Cuidados na realização da obra de Deus

Pregado na Igreja Evangélica SOS Jesus em Santo André em 23 de janeiro de 2011.

Sonhei, na terça-feira da enchente, que eu tinha ido para uma aula de natação e, como sempre, levava às costas minha mochila, com vários livros de teologia. Deixei-a ao lado de uma mesa, fui me trocar, e pulei na piscina. Por algum motivo, o ralo da piscina se soltou e, como era grande, puxava muita água, e me puxou junto. Meu pé ficou preso no ralo, e eu morri afogado. Então, me vi fora da piscina, com várias pessoas olhando para dentro dela, mas não para mim. Percebi que eu estava morto e que, dentro de alguns instantes, apareceria diante de Deus. Antes de ir, pensei que deveria levar dois objetos para o céu: um livro e outro objeto qualquer. Imediatamente peguei dois objetos que estavam sobre a mesa: um livro qualquer e um apito.

Apareci diante de Deus, mas não no céu, e sim, na sala de estar da casa onde eu cresci, no Jardim Grimaldi, zona leste de São Paulo. A sala era mais ou menos grande, com paredes brancas e piso meio marrom. Estava tudo lá: a TV de 29 polegadas em cima de um móvel, as três janelinhas compridas de topo arredondado e o sofá. A passagem para a sala de jantar era atravessada por baixo de um largo arco de gesso. No sofá, estavam sentadas pessoas sentadas de frente para Deus que, no sonho, tinha o rosto de uma pessoa comum. E Deus entrevistava as pessoas, com um livro de registro nas mãos. Vendo  um lugar vago, sentei-me, com meus dois objetos, de frente para Deus. Chegando a minha vez de ser entrevistado, Ele abriu Seu livro na página correspondente a mim e começou a conversar:

“Daniel… Você morreu de quê?” Respondi. “E que livro você trouxe?” Respondi: “Senhor, trouxe este.” Deus: “Por quê?” Não sabia o que dizer, afinal, peguei o livro só porque estava mais fácil, em cima da mesa. “Você leu tantos livros na sua vida, e não trouxe nenhum que lhe tenha sido especial?” E então Ele me encarava. E era assustador. Olhando para Ele, não conseguia desviar os olhos, e eu sabia que Ele sabia tudo a meu respeito. Me sentia completamente nu diante Dele. Ele me apresentou tudo o que fiz: que fui professor de Biologia, que busquei levar os alunos a pensarem na existência Dele; que tive um blog sobre criação e evolução, pelo qual tentava defender o ponto de vista bíblico; que preguei na igreja, e em meus sermões pedia que Ele me usasse para tocar as pessoas. E lançou a pergunta crucial: “Você só tem isso para Me apresentar?” Respondi que não (como se Ele já não soubesse!), mas que havia organizado meu orçamento em planilhas. Eu iria incluir missionários nela, mas não o fiz porque não deu tempo, e morri antes. “Você disse que iria. Mas por que não fez? Você tinha videogames e gastou tanto tempo jogando, mas não encontrou tempo para ajudar missionários e pessoas carentes?” Seu olhar estava mais assustador que nunca. E não pude dizer mais nada. Era terrível.

Finalmente, Ele se levantou. Acompanhado de algumas pessoas, cujas roupas diferentes me faziam supor que eram anjos, levou-me para um quarto em construção. Diferente da sala, era um quarto pequeno, sem reboco ou piso, com os tijolos à mostra, material jogado no chão e infiltrações nas paredes. Os anjos se colocaram ao lado Dele, em uma disposição em “U”, e eu fiquei de frente para Deus, que abriu um alçapão no chão e disse: “Daniel, não vou te mandar para o inferno. Você vai voltar para a Terra, viverá de novo e fará mais do que você fez. As habilidades que eu te dei não eram para virar ‘obras em potencial’. Você só tem mais essa chance.” Depois de dizer isso, ressuscitei na Terra, e comecei a relatar o que tinha “vivido” a todos, que me ridicularizavam e não davam a mínima para o que eu dizia, mas isso não era mais um empecilho. Eu só queria saber de fazer o que Deus me mandara fazer. E então, eu acordei do meu sonho.

