por Daniel Ruy Pereira

Em matéria publicada em 30 de novembro, deste ano do Senhor de 2008, Marcelo Leite, colunista da Folha de S. Paulo, em seu blog “Ciência em Dia” (1) fala sobre a iniciativa, do Colégio Presbiteriano Mackenzie, de ensinar criacionismo e evolucionismo ao mesmo tempo, no Ensino Fundamental, tanto nas aulas de Ensino Religioso como nas de Ciências.

Como devem se lembrar, no Rio de Janeiro, a governadora Rosinha Mateus, há alguns anos, “mandou” que o Estado carioca fizesse quase a mesma coisa nas escolas públicas. A diferença é que o criacionismo deveria ser ensinado somente nas aulas de religião.

Ora, essa notícia merece destaque. Porque, enquanto que Rosinha Mateus foi severamente criticada por evolucionistas (porque a criação não deve ser mencionada na escola, senão com desdém) e criacionistas (porque teorias sobre a origem do universo e da biologia devem ser ensinada em aulas de Ciências!), o Instituto Presbiteriano Mackenzie merece ser aplaudido, por inserir o criacionismo tanto no currículo de Ciências como no de Ensino Religioso. Parece contraditório, mas não é. Vejamos por quê.

1. Se alguém se propõe a explicar a origem do universo e da vida humana, se propõe a explicar algo que interessa, e muito, a todos nós, independentemente do credo religioso.

2. Se você é religioso, precisa saber qual é a explicação da sua religião para isso, já que a origem de tudo está relacionada aos problemas do presente (no caso específico do Cristianismo).

O criacionismo não necessariamente é cristão ou, como se diz, judaico-cristão. Há muçulmanos criacionistas, judeus criacionistas, cristãos criacionistas… bem, há muitas religiões no mundo. A esmagadora maioria tem um relato de criação por um Ser Superior. É claro que isso não pode ficar de fora do Ensino Religioso.

Portanto, é simplesmente necessário falar de criacionismo no Ensino Religioso. Mas e nas aulas de Ciências? Agora as coisas se complicam, porque entram em pauta questões como “em Ciência as explicações devem ser naturais”; “a autoridade bíblica é questionável”; “cientificamente, não podemos afirmar que Jesus é Deus”; “fé e ciência não podem andar juntas”. Cada uma dessas questões deve ser discutida, porém, as questões cruciais do cristianismo, todos sabem, não cederão, já que baseiam-se na autoridade bíblica como inspirada por Deus. E isso se deduz da fé, que não precisa de provas. Mas também não pode ficar de fora do ensino de Ciências, só porque contraria a “mais aceita” (e deificada) teoria da origem da vida: a teoria da evolução, desde que (e isso é importante) se proponha a explicar cientificamente as origens.

O Estado e a Igreja

O Mackenzie é um colégio confessional. E, como confessional, ensina o que está incluso em sua filosofia religiosa. Contudo, o que se deve ensinar nas escolas públicas? Com certeza, precisamos lembrar que existem alunos de diversas crenças. O professor não prega na sala de aula, nem tenta doutrinar seus alunos. Isso seria absolutamente anti-ético porque o professor está em uma posição influenciadora. Desse modo, seria um comportamento jesuíta pregar para os alunos e tentar convencê-los de que o Cristianismo é a verdade de Deus, ou que a Evolução é a verdade da ciência e a única que merece crédito. (2)

O que o Estado deve ensinar, então?

Vejamos a nova Proposta Curricular do Estado de São Paulo para o Ensino de Biologia (3), introduzida neste ano na rede pública de ensino. É interessante notar que a proposta abre um espaço excelente, ao considerar que a evolução é uma das teorias explicativas, que procura responder às questões de como tantas mudanças aconteceram nos seres vivos, comparando-se os fósseis com os organismos atuais (p. 44 (4)). Além disso, o texto da Proposta reconhece, na p. 34, que a origem e o sentido do universo são conjecturas, preocupações filosóficas, além de científicas. Evidentemente, a proposta (como esperaríamos) é evolucionista, porém, mais importante que isso, abre o espaço para o diálogo na sala de aula. Reconhece que o tema das origens tem explicações de natureza mitológica, religiosa e científica, e que os alunos poderão confrontar diferentes explicações sobre o tema (p. 46-47). Isso é um grande avanço, porque o que interessa é que os alunos saibam que tem gente indo contra a maré e dizendo que há explicações melhores. E, se alguém diz isso, merece, pelo menos, ser ouvido. É lógico.

Deixamos para reflexão a ótima análise de Charbel Niño El-Hani, bacharel em ciências biológicas, mestre e doutor em educação, publicada na Folha de S. Paulo em 6 de dezembro de 2008 sobre isso.

(…) de um lado, professores de ciências sempre devem ter em conta a diversidade das visões de mundo dos estudantes em suas aulas. Isso significa que deve haver, sim, espaço para a discussão de diferentes perspectivas sobre fenômenos que a ciência explica, incluindo o criacionismo, desde que representado na sala de aula, e não só na perspectiva cristã, mas em todas as perspectivas presentes entre os estudantes.

Mas, de outro lado, os professores nunca devem perder de vista que o objetivo do ensino de ciências é, como deveria ser óbvio, ensinar o conhecimento científico. Assim, é necessário, sim, que os professores estimulem os estudantes para que compreendam as idéias científicas – e tal como elas se apresentam no conhecimento científico atualmente aceito.

Seria certamente um rompimento do contrato didático entre professores, alunos, pais e administradores se, nas aulas de ciências, não se tivesse como objetivo ensinar ciências, mas idéias oriundas de diferentes tradições culturais. Nunca é demais repetir: professores de ciência estão ali para ensinar ciência! (…)

(…) o professor de ciências deve explorar essas vozes discordantes para discutir as variadas maneiras como os seres humanos compreendem e explicam o mundo e, mais, a importância de distinguir entre diversos discursos humanos, fundados em pressupostos distintos sobre o que constitui o mundo (pressupostos ontológicos) e sobre o que constitui conhecimento válido (pressupostos epistemológicos). (5)

El-Hani defende que o conhecimento científico deve ser ensinado, porque o professor está ali para ensinar Ciências. Perfeito! É isso o que os criacionistas querem e devem buscar. Por isso, ficamos felizes! O criacionismo tem como base o conhecimento científico válido, obtido através de pesquisas. O pressuposto é que é religioso. Mas o pressuposto evolucionista também não é? É ateu, portanto, religioso.

Referências

(1) LEITE, Marcelo. Criacionismo no Mackenzie. Disponível em: <http://http://cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br/>. Acesso em 3 dez 2008.

(2) É claro que não estou desencorajando o evangelismo na escola. Mas creio que o professor tem outras formas de pregar o evangelho para seus alunos; principalmente sendo um cristão dedicado, um professor estudioso e trabalhador, um amigo de seus alunos.

(3) PROPOSTA CURRICULAR DO ESTADO DE SÃO PAULO: Biologia. Secretaria de Educação do Estado, 2008. Disponível em: <http://www.rededosaber.sp.gov.br/contents/SIGS-CURSO/sigsc/upload/br/site_25/File/Prop_BIO_COMP_red_md_20_03.pdf>. Acesso em 16 dez. 2008.

(4) Não reproduziremos o texto aqui, porque o arquivo parece proibir a reprodução parcial, inclusive as citações. Mas pode-se baixar gratuitamente o arquivo no link da referência (3).

(5) EL-HANI, Charbel Niño. Educação e discurso científico. Folha de S. Paulo, São Paulo, 6 dez. 2008. Tendências/Debates, p. A3.

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