Como bactérias e vírus teriam sobrevivido ao Dilúvio? Essa pergunta não é tão difícil quanto os proponentes acham que é. Basta saber um pouco sobre a incrível capacidade de sobrevivência das bactérias para respondê-la.
Bactérias são as células mais “simples”, ou melhor, menos complexas da Biosfera. São compostas de uma parede celular, uma membrana plasmática, o citoplasma (uma mistura de água, íons e proteínas), DNA e RNA, basicamente. Células bacterianas são do tipo procarionte, porque não têm núcleo organizado. É interessante como tendemos a imaginar essas células como mais simples, apenas por não terem organelas revestidas de membranas – o que é um erro. As bactérias, embora menos complexas que as células com núcleo organizado (eucariontes), são altamente complexas, com máquinas e processos celulares que funcionam de forma intrincada e otimizada. É como dizermos que um avião bi-motor não se compara a um ônibus espacial – isso não faz o bi-motor uma máquina simples, apenas menos complexa que o ônibus espacial. O movimento dos flagelos ou o mecanismo de síntese de proteínas são irredutivelmente complexos, e não poderiam ter se originado por acaso (1). Vírus já são diferentes.
Podemos nem considerá-los organismos vivos. Isso porque não possuem células – critério mínimo para ser considerado vivo – e só se reproduzem dentro de outras células. Ou seja, os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios. Se formos considerar os vírus como seres vivos, então só podemos considerá-los assim quando estiverem dentro de outras células.
Além disso, as bactérias têm formas incríveis de sobreviver aos mais diversos ambientes. Uma dessas formas é a esporulação. Através deste processo, as bactérias se desidratam, aumentam a espessura de sua parede celular e, assim, conseguem sobreviver a temperaturas extremas, falta de água e exposição a vários tipos de substâncias tóxicas e radiação. (Quando passam por esse processo, a célula é chamada de endosporo.) Esse processo já está codificado no DNA das bactérias.
“… endosporos com 7.500 anos de Thermoactinomyces vulgaris do lodo congelado do lago Elk, no estado americano de Minnesota, germinaram quando reaquecidos e colocados em um meio nutriente. Foi relatado, também, que endosporos com idade entre 25 e 40 milhões de anos, encontrados no intestino de uma abelha sem ferrão, aprisionada em âmbar (resina de árvore endurecida) na República Dominicana, teriam germinado quando colocados em meio nutriente.” (2)
Além disso, bactérias podem sobreviver transferindo pequenas moléculas circulares de DNA chamadas plasmídeos uma para a outra. “Os plasmídeos podem transportar genes para atividades como resistência aos antibióticos, tolerância a metais tóxicos, produção de toxinas e síntese de enzimas.” (3) Estes são apenas dois exemplos da flexibilidade da sobrevivência dos organismos bacterianos, adaptados aos mais diversos ambientes da Terra.
As bactérias poderiam ter sobrevivido ao Dilúvio utilizando os processos de esporulação ou transferência horizontal. Os vírus teriam sobrevivido dentro de outras células. No entanto, é muito mais provável que ao invés de sobreviver tenham, mais que isso, proliferado, uma vez que havia grande quantidade de material orgânico a ser decomposto na água, e bactérias são decompositoras – o que é excelente, pois dentro de um ano todos os organismos que haviam morrido estavam decompostos, o que evitaria doenças quando Noé, sua família e os animais saíssem da Arca.
Antes do século XVII, a humanidade não fazia a menor ideia da existência das bactérias. Por isso, não tem sentido acharmos que Deus queria que Noé preservasse espécies de bactérias na Arca – embora elas estivessem lá, nos intestinos, pele e no alimento que os animais consumiam. Eventualmente, através da seleção natural, voltaram a se multiplicar e diverenciar em novas espécies. Porém, continuaram sendo bactérias – seres procariontes, parasitas ou não, que abundam em qualquer ambiente do planeta.
Referências
(1) Por exemplo, o DNA produz RNA que, indiretamente, produz proteínas, que são essenciais para que o DNA seja feito, se condense dentro do núcleo (de eucariontes), se duplique e produza RNA, que utilizará proteínas para produzir proteínas. Ou seja, sem proteínas não há DNA e sem DNA não há proteínas. Assim, um não pode ter surgido antes do outro. Ambos precisam ter surgido juntos. Para uma análise completa deste problema e dos flagelos bacterianos veja BEHE, Michael. A caixa preta de Darwin: o desafio da bioquímica à teoria da evolução. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
(2) TORTORA, Gerard J.; FUNKE, Berdell R.; CASE, Christine L. Microbiologia. 8. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 94. As longas datas desta citação são baseadas em processos de datação radiométrica, que fornecem idades relativas. Para uma refutação deste processo veja TAYLOR, Steve; MCINTOSH, Andy; WALKER, Tas. O colapso do tempo geológico. Considere a possilidade, 27 março 2009. Disponível aqui.