Como vocês podem ver, é muita informação para um sonho só. Não duvido que Freud explique meu sonho. Só duvido que possa explicar como ele pode ser tão teologicamente correto! De qualquer modo, creio que esse sonho se aplica a todos nós, porque a impressão que eu tenho a respeito da nossa igreja é que estamos indolentes. É como se disséssemos: “Depois de todas as dificuldades que passamos, só o fato de irmos à igreja deve ser suficiente para Deus.” E não nos comprometemos mais que isso, por acharmos que está tudo muito bom.

Esse sonho é um alerta. A Bíblia nos ensina que nós, cristãos, seremos julgados por nossas obras. E a mensagem de hoje é: se não fizermos a obra de Deus com nossos melhores recursos, não teremos recompensa da parte Dele. E para isso nos basearemos no seguinte texto: Lc 21:34-36 e 1 Co 3:107.

“Tenham cuidado, para não sobrecarregar o coração de vocês de libertinagem, bebedeira e ansiedades da vida, e aquele dia venha sobre vocês inesperadamente. Porque ele virá sobre todos os que vivem na face de toda a terra. Estejam sempre atentos e orem para que vocês possam escapar de tudo o que está para acontecer, e estar em pé diante do Filho do homem.” (Lucas 21:34-36, NVI)
“Conforme a graça de Deus que me foi concedida, eu, como sábio construtor, lancei o alicerce, e outro está construindo sobre ele. Contudo, veja cada um como constrói. Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo. Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá recompensa. Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo.
“Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; pois o santuário de Deus, que são vocês, é sagrado.” (1 Coríntios 3:10-17, NVI)

No primeiro texto, Jesus alerta seus discípulos sobre a certeza, mas impresivibilidade de nos encontrarmos com Deus. Ou seja, embora não saibamos o dia, é certo que vamos dar contas de nossas vidas ao Deus Altíssimo. E Paulo, no segundo texto, fala sobre o julgamento de nossas obras, usando a ilustração da construção de um edifício – um prédio, digamos. Esse prédio é a obra de Deus. Vamos analisar essa obra, a fim de conhecê-la melhor e sabermos o que fazer para construí-la, pois nós é que somos os pedreiros.

A primeira coisa que precisamos saber são as características da obra. Quem vai construir precisa saber primeiro quem é o dono da obra, e depois, qual alicerce usará para levantar o prédio. Bem, sabemos que o dono da obra é Deus. 1 Coríntios 3:16 diz que somos templo do (pertencente ao) Espírito Santo, que é Deus. Então, em primeiro lugar, a obra somos nós, e quem a quer realizar é o próprio Deus. Isso é maravilhoso! Deus quer que nós sejamos Seu templo, lugar de Sua habitação. E, aliás, Ele já começou a construção, colocando o alicerce, que é o próprio Senhor Jesus. Os versículos 10 e 11 de 1 Coríntios 3 deixam isso muito claro. É única e exclusivamente na obra e ensinos de Jesus que devemos construir nossas vidas. As pessoas se decepcionam com igrejas, pastores e religião porque começam errado: depositam suas expectativas nessas coisas, quando deveriam depositar todas as suas esperanças em Jesus, em seu sacrifício, ressurreição e salvação. Paulo também diz isso em Efésios 2:19-21.

Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário no Senhor. (NVI)

É exatamente por isso que Jesus diz, no sermão do Monte, que aqueles que ouvem suas palavras e as praticam são como o homem que construiu sua casa sobre a rocha, sobre alicerce resistente. Nem as tempestades são capazes de derrubar essa casa. A pessoa pôs suas esperanças na pessoa certa, Jesus. Como diz Davi, no Salmo 34:

Os que olham para ele estão radiantes de alegria; seus rostos jamais mostrarão decepção. (NVI)

