por Daniel Ruy Pereira

Não consigo evitar. Sou fã do Indiana Jones! Recentemente foi lançado o quarto episódio da clássica obra de George Lucas e Steven Spielberg: “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal“. Os críticos parecem não ter gostado muito, mas vocês sabem como são os fãs… Por mais certos que estejam os críticos, nós sempre nos deixamos levar pelo ardor da simpatia com a personagem.

De onde vem esse fascínio? Bem, posso dizer que cresci vendo os filmes do Dr. Jones na “Sessão da Tarde”. As aventuras pelas quais o arqueólogo passava a fim de recuperar artefatos históricos eram boas, mas não melhores que a própria busca do artefato. Ainda que fictícias, eram ótimas. Eu acompanhava o raciocínio de Indiana, tentando encontrar as evidências antes dele na limitada tela de TV. Mas não conseguia…

Porém, isso despertou minha curiosidade natural por conhecimento. Se um dia quis ser cientista, foi porque Henry Jones Junior foi meu herói, e acho que só não enveredei pela ciência da História porque a Biologia me conquistou. Afinal, os insetos e aranhas eram muito mais divertidos, além da garota que eu só poderia namorar, dizia minha mãe, se fizesse biologia. Deu certo: casei com ela e me formei biólogo!

Mas a grande lição que Indiana Jones nos ensina vai além das aventuras, cenas de ação e descobertas arqueológicas. Ensina o prazer que a ciência proporciona: o prazer da busca pela verdade. Que verdade seria essa, se é que ela existe e pode ser encontrada? Afinal, há muitas verdades, científicas e religiosas, e não poderia haver uma absoluta, certo?

Será mesmo?

Os caçadores da verdade perdida

O que motiva um cientista (eterno estudante) é o conhecimento. Conhecimento este que lhe causa interesse e motiva questionamentos, que clamam por respostas esguias, fujonas mesmo. Ser um cientista é encarar esfíges com enigmas do tipo “decifra-me ou te devoro”. E, no afã de buscar as respostas, se lançar ao estudo de conhecimento pertinente às questões.

Como vimos, porém, respostas são fujonas. Por isso o cientista segue um método com a finalidade de cercar essas procuradas Indiana Jones e os caçadores da Arca perdidarespostas, e obtê-las o mais verdadeiras possível. Este é o método científico, tão estimado de todos nós. Supomos portanto que, agora, o cientista possa encontrar a tal verdade não?

Seria bom se fosse tão simples. Contudo, existem problemas aqui, não propriamente no método, mas no seu executor – o humano. O objetivo do método científico é reduzir o número de falhas e imprecisões, de forma que os resultados obtidos com a investigação científica sejam reproduzíveis, testáveis. Isto é, que todo aluno de ensino fundamental aprenda e reproduza o experimento do feijão no copinho com algodão molhado, chegando ao resultado desejável: comprovar (neste caso) a hipótese de que todo feijão, ou semente, quando exposta a umidade e luz solar, deve brotar.

Mas e quando o experimento dá errado? Significa que ou houve uma falha ou a hipótese está errada. No caso da falha, a falta de atenção, o procedimento errado, até mesmo a falsificação – tudo pode acontecer. Isso prejudica o resultado obtido, e consequentemente o conhecimento obtido.

Porém, suponhamos que nosso cientista-mirim tenha sido rigoroso no experimento. Ele tinha uma pergunta (ou duas): “É a terra que faz o feijão brotar? O feijão pode brotar fora da terra?”, e uma hipótese: “com água e luz solar, pode ser que um feijão brote fora da terra, já que estes são os itens necessários para que ele brote dentro da terra.” Por isso, conduziu uma experiência que pudesse testar sua hipótese, observando os resultados. E produziu um conhecimento: “a semente é estimulada pela umidade e pela luz solar, e por isso pode crescer fora da terra.” No fim de tudo isso, ele estará orgulhoso, mas o feijão morreu. Por quê? E recomeça o processo, em uma espiral de acúmulo de conhecimento. A questão é: podemos chamar esse conhecimento de verdade? Basta perguntar: “é verdade que se eu colocar um feijão no copo e etc, ele brota? “Sim, é verdade.”

