz conosco o que Christof fez a Truman. Não nos impede de ver a verdade. Pelo contrário, nos manda sinais para que a descubramos. Ele nos oferece o barco para navegarmos. Nos aconselha a não ficarmos inertes, sugando informações de uma tela. Ele é Quem nos diz: “… fazei prova de mim…”. Por isso, Deus é o maior encorajador da pesquisa científica! Por outro lado, deixou a Bíblia como registro confiável de Si mesmo e de Sua criação.

Conclusão

Você pode estar pensando. “Ei, esse cara está querendo me influenciar.” É lógico que estou. Isso não é um texto jornalístico, imparcial, mas uma apologia. Porém, estou sendo honesto. Quero que você investigue o que estamos dizendo. Estão querendo te empurrar uma idéia falsa de credibilidade quanto às origens da vida, uma falsa certeza. E não há certeza sobre a origem da vida, exceto aquela que se baseia na Palavra de Deus.

Pela entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que aquilo que se vê não foi feito do que é visível.” (Hebreus 11:3, NVI, grifo nosso)

Nosso pressuposto, nossa premissa, é a fé. A partir dela tentamos explicar o mundo (e, até esse ponto, não importa se você é cristão ou ateu; sua premissa baseia-se em acreditar ou não em algo). Só podemos nos basear em evidências. Temos nos esforçado para apresentar a você evidências sólidas de que o modelo bíblico é correto e crível. Porém, cabe a você ir mais fundo. Sair da segurança dos conceitos aceitos e buscar um mundo novo – desacreditado, mas verdadeiro. Só se faz isso acreditando.

Referências

(1) O SHOW DE TRUMAN: O show da vida. Direção de Peter Weir. Paramount Pictures, 1998. DVD, 103 min, aprox.

(2) VAZ, Sérgio. O Show de Truman – O Show da Vida/ The Truman Show. Blog 50 anos de filmes, 13 set 2008.

(3) ALVES-MAZZOTTI, Alda; EWANDSZNAJDER, Fernando. O método nas ciências naturais e sociais – pesquisa qualitativa e quantitativa. São Paulo: Pioneira, 1999.

(4) KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. (Me envergonho de dizer, mas ainda não li, então, não vou citar edição, editora, ou data de publicação.)

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