Já sabemos, então, as características dessa obra; agora precisamos estudar o material a ser utilizado. Esses materiais são listados por Jesus em Lucas 21:34-36. O v. 34 nos mostra que o material deve ser isento de impurezas. Vejam que Jesus nos adverte a não nos sobrecarregarmos de libertinagem, bebedeira e ansiedades da vida. Por quê? Pare para pensar: cremos em um Deus que não vemos, na Bíblia, que é um livro muito antigo, em Jesus, que a mídia insiste em tentar provar que não existiu, ou que foi só mais um cara legal, bom mestre etc, mas não Filho de Deus. Priorizamos essa fé e o estilo de vida cristão a todas as outras coisas, inclusive a nós mesmos. E, ao mesmo tempo, temos que trabalhar, estudar, pagar contas, ir ao médico e levar o cachorro pra passear. Ou seja, embora estejamos vivendo neste mundo, priorizamos e esperamos um outro mundo, que não é visível. A realidade, para o cristão, está além da vida cotidiana. A realidade é aquela que não vemos por vista, e sim por fé. Se nos entregarmos ao prazer, como a sociedade faz questão de estimular nos reality shows e em qualquer outro lugar possível, ou às preocupações cotidianas, deixaremos de pensar no nosso lar, que é junto de Deus; deixaremos impurezas em nossos materiais. Foi por isso que, em meu sonho, Deus citou meus videogames. Jogar videogame, ou ter momentos de lazer, não é pecado, exceto quando gasto mais tempo nisso que na seriedade da vida cristã – o que é indolência.

Jesus quer dizer que devemos pagar impostos nos lembrando que no céu não haverá impostos a pagar; trabalhar duro, lembrando que no céu teremos descanso eterno; estudar bastante, cientes de que nossos estudos devem ser usados para a glória de Deus; ir ao médico, lembrando que no céu não haverá enfermidades; resistir às tentações e ao prazer exagerado, lembrando que no céu viveremos prazer e alegria eternos; orar implorando misericórdia quando pecamos, cientes de que no céu não haverá pecado.

Hoje mesmo vi um exemplo disso no Diário do Grande ABC, em uma reportagem sobre o Sítio Joaninha, divisa de São Bernardo com Diadema. É um lugar onde multiplicam-se igrejas, mas não tem  água encanada, esgoto, nem energia elétrica, há lixo e entulho por toda parte, já que a área pertencia a um lixão. Nesse lugar, vive José Elder, convertido há apenas quatro anos. De acordo com a reportagem, ele foi convertido depois que aprendeu que a situação que ele vivencia no Sítio Joaninha é apenas um prelúdio da vida eterna. Cito-o: “Só assim para olhar essa terra de ninguém e sorrir.” E ele está certíssimo.

Os outros materiais que Jesus diz para usarmos na construção da obra de Deus, no v. 36, são a vigilância constante e a oração. Estes são o cimento que une os tijolos de nossa obra. Se não estivermos atentos às ciladas que o diabo e nossa natureza preparam, corremos o risco de ver a obra desmoronar na nossa frente. E isso porque precisamos sempre ter em mente o prazo de entrega da obra.

As palavras que saltam aos olhos no texto de Lucas são aquelas do final do v.34 e v. 35, a chave para a compreensão de tudo o que estamos dizendo.

… e aquele dia venha sobre vocês inesperadamente. Porque ele virá sobre todos os que vivem na face de toda a terra. (NVI)

Hoje não vou focar a volta de Jesus, mas nosso encontro com Ele, que pode ser a qualquer momento, já que ninguém sabe o dia em que vai morrer. Isso significa que entregaremos a obra em um dia desconhecido. Acho isso genial no ensino de Jesus. O construtor gosta de ter um prazo, um cronograma, porque assim ele pode saber se pode atrasar, o quanto pode atrasar, se preparar para imprevistos. Ao cristão, porém, esse prazo não é concedido, pelo simples motivo que Deus não quer que ele se atrase, ou que dependa dos outros para ser cristão, exceto do próprio Deus. É certo que um dia entregaremos nossas obras a Deus, mas quando é impossível saber. Isso nos deixa com uma única alternativa: a cada dia, nosso trabalho tem que ser o melhor possível, já que não sabemos quando prestaremos contas a Deus. Embora chocante, isso é tranquilizador. Porque, quando o dono da obra chegar, teremos o que mostrar para ele, como na parábola dos talentos.