Repetimos: não é tão simples. Como vimos, pode haver falhas. Por isso se diz que uma teoria deve ser falseável (testável). Tudo isso é possível, quando trabalhamos com o presente, com fatos. Com eles até conseguimos prever eventos futuros, dependendo do fenômeno, sob as mesmas condições. Quanto ao passado, porém, é difícil testar. Assim, um arqueólogo (ou paleontólogo) encontra objetos do passado, no presente, e faz experimentos com ele no presente, simulando, no presente, mediante o que se conhece como provável, as condições a que aquele objeto estava exposto.

Por isso falar em verdade com teorias que tratam do passado é perigoso. Não se pode ter certeza do que ocorreu, e o máximo que conseguimos é levantar hipóteses. Quanto maior a plausibilidade e a possibilidade maior é a chance de que tal coisa tenha ocorrido. Nesse sentido, ser arqueólogo ou paleontólogo é bem diferente de ser químico experimental e trabalhar com dados atualizados constantemente. Trabalhar com o passado é caçar verdades perdidas.

O Templo da Perdição

Indiana Jones e o Templo da Perdição

Deixando de lado os palentólogos, Indiana Jones, na busca pelas pedras de Sankara, na Índia, encontrou uma seita antiga, que fazia sacrifícios humanos, usando as tais pedras em seu ritual.  Acontece de tudo: feitiços, vudoos, corações extraídos do peito e outras maravilhas hoolywoodianas. O mais interessantes, no filme, é o “sono negro de Kali”. Nele, a pessoa perde a consciência e fica enfeitiçado e controlável pelo sacerdote. Tudo com a finalidade de cultuar Kali – o deus que sobrepujará todas as divindades. Felizmente, Indiana Jones resolveu a história, senão o blog teria o título “Considere o Sono Negro de Kali”!

Eu penso se isso serviria de ilustração para o cenário acadêmico atual. Guardadas as proporções, há muitos que estão enfeitiçados com o progresso e com as relativizações da pós-modernidade.

…nossa época entrará para a história do mundo como aquela em que a tentativa de relativização da verdade foi feita em todos os âmbitos da vida, deste a questão dos valores morais até aqueles considerados mais subjetivos, como os conceitos religiosos. (1)

Realmente, vivemos a época das verdades perdidas. Hoje, mais nada é verdade (menos isso que acabo de dizer…). E, por isso, afirmações enfáticas como as bíblicas são dignas de descrédito. Esqueça aquela história de “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Não há verdade para conhecer, nem necessidade para isso. Esta é  a única verdade, diz nossa época.

Debaixo desse discurso, há um forte fundamento fragilizado: tudo é relativo porque nós somos relativos. Estamos evoluindo, sem propósito algum, neste universo em evolução. Será que ninguém quer saber se isso é mesmo verdade?

Todavia, percebe-se uma grande incoerência e hipocrisia em nossa sociedade quando clama pela verdade, luta pela verdade, naquilo que lhe interessa, e quando chega nas questões morais, espirituais e religiosas, as pessoas são possuídas subitamente por um espírito de relativismo que se recusa a ser exorcizado a não ser mediante forte persuasão.
Todos nós demandamos a verdade em todas as áreas da vida. Queremos que a esposa, o marido e os filhos nos digam a verdade, queremos que o médico nos diga a verdade, queremos que os corretores da bolsa de valores onde aplicamos o nosso dinheiro nos digam a verdade quando nos recomendam as ações nas quais aplicar, queremos que o juízes e os árbitros façam um trabalho correto e verdadeiro, queremos que os nossos empregadores sejam verdadeiros e nos paguem com justiça, queremos que o noticiário, a mídia, e a imprensa sempre nos digam a verdade, bem como os rótulos de remédios e as sinalizações nas estradas e rodovias.
Quando desconfiamos que a verdade nos está sendo negada, ficamos indignados, sentimo-nos traídos, e também que os nossos direitos como cidadãos nos foram tirados. Consideramos a falsidade, a mentira, o faltar com a verdade, como sendo crimes, e a mentira até foi incluída na lista dos sete pecados capitais da hamartologia católica.
Quando demandamos que as pessoas nos digam a verdade, estamos pressupondo que a verdade existe, que é possível de ser reconhecida, e que é válida para todos. Todavia, quando chegamos nos labores acadêmicos, quando assumimos nossa identidade de intelectuais, às vezes cometemos uma grande incoerência, quando passamos não somente a aceitar, mas também a ensinar que a verdade não existe, que ela é relativa, que não existem verdades absolutas, especialmente no campo da moral e da espiritualidade. Até quando dizemos: “não existe verdade!” queremos que as pessoas recebam essa declaração como verdadeira! E quando dizemos que tudo é relativo, ficaremos bravos se alguém considerar essa declaração como sendo também relativa. (2)

O Reino da Teoria de Cristal

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

As caveiras de cristal do último Indiana Jones foram, na verdade, uma fraude. (3) Houve outras: o homem de Piltdown (4), a clonagem de embriões humanos (5). Episódios isolados e vergonhosos, diante de uma tão esforçada comunidade científica.

