por Daniel Ruy Pereira

A pele é o nosso maior orgão, “proporcionando ao corpo um revestimento protetor, que contém terminações nervosas sensitivas e participa da regulação da temperatura corporal, além de cumprir outras funções.” (1) Além disso, é incrivelmente resistente e flexível. Como, porém, a pele mantém essa resistência e flexibilidade?

Isso foi um mistério por muito tempo, mas os cientistas do European Molecular Biology Laboratory (EMBL) descobriram, em dezembro de 2007, como funciona. (2, 3) O segredo está nos desmossomos, em sua ultra-estrutura, observada por meio de uma nova técnica de microscopia. (2)

O que são desmossomos?

ESQUEMA DE DESMOSSOMO. Baseado em JUNQUEIRA & CARNEIRO, 1997. p. 97. Desenho fora de escala, com organelas e estruturas desproporcionais para evidenciá-las. Ilustração minha.

Os desmossomos são estruturas celulares em forma de disco, existentes nas membranas plasmáticas de células vizinhas, responsáveis pela aderência dessas células. (4) De acordo com os pesquisadores do EMBL, “são junções adesivas intracelulares baseadas em caderinas.” (2)

Caderinas são proteínas da membrana plasmática, pertencentes a um grupo de proteínas conhecido como CAMs (Moléculas de Adesão Celular, do inglês Cell Adhesion Molecules). São elas que promovem a adesão celular, em uma relação direta com a concentração do íon Ca²+ no meio extracelular. Se a concentração desse íon for muito baixa, as caderinas perdem a adesividade. (4) Essas proteínas são encontradas na pele e também nos músculos cardíacos, “onde força combinada a flexibilidade é essencial.” (5)

Nós pudemos ver a interação entre duas caderinas diretamente, e isto revelou de onde vem a força da pele humana” – diz Al-Amoudi – “O truque é que cada caderina se liga duas vezes: uma à molécula da célula justaposta e outra à sua vizinha do lado. O sistema funciona um pouco semelhante a um velcro especializado, e estabelece contatos campactos entre as células. (3)

Depois de fitar a estrutura atômica da C-caderina nos sub-tomogramas médios, nós vimos um arranjo periódico de uma interação trans na forma de W e uma cis na forma de V, correspondendo às moléculas de membranas opostas e da mesma membrana celular, respectivamente. (2)

A evidência de design

Como uma estrutura tão especializada pode ter evoluído? Boa pergunta, porque os autores dessa pesquisa não abordaram o assunto. (5) Então, vamos analisar as informações que temos.

Os tecidos onde estão localizadas as caderinas são “essenciais à sobrevivência” (5) e já devem estar prontos no momento em que você nascer (na verdade, já estão prontos até mesmo antes). Se apenas uma dessas estruturas estiver prejudicada – a membrana plasmática, o desmossomo, as caderinas, a concentração de Ca²+ ou a organização semelhante ao velcro – todas determinadas geneticamente – não existe força nem flexibilidade. Ou seja, não existe pele, não existe músculo cardíaco, não existe vida.

Pelo que se entende de evolução, essas estruturas deveriam ter surgido gradualmente, aos saltos, por meio da adição de mutações ao DNA original, que deveriam se somar umas às outras até que a estrutura estivesse pronta, como os cientistas a observaram ao microscópio. Isso, naturalmente, levaria milhões de anos. Pergunta: que ser vivo pluricelular como o ser humano poderia esperar tanto tempo assim para evoluir, já que o primeiro homem já precisaria da pele exatamente como a temos hoje para sobreviver no ambiente hostil que encontraria fora do útero? Pois é evidente que todas essas partes têm que funcionar juntamente, desde o início da vida.

Diante de algo tão complexo como a pele humana, seria possível crer que os seres humanos evoluíram ao acaso? A resposta é simples. Não!

Referências

(1) DANGELO, José Geraldo; FATTINI, Carlo Américo. Anatomia humana básica. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2006. p. 173.

(2) AL-AMOUDI, Ashraf et al. The molecular architeture of cadherins in native epidermal desmosomes. Nature, 450, 832-837, 6 dez 2007. Resumo. Disponível em: <http://www.nature.com/nature/journal/v450/n7171/full/nature05994.html>. Acesso em: 23 mar 2008.

(3) WHY SKIN IS STRONG: cells stick like velcro. LiveScience, 05 dez 2007. Disponível em: <http://www.livescience.com/health/071205-close-look.html>. Acesso em 23 mar 2008.

(4) JUNQUEIRA, L.C.; CARNEIRO, José. Biologia Celular e Molecular. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1997. p. 95-97, 286.

(5) DESIGN IS SOMETIMES SKIN-DEEP. Creation 30 (2), mar-mai 2008. p. 8.

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