Porém, devemos estar também preparados para o que Deus vai achar do nosso trabalho. Nossa obra será rigorosamente avaliada, e aprendemos isso voltando a 1 Co 3, v.15 e 17. Muitas pessoas se enganam quando dizem que os cristãos não serão julgados. Nada pode estar mais longe do ensino bíblico. Vejam o que Paulo diz:

Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá recompensa.  Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo. (NVI)

Esse texto ensina claramente aquilo que é o medo de muitas pessoas. Você pode viver uma vida inteira na igreja, mas no final de tudo ficar sem recompensa nenhuma por seu trabalho, embora seja salvo. Isso é determinado pela qualidade, e não pela quantidade, do seu trabalho. A qualidade é o melhor de cada um de nós, pois não há uma fórmula pré-definida. Por isso entendi meu sonho como bíblico. Deus não poderia me mandar para o inferno por causa das minhas obras, porque a salvação é pela fé. Porém, que recompensa eu teria? Ele teve misericórdia de mim! Mas engana-se também quem pensa em usar isso como justificativa para o ócio espiritual.

Há pessoas que se conformam com o seguinte pensamento: “se eu só estiver no céu, como faxineiro ou engraxate, já está bom para mim.” Essa falsa modéstia não vai te ajudar, se você pensa assim. Deus não te chamou para isso, mas para receber prêmios e recompensas pelo trabalho desenvolvido a Ele. Até mesmo Jesus suportou a cruz, por causa da recompensa que receberia na glória, com o Pai! Buscar as recompensas de Deus não é errado. Mas devemos considerar também o versículo 17.

Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; pois o santuário de Deus, que são vocês, é sagrado. (NVI)

E não fazer nada leva a um outro perigo:

porque será exercido juízo sem misericórdia sobre quem não foi misericordioso. A misericórdia triunfa sobre o juízo! De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.  (Tg 2:13-17, NVI)

Sua presença na igreja pode ser totalmente inútil ou destrutiva.  Ambas terão como castigo a condenação eterna. Ser servo de Deus implica em serví-Lo de algum modo. Você se lembra da história de Belsazar, em Daniel 5? Ele tinha os utensílios sagrados do Templo de Salomão em suas câmaras reais. Em vez de homenagear o Senhor com tudo isso, usou o que Deus lhe tinha dado para se divertir e ter prazer. No meio da festa de arromba que ele deu, apareceu uma mão flutuando no meio do salão, escrevendo na parede. A música parou, e ele leu: “Mene, mene, tequel, parsim.” Como ninguém sabia o que significava, chamaram Daniel, que traduziu tudo. Entre outras coisas, dizia: “Foste pesado na balança e achado em falta.” Naquela noite, Belsazar morreu, e seu reino foi destruído, conquistado pelo medo Dario.

Assim, a pergunta que eu te faço é: se Deus te pesar na balança, você vai corresponder às expectativas ou será achado em falta? Que materiais você está usando para fazer a obra de Deus? Os melhores materiais que você tem disponível ou o que tem sobrado? Cuidado! Quando for prestar contas, todo o seu trabalho pode ter sido em vão. Pior: será que seu trabalho tem edificado ou destruído a igreja? Pense, reflita, arrependa-se!

Em meu sonho, Deus me julgou na sala da casa onde cresci não por acaso. Naquela sala e naquele sofá eu tive minhas primeiras experiências com Deus. Li a Bíblia pela primeira vez, com onze anos, naquela sala. Orava todos os dias pedindo amigos e salvação para meu primo naquele sofá. E, passados os anos, uma distância esquisita se formou entre mim e meu Deus. Não sei por quê, mas estou disposto a desfazer essa distância. Se você quiser, pode pedir ajuda a Ele também. Ele é nosso Pai. Ouça essa canção, de Stênio Marcius, e depois, ore.

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