Desse modo, teorias acabam algumas vezes feitas de cristal, embora nem sempre por serem fraudes. A teoria da inexistência da verdade, como vimos, não resiste ao argumento da verdade exigida por nós. E (como é nosso costume considerar…) a teoria da evolução? Seria ela feita de cristal?

Essa é uma análise difícil e demorada. Todavia, alguns argumentos conferem algumas rachaduras à teoria. Primeiro, ela adota e se fundamenta no princípio do uniformitarismo, que afirma que os fenômenos geológicos que hoje ocorrem sempre ocorreram, desde que a Terra passou a existir, há 4,5 bilhões de anos. Assim, assume que, basicamente, nada mudou nos processos geológicos.

E se isso estiver errado? E se houve uma catástrofe na história que mudou um panorama anterior, estabelecendo outro? Por que isso não pode ter ocorrido? “Ora, porque não há evidências!” é o que dizem. E se houver e estiverem interpretando-as erroneamente, como demonstram WHITCOMB e MORRIS (6)?

O experimento de Miller-Urey: buscava simular as condições da suposta Terra primitiva. A partir de compostos inorgânicos (metano, amônia, etc) obteve aminoácidos (que são as unidades fundamentais das proteínas. Porém, não originou vida.

A simples possibilidade fornece uma rachadura à teoria. Mas, em segundo lugar, como afirmar como verdade que evoluímos se não há provas (diferentes de evidências)? Como afirmar que as bactérias estão evoluindo ao ganhar resistência aos antibióticos, se elas nunca se transformaram em uma célula eucarionte (com núcleo organizado), continuando a serem bactérias (7)? Como afirmar que Deus não pode criar os seres vivos da água e do barro, se assumirmos que Ele é Todo-Poderoso e Doador da vida (o que é bem diferente de afirmar que, de aminoácidos e coacervatos, casualmente aparece vida a partir de compostos inorgânicos)? E como afirmar que o experimento de Miller-Urey demonstra que vida pode surgir de moléculas inorgânicas se o que apareceu foram apenas aminoácidos, que nunca se ligaram para formar uma proteína (8)?

Tudo isso exige grande quantidade de .

A Última Cruzada?

Precisamos, porém, ser justos, e aplicar o mesmo raciocínio à teoria criacionista. O criacionismo defende que nem sempre a Terra teve as mesmas forças atuando na natureza. Uma grande catástrofe (um Dilúvio global) teria mudado drasticamente o meio ambiente, e ocasionado uma grande extinção em massa. Baseada em quê afirma isso? Na interpretação diferente das mesmas evidências assumidas pelos evolucionistas e mais outras evidências deliberadamente desconsideradas por eles, por não se encaixarem em seu modelo.

(Todos os cientistas fazem isso. Ao adotar um modelo teórico para explicar um fenômeno, buscam interpretar as evidências de forma que confirmem ou neguem este modelo. Geralmente, quando uma teoria é amplamente aceita pela comunidade científica, e uma evidência isolada contraria essa teoria aceita, a evidência tende a ser deixada no porão, até que alguém a explique. Exemplo disso é a teoria da abiogênese: afirma que camisas suadas com trigo no canto escuro da casa originam ratos. Levou muito tempo para alguém demonstrar que isso não ocorria. Muitos tentaram, mas um deles conseguiu de forma brilhante. No caso, este foi Francesco Redi. Mas sua explicação foi insuficiente, e a evidência foi reinterpretada, relegada a segundo plano pela comunidade até a época de Louis Pasteur (século XIX), que conseguiu pôr fim a essa teoria, com um experimento genial, confirmando o que disse Redi séculos antes.)