(3) Ibid, p. 92. A conjugação é um tipo de transferência horizontal, quando uma bactéria adquire material genético de outra bactéria, do ambiente, ou através de vírus. Isso não leva a transformação de bactérias em protozoários. De acordo com Jerlströem, “essa transferência simplesmente envolve a partilha de genes já presentes nas bactérias, e não resulta no aparecimento de novas ou mais complexas informações genéticas. Quando as condições seletivas são removidas, a informação genética adquirida torna-se redundante e é, eventualmente, descartada pelas células, a fim de abilitá-las a sobreviver entre tipos selvagens de bactérias de crescimento mais rápido.” In: JERLSTRÖEM, Pierre. Is the evolutionary tree turning into a creationist orchard? Journal of Creation 14(2):11-13, agosto 2000. Disponível em: < http://creation.com/is-the-evolutionary-tree-changing-into-a-creationist-orchard>. Acesso em 02 janeiro 2012.
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Olá, Hamilton.
Obrigado pela visita e participação. Me desculpe pela demora em responder, mas as férias me impediam de fazer qualquer coisa no blog. Mas vamos lá. Vou responder suas perguntas sequencialmente.
1. Houve incesto depois do Dilúvio? Entre primos, sim. Os filhos de Noé entraram na Arca com suas esposas, que não eram suas irmãs (mas não sabemos seu parentesco). No entanto, é importante notar que o incesto ainda não era proibido nessa época. Há uma teoria que diz que Deus proibiu o incesto porque o acúmulo de mutações genéticas se tornara grande demais, e a probabilidade de problemas genéticos nos embriões gerados dessas relações ficou grande demais. Mas na época de Noé, com uma humanidade relativamente “jovem”, esse problema ainda não existia, possivelmente.
2. As diferentes etnias podem ser facilmente explicadas por um único fenômeno: a variabilidade genética. Ela permite que todos nós sejamos diferentes uns dos outros, por alterações no DNA. E não sabemos qual era o biotipo de Noé, de seus filhos, de suas noras e de sua esposa.
3. Nem sempre o relato mais antigo é o mais correto. Para se aceitar uma história sobre a origem da vida, deve-se analisar sua plausibilidade. De todos, o relato bíblico é o mais coerente, dentro das características narrativas de cada personagem, da divindade criadora, e de evidências científicas.
Abraço e Deus abençoe,
Daniel.
bom, se só a família de noé estava na arca, houve incesto, isto é fato. mesmo usando qualquer formula de combinação matemática, haverá o incesto. mas o que mais me intiga é a quantidade de diferentes humanos em todo o planeta. se noé e família tem o biotipo árabe, como surgiu os negros na africa, chineses, hindus, índios americanos, escandinavos e outros? é sabido que em todos o cantos da terra há humanos a mais tempo que os 5.711 anos que é o calendário judaico, que é o que conta o tempo desde a criação do mundo por deus. pra min é mais uma mitologia para explicar a existência do homem na terra. creio que seria melhor crer na mais antiga historia da criação do mundo, pois ela está mais perto da origem de tudo.
Olá, James. Que bom que você voltou.
Admitir que os organismos mudam e se adaptam não é admitir evolução – não no sentido de uma espécie se transformar em outra. Veja, as bactérias se adaptam e sobrevivem, porém nunca se transformam em protozoários, apenas em novas espécies de bactérias. Uma evolução darwiniana deste tipo (bactérias -> protozoários) nunca foi observada em lugar nenhum. No entanto, está dentro do modelo criacionista a admissão de que espécies surgem a partir de outras. Na verdade, o mecanismo de seleção natural, que origina novas espécies, proposto por Darwin, faz todo o sentido dentro do relato do Dilúvio. Espécies surgindo a partir de outras, diferenciando-se em função do ambiente em que se encontram. Isso não é evolução, apenas especiação.
O conceito de evolução pressupõe a transformação de um tipo de organismo em outro tipo de organismo, por meio do surgimento de novas informações genéticas, por acaso – o que nunca foi observado e, na verdade, é absurdo, uma vez que informação não surge por acaso. É como se eu esperasse que, de uma sopa de letrinhas derramada na mesa, as letrinhas formassem, por acaso, um poema de Carlos Drummond de Andrade.
Abraço e Deus abençoe,
Daniel.
Daniel !
Não sou biólogo e,portanto, não detenho todo esse conhecimento em biologia. No entanto, ao admitir que esses micro-organismos possuem grande capacidade de se transformar e adaptar a novos ambientes, estamos admitindo a evolução deles, não eh mesmo?? Eh o que de fato acontece na natureza e com os seres vivos o tempo todo. Por isso a evolução faz sentido.
Abraços
James