LastCrusadePosterNão vou, neste artigo, mostrar alternativas às evidências propostas pelo evolucionismo, porque não é esse o meu foco agora. O que quero apontar é que o criacionismo é uma teoria que tem ganhado adeptos do design inteligente e do próprio evolucionismo porque tem respostas satisfatórias.

Alguém deve estar perguntando: “Acreditar em Deus, e apelar a Ele em explicações não é anti-científico? Isso é questão de fé!” Depende do uso feito da “apelação”. Mas eu devolvo a pergunta: por que a fé seria anticientífica, se a fé é acreditar em algo? Nesse sentido, seria também anticientífico apelar para extraterrestres ou para o acaso como força criadora. Só mudamos a “entidade”!

Você já reparou que Indiana Jones sempre começa cético em relação às explicações sobrenaturais, tentando explicar tudo naturalmente, até o momento em que os acontecimentos vencem seu ceticismo, e ele passa a crer? Assista “A Última Cruzada” e veja como ele se rende ao suposto poder do Santa Graal de conceder vida eterna. Aqui aprendemos outra lição com ele: não duvidar e questionar é importante, mas ouvir todas (ou o maior número possível de) as explicações, inclusive as sobrenaturais, é mais importante ainda.

A resposta para o sentido da vida e se nós realmente existimos com um propósito não será encontrada no laboratório, porque fé não pode ser medida. A Bíblia ensina que fomos criados por Deus com um propósito e que Nele está o sentido para nossas vidas. Mas que caminho seguir? “Respondeu-lhe Jesus: eu sou caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14:6).

Com isso tudo, não afirmo que Religião e Ciência são incompatíveis. Ao contrário, afirmo que a Ciência não dará todas as respostas. Quanto ao presente, ela dá conta, mas sobre o passado remoto pode apenas especular, emitir hipóteses, sem certezas; e o futuro, além de ser também especulativo (pois baseia-se no passado e presente conhecidos), oferece apenas previsões, com graus de incerteza, condicionadas à manutenção do estado presente.

A Bíblia afirma que o estado presente não será mantido. São dois modelos diferentes, opostos, nesse ponto. Em que acreditaremos? A História mostra o cumprimento das profecias bíblicas, mas eventos imprevisíveis podem pôr por terra as previsões que temos hoje. Só entre nós: você já percebeu que os cientistas também falam do fim do mundo? Converse principalmente com os astrônomos.

Dr. Henry “Indiana” Jones nos ensina a considerar as possibilidades distintas daquelas estabelecidas e aceitas. “E se estivermos errados?”, ele pergunta.  No que acreditaremos? Só existe uma saída:

…A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado. (João 6:29)

Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. (Marcos 16:16)

Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão. (Mateus 24:35)

…e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto? (João 11:26) (9)

Palavras de Jesus, Filho de Deus.

Referências

(1) LOPES, Augustus Nicodemus. Um apelo em favor da verdade. Homilia da reunião do Conselho Universitário da Universidade Presbiteriana Mackenzie, 21 jun 2006. Disponível em: <http://www.mackenzie.br/apelo_verdade.html>. Acesso em 16 jul 2008.

(2) idem.

(3) WALSH, Jane McLaren. A lenda das caveiras de cristal. História viva, ed. 56, jun 2008. Disponível em:  <http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/a_lenda_das_caveiras_de_cristal_4.html>. Acesso em 16 jul 2008.

(4) LOPES, Reinaldo José. A fraude de Piltdown faz 50 anos. Folha de S. Paulo, encarte Mais!, 30 nov. 2003. Disponível em: <http://www.impacto.org.br/t02002.htm>. Acesso em 16 jul 2008.

(5) CAMPO DA CLONAGEM FOI MARCADO POR ALARME FALSO. Folha Online, 18 jan 2008. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u364807.shtml>. acesso em 16 jul 2008.

(6) WHITCOMB, John; MORRIS, Henry M. The Genesis flood. Presbiterian & Reformed Publisher, 1961.

(7) CRISWEEL, Daniel. The “evolution” of antibiotic resistance. Impact, n. 378, dez. 2004.

( 8 ) GISH, Duane. Origin of life: critique of early stage chemical evolution theories. Reimpresso em maio 1976. Disponível em: <http://www.icr.org/article/77/>. Acesso em 16 jul 2008.

(9) Citações bíblicas da Edição de Almeida Revista e Atualizada, 2. ed. 1993, da Sociedade Bíblica do Brasil.

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